quarta-feira, 12 de abril de 2006

Os pobres, Lula e os Capitães Ahab da oposição (12/04)

Nós, brasileiros, resistimos a chamar as coisas pelo nome. Aqui branco é branco, mas fica feio chamar o preto de preto. O chique é dizer negro, ainda que por coerência devêssemos então chamar o branco de alvo. Mas coerência não foi nem é nosso forte. Nos Estados Unidos, políticamente correto era usar black, antes de african-american virar regra. Nigger sempre foi pejorativo. Quem quiser, e entender, que explique. Blog serve para isso.

Outra palavra que nos incomoda é pobre. Acho que incomoda menos desde que Luiz Inácio da Silva virou presidente. Antes, os políticos usavam eufemismos. Falavam, por exemplo, dos humildes. Por associação, os ricos deveriam então ser chamados de arrogantes. Outra expressão usada, esta com algum verniz sociológico, é os de baixo. Imagino que tenha referência na pirâmide social estratificada por renda. É asséptico e adequado. Falamos nos de cima e nos de baixo com um distanciamento acadêmico protetor e também politicamente correto.

Resolvi escrever este texto sem números e sem aspas. Ambos são úteis, mas servem de escudo quando queremos dar opinião e, ao mesmo tempo, simular neutralidade. Os números de pesquisas eleitorais, por exemplo, funcionam como uma espécie de manto sagrado tecido com verdades quantitativas. Santo Descartes. Já as aspas nos abrigam sob o guarda-chuva da dúvida. Quando coloco alguma coisa entre aspas é porque não quero que saibam se estou querendo dizer aquilo mesmo ou o contrário. Manuais de redação deveriam proibir aspas, a não ser para declarações.

Bem, mas vamos ao ponto. O que se pode deduzir das pesquisas Datafolha e CNT-Sensus? É algo muito simples. Lula lidera com folga e se mantém favorito porque tem o apoio maciço dos pobres, especialmente no Nordeste. Como os pobres são a maioria da população brasileira e o Nordeste é a maior região do país (vamos considerar São Paulo uma região à parte), Lula tem boa vantagem sobre Geraldo Alckmin. Quando sua candidatura era ainda uma possibilidade, José Serra empatava com Lula porque tem mais votos entre os pobres do que os demais tucanos, possivelmente pelo trabalho desenvolvido no Ministério da Saúde e pela biografia de esquerda.

Para ganhar a eleição, PSDB e PFL precisam convencer parte substancial da população pobre de que um possível governo tucano-pefelista será melhor para os pobres do que está sendo o governo de Lula. Não vai ser fácil, ainda que não seja impossível. Serra conseguiu isso dois anos atrás quando derrotou Marta Suplicy e virou o prefeito de São Paulo. Mas Serra fez uma campanha sem ódio ao PT e a Lula. Foi esperto. Grande parte da população interpreta o ódio ao PT como repulsa aos pobres. E muitos destes enxergam o ódio a Lula como um ódio de classe. Com razão ou sem, pouco importa. Assim é se lhes parece.

A cúpula da oposição, em alguns momentos, lembra o Capitão Ahab, do Pequod, no seu sonho louco de acabar com Moby Dick, a baleia branca. A genial obra de Herman Melville (na imagem, a capa de uma edição do livro) vale sempre uma releitura. Mas há aqui uma diferença importante. Diferentemente dos navios, países não desaparecem no fundo do mar, a não ser pela ação da natureza. Em geral, sempre aparece alguém para assumir o leme.

De vez em quando a oposição me dá a impressão de que seu objetivo principal não é assumir o leme, mas matar o capitão, nem que para isso tenha que afundar o navio. Por que chegamos a esse ponto é assunto para cientistas políticos e psiquiatras, não necessariamente nessa ordem.

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2 Comentários:

Anonymous Artur disse...

Há algo que me desagrada muito em vários de seus posts, estes 2 últimos particularmente: são tão racionais, objetivos e no alvo que, caso lidos pela oposição - e aplicados - podem atrapalhar seriamente a candidatura que defendo.
Conto, porém, com a obsessão balear dos ditos-cujos para que isso não se dê e eu possa continuar a ter o prazer de ler, sem culpa eleitoral, o pouco de ótimo jornalismo político, opinativo mas não vesgo, que ainda resiste, como este seu blog.
abs,
Call me Ishmael.

quarta-feira, 12 de abril de 2006 06:59:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Certas armadilhas mentais. Armadilha: ser correto ou não chamar branco de branco ou negro de negro. Sair da armadilha: combater o racismo e o preconceito, sem tréguas.
Armadilha: ser correto ou não chamar pobre de pobre. Sair da armadilha: combater a pobreza.
Parece que há uma tentativa ferrenha de instituir o duplipensar. Dai, surgirem as apatias e nada avança ou se conclui. Nada fecha. O raciocínio claro, esse sim, por estranho que pareça, soa como incorreto. Vai ser difícil algum discurso quebrar esses bloqueios.

quarta-feira, 12 de abril de 2006 14:21:00 BRT  

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