quinta-feira, 6 de abril de 2006

Por que Luiz Inácio é mais esperto que Toledo (06/04)

Trecho de reportagem hoje de O Estado de S.Paulo sobre o presidente do Peru, Alejandro Toledo:

"
Os resultados macroeconômicos alcançados pela administração são realmente admiráveis. O PIB cresceu impressionantes 6,7% em 2005 e ficou em US$ 170 bilhões, após um crescimento de 5,7% no ano anterior. A expectativa de crescimento para este ano é de 5,8%, o que indicaria a sustentabilidade do ritmo atual. As reservas internacionais chegam a US$ 14,5 bilhões, depois de Alberto Fujimori ter deixado escassos US$ 500 milhões nos cofres públicos ao fugir do país em meio a uma imensa crise, em 2000.

A inflação foi de 1,5% no ano passado. Nos cinco anos do governo de Toledo as exportações do Peru cresceram quase 150%, o risco país, que mede a confiança dos investidores externos, é um dos mais baixos do continente e as dívidas externa e interna se reduziram em relação ao PIB. A perspectiva da assinatura de um tratado de livre comércio com os EUA, que Toledo quer firmar antes de deixar o cargo, projeta um desempenho econômico ainda maior."

Outro trecho:

'"
Se a economia melhorou mesmo, como andam dizendo por aí, alguém está metendo a mão no dinheiro', diz Luis Barrios, motorista de microônibus, de 47 anos, na porta de seu casebre sem reboco em San Martín de Porres, um dos distritos mais pobres de Lima, a capital. Barrios mora em dois cômodos com a mulher e três filhos. A mais velha, de 14 anos, deixou os estudos porque não encontrou vaga em nenhuma escola próxima. 'Desta vez, não voto em ninguém. Só vou votar para não ter de pagar multa', diz, em relação à eleição de domingo.

A maior parte dos moradores do bairro está entre os 54% da população peruana que vivem abaixo da linha de pobreza. Luis, assim como seus vizinhos, se sente traído pelo atual governo liderado pelo presidente e ex-engraxate Alejandro Toledo, que, para ele, falhou no seu prometido esforço de reduzir a desigualdade social do país.

Toledo, o presidente de origem indígena que sempre gostou de ser considerado a reencarnação da divindade incaica Pachacútec, amargou no ano passado um índice de aprovação de apenas 6%, o mais baixo entre os líderes da América do Sul. Embora tenha recuperado um pouco da popularidade - chegou a 19%, segundo pesquisa divulgada no domingo -, seu partido, o Peru Possível, está ameaçado de não alcançar o mínimo de votos necessários para eleger uma bancada no Congresso."

Luiz Inácio Lula da Silva foi mais esperto que seu colega peruano. Investiu bilhões em programas sociais que lhe dão o apoio da população mais pobre. É uma escolha política: em vez de poupar mais, investir mais e crescer mais, o Estado distribui mais dinheiro para os mais pobres, com programas como o Bolsa-Família. Veremos em outubro se a escolha do presidente brasileiro, além de acertada, terá sido suficiente para reelegê-lo.

Para ler a reportagem completa de Roberto Lameirinhas, enviado especial, clique aqui.

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4 Comentários:

Anonymous Marcos disse...

É uma pena que o povo peruano pense assim. Lembram quando Delfin Neto disse que era preciso fazer o bolo crescer e depois dividir? Nestes ultimos 25 anos de estagnação, se o Brasil tivesse crescido apenas 1,5% a mais em sua renda per capita quanta diferença não faria! Teriamos um PIB muito maior e o óbvio, mais dinheiro para Educação, Sáude, pesquisas., etc... Espero que o povo peruano não caiam na mesma armadilha que o Brasil. Independente se o governo é de direita ou esquerda, crescimento deve ser a principal meta .

quinta-feira, 6 de abril de 2006 12:35:00 BRT  
Anonymous Jose Augusto disse...

