quinta-feira, 27 de abril de 2006

Somos brasileiros e sul-americanos. Conformem-se (27/04)

Não é novidade que somos um país de costas para os nossos vizinhos. E, cinco séculos depois do Descobrimento, ainda estamos concentrados no litoral. Tentaram resolver esse problema com a mudança da capital para Brasília. Melhor seria se a Independência tivesse sido acompanhada da Abolição (quase sete décadas entre ambas) e se a República tivesse trazido com ela a Reforma Agrária (mais de sete décadas, de Deodoro da Fonseca ao Estatuto da Terra do presidente Castello Branco). Mas, não adianta chorar sobre o leite derramado. Somos produto de nossa história, para o bem e para o mal.
Principalmente os paulistas (de nascimento ou adoção), identificamo-nos mais com Miami, Nova York ou Paris do que com o Nordeste. Nada a ver com a cor ou a origem européia. Pois os gaúchos, os catarinenses e os paranaenses são brancos, de sobrenomes alemães e italianos, e lideram há três décadas a ocupação da fronteira agrícola, no Centro Oeste e no Norte. Há algo que ainda não foi bem explicado nesse cosmopolitismo cético e blasé que se respira em São Paulo. Ao observar a aversão que a inteligência de São Paulo dedica ao Brasil real, quase não dá para acreditar que as terras paulistas tenham sido no passado a origem dos bandeirantes que formaram as fronteiras do Brasil moderno.
Outro dia um amigo tateou uma explicação para isso. Ele acha que São Paulo nunca se recuperou da derrota de 1932, na Revolução Constitucionalista, contra Getúlio Vargas. Nunca aceitou ter que dividir o poder federal com o “atraso”. Azar. Aqui, como na África do Sul de Nelson Mandela, a democracia foi (re) construída com base no “um homem um voto”. São Paulo tem menos de um quarto do eleitorado. Se quer mandar no Brasil, tem que liderar, e não achar que pode impor o que quiser.
Liderar em vez de impor é uma atitude sábia. É o que o Brasil tenta -muitas vezes tateando- fazer com os vizinhos. Sempre foi importante, mas agora é mais. Porque estamos cercados de países que assistem à emergência de novas forças sociais e políticas. E que desconfiam de nós. Desconfiam de que só não somos mais imperialistas por falta de oportunidade. E o pior é que estão certos. O Brasil vê os vizinhos, em especial os andinos (onde há grande populações de origem indígena), mais ou menos como São Paulo vê o Nordeste.
Só seremos líderes na América do Sul se aceitarmos que nossos vizinhos têm o direito à auto-determinação que desejamos para nós próprios. Há uma gritaria na praça desde que o presidente da Bolívia, Evo Morales, decidiu praticar lá o que já fazemos aqui: nacionalizar as reservas de petróleo e gás. Há também quem ache um absurdo as empresas brasileiras terem que respeitar a lei boliviana. E o gasoduto do venezuelano Hugo Chávez é tratado com o preconceito e a irracionalidade que mal disfarçam o ódio ao presidente do país vizinho.
Quando Angola libertou-se do domínio português, o Brasil correu a reconhecer a independência do novo país. Na época, éramos um regime militar de direita enquanto o novo governo angolano era comandado pelos comunistas do MPLA. Esse gesto ousado do Itamaraty ajudou muito a que nos tranformássemos em um parceiro ainda mais influente das ex-colônias africanas de Portugal. Ajudou a escancarar-nos as portas da África. É uma página brilhante de nossa história diplomática e uma das marcas patrióticas da passagem do general Ernesto Geisel pelo Palácio do Planalto.
Aprendam com Geisel. Deixem o interesse nacional falar mais alto que a ideologia. Respeitem Chávez, Morales e o peruano Ollanta Humala (que não é favorito contra Alan García). Atrás deles existem povos que decidiram conduzir os seus próprios destinos. Não vão querer trocar o diktat de Washington pelo da Avenida Paulista.
Resmunguem à vontade, mas conformem-se. Somos brasileiros e sul-americanos. Isso não vai mudar. O mundo é que mudou. O colonialismo morreu há mais de meio século, ainda que haja entre nós quem não tenha percebido.

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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

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quinta-feira, 27 de abril de 2006 11:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

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quinta-feira, 27 de abril de 2006 11:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Boa Alon!
Grande texto!
Edson Aráujo

quinta-feira, 27 de abril de 2006 15:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Qual Nordeste você se refere? Porque há uma parte também "paulista" (branco, elitista, cosmopolita(??) e identificado(??) com Paris...Londres..Miami..)

quinta-feira, 27 de abril de 2006 23:50:00 BRT  
Anonymous Adriana Lima disse...

Gostei do texto. Mas, o Nordeste está em ascensão, e, São Paulo com os seus problemas, está longe de ser uma Paris!

terça-feira, 29 de outubro de 2013 00:25:00 BRST  

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