sexta-feira, 12 de maio de 2006

A Bolívia não é nossa inimiga. Ao trabalho, senhor presidente (12/05)

Alguma coisa parece fora de lugar nos últimos movimentos da política externa do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Isso está longe de ser um problema insolúvel, pois não há quem acerte sempre. Josef Stálin fez um acordo com Adolf Hitler em 23 de agosto de 1939 com o objetivo de adiar a ofensiva alemã contra a União Soviética. Deu certo. Uma semana depois a Alemanha atacou a Polônia e , automaticamente, entrou em guerra com a França e o Reino Unido.

Mas o tempo foi passando e o líder soviético começou a acreditar que o Pacto Ribbentrop-Molotov protegeria Moscou por um longo período. Por isso, não considerou as informações que vinham de Richard Sorge. Stálin só caiu na real em 22 junho de 1941, quando a Alemanha o atacou com força máxima.

Foi um dos grandes erros de avaliação na história das guerras, mas isso não impediu que menos de quatro anos depois a bandeira vermelha com a foice e o martelo estivesse hasteada no Reichstag, em Berlim (clique para ampliar a foto). Outro equívoco gigantesco foi a cochilada americana que permitiu aos japoneses atacarem Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941. Hoje, depois de duas bombas atômicas explodidas em seu território e de uma ocidentalização forçada, o Japão é o mais pró-americano dos países orientais.

Diferentemente dos dois exemplos anteriores, a Bolívia não é nossa inimiga. Ao contrário, é um país amigo. Mas Lula e a diplomacia brasileira subestimaram grosseiramente Evo Morales e o alcance do movimento social e político que o levou ao poder. Antes da nacionalização do petróleo e gás bolivianos, tudo dá a entender que o Itamaraty e o Palácio do Planalto haviam terceirizado para a Petrobrás a condução das discussões com Morales e vinham fazendo vista grossa para a conspiração separatista na região oriental do país vizinho, movimento que levava todo o jeito de estar inspirado por brasileiros.

Jogaram errado. Acontece nas melhores famílias. Os bolivianos, que vinham sendo cozinhados em fogo brando, nacionalizaram as reservas e a indústria petrolífera e criaram "sua excelência, o fato político", como dizia Ulysses Guimarães. Jogaram certo. Marcaram um gol. Colocaram Lula e o Itamaraty nas cordas, sem falar da Petrobrás.

Há fortes pressões para que o Brasil exerça em relação à Bolívia o diktat de grande potência, que fale grosso e "resgate" a supostamente ferida honra nacional. Não acho que o Brasil tenha sido humilhado nesse episódio. E, se o foi, está em excelente companhia (Espanha, Reino Unido, Argentina). Política externa não se faz com o fígado. Está na cara que os vizinhos têm ressentimentos históricos em relação a nós (Acre) e que avaliam ter feito um mau negócio nos acordos para a venda de gás.

Como disse, a Bolívia não é nossa inimiga, ainda que o chauvinismo pátrio deseje e trabalhe para transformá-la nisso, com o mal-disfarçado propósito de reavivar o nosso pró-americanismo latente. Lula precisa, acho eu, tomar a si a condução política do assunto e resolvê-lo pessoalmente com Morales. Seria bom se o presidente pusesse um fim na influência que o caso vem sofrendo do autonomismo da Petrobrás e da intrigalhada do Itamaraty (a interminável luta interna entre americanófilos e terceiro-mundistas). Mas penso que isso só será conseguido se Lula arregaçar as mangas e encarar o desafio de negociar com um aguerrido líder sindical, que arrebatou o apoio maciço de seus compatriotas e deve vencer folgadamente as eleições para a Assembléia Constituinte de seu país.

A tarefa de Lula é bem mais simples do que foram a de Stálin e a de Franklin Delano Roosevelt (clique para ampliar a foto de ambos, com Winston Churchill na Conferência de Yalta) mais de meio século atrás. É hora de tentar um amplo acordo bilateral com La Paz, que cubra os contenciosos (terras, gás) e feche o caminho que leva à divisão sul-americana. Portanto, ao trabalho, senhor presidente. E uma boa dica de por onde começar está na reportagem em que a presidente do Chile, Michelle Bachelet, pede para que não se demonizem Morales e seu colega venezuelano, Hugo Chávez. "São líderes que vieram para combater a pobreza e as desigualdades", diz a festejada socialista de La Moneda.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).
Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

3 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

Bom o comentário. Deixa antever que diplomacia e política internacional não faz-se apenas com flores nas mãos. Mas também faz refletir sobre a prepotência irracional da esperteza, por pregar a utilização de espadas. Entre flores e espadas, deve sempre prevalecer o juízo, de quem o tenha, aliado à sua capacidade de propiciá-lo a quem não o possua. Assim, a palavra da hora é juízo, muito juízo.

sexta-feira, 12 de maio de 2006 11:10:00 BRT  
Blogger Angelo da C.I.A. disse...

Alon, eu acho que ser duro não tem nada a ver com ser imperialista ou impor vontade. Eu sou duro na defesa de meus valores e dos meus bens. O governo brasileiro fazer isto caso ache que foi ameaçado ( em seus bens ou valores ) acredito que deva fazer o mesmo. O que é pior, um líder "fraco" ou um líder "forte"?

Quem deu porrada na mesa foi a Bolívia. E não tinha o porquê. No mais, não se trata de nacionalizar recursos que já eram nacionais ( deles ). Trata-se de expropriação de indústrias. Por acaso, uma é brasileira. Se querem ficar com ela, paguem o valor certo. Ou senão, que a Petrobrás jogue uma bomba em seu maquinário e eles se virem para aprender! ( hehehe, este final é pura provocação )

sábado, 13 de maio de 2006 00:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O, Angelo, nao houve expropriacao de nada, so nacionalizacao das reservas e da industria. O que a Bolivia vai pagar sera discutido agora.

sábado, 13 de maio de 2006 00:58:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home