domingo, 23 de abril de 2006

O eleitor flutuante e decisivo (23/04)

Qual é a relação que o eleitor estabelece com os candidatos? Uma parte do eleitorado vota por paixão, por torcida. O Fluminense lotava estádios mesmo quando estava na Terceira Divisão. Assim é o eleitor dito engajado. Nesse nicho, Luiz Inácio Lula da Silva e o PT levam vantagem. As pesquisas mostram que o partido, mesmo varado pelas flechadas da crise, tem um piso de cerca de 20%. Os outros estão longe. Já o colchão do presidente repousa na parte de cima do beliche. Não há levantamento que dê a Lula menos de um terço do eleitorado, firme.

Não deveria haver supresa nisso. Essa fatia era o que Lula tinha quando propunha romper com o FMI, não pagar a dívida externa e desapropriar terras produtivas. O petista caminhou para o centro e levou junto a sua turma. A razão? Não apareceu, até agora, outro líder popular no Brasil que possa contrastar o magnetismo do ex-metalúrgico. Quem está na frente dessa corrida para desafiar Lula é Heloísa Helena. Mas a senadora tem uma desvantagem importante: construiu sua carreira política num estado pequeno, Alagoas, enquanto Lula é o mais paulista dos políticos nordestinos. Se neste ano ela fizer uma campanha inteligente, nacional, e chegar perto dos 10%, vai dar trabalho ao PT no futuro, quando a luz de Lula começar a se apagar.

Mas se Lula tem um terço do bolo, outro grupo do mesmo tamanho vota até num poste, desde que não seja Lula. É o que, à falta de palavra melhor, chamaríamos de elite. Ela inclui quem pensa como os bem postos na vida, ainda que sociologicamente não pertença ao topo da pirâmide. Há gente de direita entre os "pobres", assim como há pessoas de esquerda entre os "ricos".

No meio desse sanduíche sócio-político repousa o que os americanos classificam como o swing vote, o voto flutuante. Na década de 80, o republicano Ronald Reagan virou presidente, governou os Estados Unidos por oito anos, fez o sucessor (George Bush, pai), consolidou o liberalismo na economia e acelerou a corrida armamentista que quebrou a espinha da União Soviética. Fez tudo isso com o apoio dos "democratas de Reagan".

Já o Partido Democrata, desde a morte de John Kennedy em 1963, elegeu três presidentes, todos do Sul conservador: Lyndon Johnson (Texas), Jimmy Carter (Georgia) e Bill Clinton (Arkansas). E, assim como havia os democratas de Reagan, Clinton também contou com a ajuda de eleitores republicanos para ser o único democrata reeleito desde os anos 60.

Lula está na frente das pesquisas porque tem com ele a maioria do voto pragmático. No Brasil, como nos Estados Unidos, quem decide a eleição não é quem se apaixona pelo candidato, vai a seus comícios, chora nos seus discursos e tenta convencer os outros a votarem nele. É o sujeito que poderia votar tanto em um como no outro, e que decide única ou principalmente por suas conveniências.

O eleitor vota como o acionista de uma empresa contrata o principal executivo para dirigi-la: sabe do que precisa e escolhe quem mais parece se encaixar no papel. Ou vota como o cliente em dúvida sobre duas redes de varejo para comprar seu televisor novo. É um mix de fatores: preço, garantia, assistência técnica e confiabilidade -do produto e de quem o vende. Assim funciona a cabeça do eleitor. Nós, profissionais do mercado das idéias, até podemos ficar horrorizados, mas a política democrática é isso mesmo: varejo. E não adianta reclamar, porque as tentativas de substituir o varejo pela paixão são a estrada para as ditaduras.

Lula está na frente das pesquisas porque o brasileiro médio vive hoje melhor do que vivia no governo de Fernando Henrique Cardoso. Os tucanos argumentam que o petista só conseguiu os resultados que alardeia porque os alicerces foram construídos nos dois governos do PSDB. Em grande parte é verdade. Mas, do ponto de vista eleitoral, esse argumento tem pouco efeito. Serve mais como arma para munir de razões quem já vai votar em Geraldo Alckmin. Ajuda pouco na tarefa de minar o voto do presidente.

De novo, é como numa empresa. Um certo executivo a comandou durante oito anos. Pegou o bastão com prejuízo operacional, gordura de todo tipo e descontrole administrativo. Fez um baita downsizing, o prejuízo virou lucro operacional, a empresa era um hipopótamo e se transformou num tigre. Por fadiga de material, os acionistas decidiram substituí-lo. O novo comandante avançou: a empresa agora gera caixa e está tão bem que distribui mais dividendos e oferece aos empregados melhores benefícios do que toda a concorrência.

O executivo da fase heróica tem o "agradecimento pelos serviços prestados" e o desejo de "boa sorte em seus novos desafios", mas dificilmente será chamado a substituir o atual. Ou os tucanos conseguem provar ao Brasil que seu governo será (notem o verbo no futuro) melhor que o de Lula, ou se arriscam a ficar fora até de um eventual segundo turno, se o PMDB tiver mesmo candidato, como parece que vai.

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3 Comentários:

Anonymous Luis Carlos disse...

Alon, quanto aos elogios à gestão da economia da era “tucano-petista” (olha aí, um possível nome para uma Era, a ser adotado no futuro) é preciso fazer ressalvas em vários pontos: gasto público, câmbio, política monetária, proposta de gestão do setor público, incentivo à inovação tecnológica, conveniência do sistema de metas de inflação etc. Mas sei que a economia ta crescendo atualmente e as pessoas estão com mais grana (um pouco, pelo menos). Não vou insistir no economês pois sei que o assunto principal era o eleitor flutuante. Faz sentido, é este 1/3 que vai definir a eleição. E que será o alvo dos candidatos.
Em relação ao PMDB, o que se vê na mídia é muita gente dizendo que o partido não quer candidatura própria. Há quem tenha dito que 15 diretórios estaduais são desta turma. No final de seu post você tá dizendo o contrário. Isto dá a entender que ou Little Boy vencerá os tradicionais caciques, Ou Itamar vai acabar levando. É isso? Eu to achando que ainda não está claro o que vai ocorrer no PMDB.
PS: Executivo, acionistas, prejuízo operacional, downsizing, dividendos.... O seu paralelo é didático mas, puxa vida, depois destas vou deitar cantarolando um trecho de uma música do Chico Buarque “eu tenho saudades da nossa canção, saudades de roça e sertão”.

segunda-feira, 24 de abril de 2006 01:10:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,
creio que teremos, nesta eleição, um dado novo ainda não observado. A existência de uma militância ex-petista. E ex-petista (sou um deles)é como ex-fumante: um eterno propagandista das desvantagens da antiga opção (ou comportamento...). Somos (ex-petistas) atuantes; aprendemos a sair às ruas; carreatas e bandeiraços nos são familiares; aprendemos a sr aguerridos e, conhecemos o tamanho de nossa desilusão. Este é um aspecto inusitado desta eleição: ua militância já "treinada" que só quer uma vitória: a derrota do PT. Sabemos como fazer. E faremos. E, como todo ex-fumante, somos chatos, insistentes e determinados. Assim são os ex-petistas!

segunda-feira, 24 de abril de 2006 16:53:00 BRT  
Blogger Juan Diego Polo disse...

Adoro seu estilo, será que posso adicionar alguns dos seus textos no http://www.linkk.com.br ?

o ideal seria que você mesmo os adicionasse, ou pelo menos um link para eles...


Abraço

Diego

terça-feira, 25 de abril de 2006 14:58:00 BRT  

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