domingo, 30 de abril de 2006

Quem vem depois, leva vantagem (30/04)

Postei na seção Textos de outros um artigo do empresário e economista Luiz Carlos Mendonça de Barros ("Um olhar mais profundo"), disponível no site tucano e-agora. Só o fato de ser as duas coisas, economista e empresário, já credencia o autor. Economistas costumam preferir as abstrações em vez de trabalhar a realidade. Muitos deles têm aversão a números, por incrível que pareça. Já empresários precisam remunerar os empregados, pagar os impostos e ainda dar um jeito de sobrar dinheiro no fim do mês. E sempre de olho na concorrência, pois não podem perder mercado. Para o empresário, dar as costas à realidade e cair em divagações é exercício perigosíssimo.
O texto de Mendonça de Barros é expressão dessa dualidade.
Nele fala o empresário: "Vivemos um momento virtuoso, com a inflação controlada, um crescimento econômico elevado para os padrões históricos brasileiros, embora bem menor do que o de outros países emergentes, e uma melhora acentuada na renda dos segmentos mais pobres da sociedade brasileira. Podemos criticar, e meu leitor sabe que tenho feito isso neste espaço, a ausência de muitos ajustes que deveriam estar sendo feitos para aumentar ainda mais essa dinâmica. O desempenho do Brasil está muito aquém do potencial, mas o país está no caminho certo".
Mas fala também o economista tucano: "O valor do novo salário mínimo, medido em termos de relação com o valor da cesta básica, é hoje cerca de 60% maior do que o que vigorava há 12 meses. Isso ocorre apesar de um aumento nominal de apenas 17% neste mesmo período. A diferença corresponde aos efeitos da valorização do real. Ora, a queda da cotação do dólar ocorreu porque o Brasil gera hoje um excesso próximo a US$ 30 bilhões anuais em sua balança de pagamentos. E essa sobra é fruto da expansão expressiva de nossas exportações gerada por uma política de abertura comercial iniciada de forma sistemática nos anos FHC".
Reparem no "apenas". Um aumento nominal de "apenas 17%", quando a inflação vai pela casa dos 5% corresponde a um aumento real de 12%.
Mas o melhor está no final, quando Mendonça de Barros protesta contra Luiz Inácio Lula da Silva. Não pelo presidente errar na política econômica, mas por acertar: "E para mostrar que o discurso atual do presidente Lula é ainda mais leviano, basta dizer que durante décadas ele e seu partido político defenderam a idéia que exportar era uma forma de diminuir a renda dos brasileiros. No caso dos alimentos, isso até era considerado por eles um crime de lesa-pátria. Temos em nossa língua uma palavra que expressa bem o que está sendo praticado pelo presidente: oportunismo".
O texto é a síntese quase perfeita do maior problema comunicacional do PSDB nesta campanha para presidente. Lula não pode estar tão errado assim, se adota e reforça uma política iniciada por FHC. No máximo, pode-se acusá-lo de "oportunismo". Mas, então, por que mudar?
Os tucanos usaram a âncora cambial entre 1994 e 1998, mas promoveram simultaneamente uma farra fiscal. Quebraram a espinha da inflação, mas alimentaram o monstro feroz da dívida pública. A conta veio em 1999, quando tiveram que desvalorizar a moeda e foram impelidos a uma política de austeridade, com superávits primários crescentes.
Lula beneficia-se dos acertos e também dos erros do PSDB na condução da economia. A vida é assim mesmo. Quem vem depois leva a vantagem de alguém já ter trilhado o caminho. Lula aplica simultaneamente as âncoras cambial (monetária) e fiscal, e colhe por isso resultados excelentes na economia. Sim, crescemos menos do que nossos vizinhos, mas até Luiz Carlos Mendonça de Barros sabe que isso acontece porque eles não investem o que nós investimos na área social.

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4 Comentários:

Anonymous augusto disse...

Prezado Alon:
Percebo sua preocupação em estimular a discussão programática à margem da mesmice da falsa discussão sobre ética. Por outro lado, como seu leitor, gostaria de retribuir suas ótimas "provocações" com temas que, afinal, estão na pauta política, tais como Mídia, Garotinho e Arcanjo por exemplo, sobre os quais gostaria de conhecer uma visão inteligente. Um abraço.

domingo, 30 de abril de 2006 19:06:00 BRT  
Anonymous Joel Palma disse...

Alon, vejo como muito sérias suas análises sobre as perspectivas das próximas eleições, notadamente voltadas para a realidade sociológica brasileira e calcada em técnicas da comunicação social.
Na minha opinião, o PT via-se diante de realizar a Revolução fora do sistema de poder, mas dentro da realidade do sistema (fazendo tudo muito bonitinho, como nunca foi feito, mesmo pelos que hoje assim o exigem), consideradas suas leis e regras, ou pela mudança dentro do sistema de poder, o que sempre foi a exigência dos detentores do poder, crentes que assim, pelo Legislativo, poderiam adiar mudanças... Ocorre que a consciência de que se poderia usar o sistema de poder e suas formas de ação para realizar as mudanças (em verdade, diante do jogo vigente no sistema, a única saída democrática para mudanças)ficou clara, e o PT utilizou-se dos mesmos mecanismos antes utilizados para a manutenção do status quo, só que de forma a implantar, gradualmente, as mudanças preconizadas. Ao perceberem isto, aqueles que detêm o Poder, alijados das decisões, pois que os vendidos ao sistema venderam-se ao PT, na tentativa de não serem ultrapassados, puseram a boca no trombone.... O PT, não discuto se corretamente ou não, utilizou-se dos mecanismos do jogo de poder (não do jogo democrático, que este nunca é jogado dentro das regras que deveriam regê-lo) e vai vencer parte do sistema, num primeiro momento... Sociologicamente e psicologicamente, a ação do PT, a reação da burguesia são passos no aperfeiçoamento do sistema: com medo de que o PT domine o sistema de poder, a burguesia o aperfeiçoará e lhe dará mais transparência, para não ser dominada pelo PT. Querendo ou não, é o sistema se purgando, se reciclando, quem sabe para não ser mais da mesma coisa das outras mudanças....

domingo, 30 de abril de 2006 20:11:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Alon, não passou despercebido o editorial da Folha de São Paulo de hoje sobre superávit e o seu texto. (Jornalismo plural (26/04) )
Parabéns

segunda-feira, 1 de maio de 2006 11:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Bloguista Alon, nem a velha frase popular: é caindo que se aprende vale aí no Brasil. Se não me engano a cadeira de história nos ensina para não cometermos os erros do passado no futuro, porém, aí prevalece a miopia, a memória curta e a falta de leitura que o comandante mor até se vangloria.
Tivemos chance histórica de mudanças na Constituição de 88, ledo engano, até o próprio pres. da época falou que esta deixou o país ingovernável. Os deputados constituintes da época que estão a maioria no poder hoje estão usufruindo da Carta Magna que fizeram sobre medida para eles mesmos.
Daí para frente foi um festival de emancipação de prefeituras, criando cidades fantasmas sem arrecadação nenhuma, só com despesas de prefeitos, vices, vereadores e funcionarios fantasmas. Com isso secou as verbas para segurança, educação que deveriam ser tão bem remunerados como os politicos.
O dia que o comandante mor usar a frase que o povo gosta de ouvir, cortar na propria carne, e cortar o Estado pela metade, teremos esperança de um Brasil seguro, justo e próspero.
Yoshio - Japão

segunda-feira, 1 de maio de 2006 16:35:00 BRT  

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