Existem alguns casos em que um menor crescimento econômico pode significar melhorias para a população e progresso, sobretudo quando há mudanças tecnológicas ou gerenciais que barateiam produtos e serviços.
O caso mais típico são as perdas que as empresas de telefonia vem sofrendo com a Internet, e seus subprodutos como o VOIP (telefonia pela internet). As pessoas estão tendo mais acesso à comunicação, e pagando menos por isso, tendo inclusive muitos serviços gratuítos. Consequentemente o PIB em valores absolutos do setor de telecomunicações vem caindo (e vejam que esse setor tem um grande peso no PIB Nacional).
Projetos de inclusão digital em massa bem sucedidos, serão excelentes para a sociedade e terão um efeito devastador nas empresas tradicionais de telecomunicações.
Da mesma forma, uma boa educação de nossas crianças na ecologia e para o consumo, traria perdas para empresas de energia, fabricantes de embalagens, produtos descartáveis e outros setores. O PIB desses setores diminuiríam.
O advento dos microcomputadores e redes derrubaram custos com computação de mainframes. A popularização de impressoras e de meios digitais, também tiraram receitas das empresas de fotocopiadoras, além de gravadoras de música. Mesmo usadas em maior escala, esses tecnologias por serem muito mais baratas unitariamente, contribuem em menor valor para o PIB no total.
Ganhos de produtividade na indústria, agricultura e serviços, à primeira instância produzem mais lucros, mas a médio e longo prazo barateiam os produtos e serviços, podendo provocar queda do PIB em valores absolutos.
Outro fator importante é quando o crescimento econômico, ainda que pequeno, é acompanhado da desvalorização da moeda. Não é perceptível imediatamente, mas a verdade é que o brasileiro está ficando mais rico em relação ao resto do mundo. Até para quem ganha salário mínimo, o poder de compra é maior na hora que precisa de um telefone celular ou de um televisor, por exemplo, que tem insumos importados.
Esses dois efeitos ainda são pequenos no Brasil. Não justifica acomodarmos a baixas taxas de crescimento. Mas esse fenômeno já aconteceu no Japão no passado recente, com a produção de produtos industrializados mais baratos que os estrangeiros e a consequente valorização do Iene. O mesmo acontece com a China, tendo a vantagem de que atingir altas taxas de crescimento. Mas não vamos ignorar que a China e o Japão percorreram um longo caminho de capacitação antes de poderem colher resultados. Nada foi fruto de qualquer choque heterodoxo, nem de simples voluntariarismo polítco. É desses esforços de capacitação que ainda estou sentindo muita falta no Brasil, muito mais do que de crescimentos econômicos rápidos sem melhora na distribuição de renda.

quinta-feira, 6 de abril de 2006 21:47:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon:
Veja como são as coisas, ao ler pela manhã o Estadão, de todas as notícias, esta foi a que mais me chamou a atenção. Certamente, apenas mais uma confirmação da tese apresentada no seu post seguinte. Porém, o quê considerei mais importante não vi no texto do link. Ou seja, uma listagem do "calcanhar de aquiles" de Toledo, da qual reproduzo dois itens para reflexão, não só de todos,mas tb daqueles que adoram viajar no ilusionismo neo-liberal que promete, novamente e sem nenhuma comprovação de eficácia, maravilhas requentadas com 15 anos de validade vencida:
(SIC)1) Falhas Políticas - O governo não conseguiu convencer a população das vantagens do controle do gasto público.
2) Crescimento Localizado - Setores da economia que impulsionaram o avanço do PIB (mineração e agricultura) geram poucos empregos. Um abraço.

quinta-feira, 6 de abril de 2006 23:25:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

O problema da América Latina, é que, políticas que seguiram o consenso de Washington, levaram o Estado a ser administrado macoeconomicamente à semelhança de uma empresa. Os governos fazem uma reengenharia no Estado (chamam-na de reformas) nos moldes das empresas, cortando custos, reduzindo postos de trabalho, terceirizando ou vendendo áreas deficitárias (privatizações e concessões), etc. Nas empresas, os resultados são distribuídos entre os acionistas. Na administração do Estado, cuja razão de ser é gerir o bem comum coletivo, os "acionistas" deveriam ser os cidadãos,portanto esse crescimento deveria ser distribuído na forma de benefícios em saúde, educação, segurança, previdência, geração de emprego e renda, e a devolução de impostos excedentes, se houver. Estes cidadãos "acionistas" estão se sentindo lesados e cobrando o seu quinhão nos resultados. Quando há crises, todos são chamados a contribuir, seja com impostos, com perda de direitos, seja com outros sacrifícios e ônus. Quando há crescimento, os bônus são colhidos pela iniciativa privada e, muitas vezes, por serem corporações globalizadas, sequer são reinjetados na economia nacional.
Essas elites governantes, intelectualizadas e preparadas em renomadas Universidades, geralmente norte-americanas, não souberam (em alguns casos não quiseram) oferecer respostas adequadas a esses cidadãos "acionistas". Por isso estão sendo destituídas por eles.

sexta-feira, 7 de abril de 2006 11:28:00 BRT  

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