quinta-feira, 20 de abril de 2006

O antipetismo à PT e a bomba de nêutrons na política (20/04)

A Bomba de Nêutrons é uma arma que mata as pessoas mas não destrói as coisas, a infra-estrutura. Nos negócios, quem acabou ganhando o apelido de Neutron Jack foi o ex-CEO (Chief Executive Officer, o executivo principal) da General Electric, Jack Welch. Ele adorava demitir gente como solução para todo tipo de problema. Tem empresas que são assim. O plano deu errado? Cortes no pessoal.

Depois os liberais se lamentam quando os assalariados saem às ruas contra a flexibilização das leis trabalhistas. Sempre que volta a conversa sobre mudar a lei para facilitar contratações, as pessoas que vivem de salário vão logo tirando a faca (quando têm faca). Desconfiam que é conversa mole para facilitar não contratações, mas demissões. Em geral têm razão.

O método da bomba de nêutrons aplicado à política foi largamente empregado pelo Partido dos Trabalhadores em sua infância e adolescência. Durante duas décadas, o PT viveu e engordou à custa de atacar indiscriminadamente os adversários. Não apenas com o objetivo de derrotá-los, mas também de destruí-los. Em geral, pregava-lhes na testa o carimbo da corrupção e os acusava de não se preocuparem com os pobres.

Alguns dos alvos mereciam, outros não. Mas a coisa acabou funcionando. A mensagem emplacou. Diziam os petistas: as instituições são o de menos, troquem os governantes por outros políticos, petistas, e os problemas do Brasil estarão resolvidos. Muita gente acreditou e hoje está triste, por perceber que os do PT são mortais, comuns. Reclamações com Jean-Jacques Rousseau. Foi ele quem começou essa história de que o homem é bom até que a sociedade o estrague. Se você comprou a tese do petista "bom selvagem" e não quer culpar a si mesmo, culpe Rousseau.

Lembro de um adesivo que circulava em carros no começo dos anos 80, quando o PT foi fundado. "Queremos o poder", dizia. Tinha outra turma, que preferia o "queremos a democracia". Eu gostava mais dessa última mas ela não fez muito sucesso. Acho que a mensagem do PT era mais direta. Democracia é uma palavra que só adquire valor para nós, brasileiros, quando a perdemos. Mais ou menos como respirar. Você só percebe como é importante quanto falta o oxigênio. No dia-a-dia você nem nota que está respirando.

Mas voltemos ao PT. Ele chegou finalmente ao poder em 2002 e as pessoas começam a perceber que o problema do Brasil não é, nem nunca foi, colocar as "pessoas certas" (no caso os petistas) nos lugares certos. Até porque não existem as tais "pessoas certas". O que existe (ou não) são instituições que funcionam (ou não). Tem gente e países que entenderam isso há mais de dois séculos (clique na imagem para ampliar as esculturas de George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln no Monte Rushmore). Esses países deram certo. Ainda estaria em tempo de imitá-los.

Mas não deve haver otimismo excessivo a respeito. Depois do strip-tease do PT pós-Roberto Jefferson, o que está na moda é o antipetismo à moda do PT. Ou seja, dizer que todos os problemas do Brasil estarão resolvidos se o partido for removido do poder e substituído por tucanos e/ou pefelistas, os novos (velhos) candidatos a salvadores da pátria. É a volta não do cipó de aroeira, mas da bomba de nêutrons no lombo de quem mandou dar. O eleitor, com razão, parece estar desconfiado de já ter visto esse filme e anda ressabiado. É o que mostram as pesquisas. O voto está parado no ar.

Construir instituições nunca esteve, nem está, com nada entre os nossos políticos. Já vai um ano da "mais grave crise política da História do Brasil" [reparem que a mais recente é sempre a mais grave; e depois ainda dizem que o Brasil sai melhor de cada crise; como, se a última é sempre a pior?] e a montanha só pariu um rato aleijado (desculpem o politicamente incorreto). É a tal minirreforma política de autoria do Senado. Sobre ela, vale o que tem dito o jornalista e blogueiro Fernando Rodrigues. Para ele, no Brasil o mais sábio é não fazer reforma política nenhuma, porque quando se faz é para pior.

O próximo presidente vai assumir com apoio, firme, de no máximo um terço da Câmara dos Deputados. É o que deve eleger a coligação vencedora. Seja Luiz Inácio Lula da Silva, Geraldo Alckmin ou Anthony Garotinho (Itamar Franco). O próximo presidente vai ser refém do Senado, que sentiu o gosto de sangue com a CPI dos Bingos e não vai querer largar do osso. O caixa 2 terá corrido solto na campanha eleitoral, o que fará dos políticos eleitos seres débeis, completamente vulneráveis a denúncias. O novo (velho) presidente vai chegar prometendo reformas, mas vai perder velocidade rapidamente e atolar-se em negociações infindáveis com um Congresso insaciável. Se for Lula, será um lame duck em janeiro de 2007. Se for um outro, será candidato à pasmaceira ou ao impeachment.

Mas você sempre pode torcer para que eu esteja errado. Quero estar certo, mas é só por vaidade (lembrem-se: sou jornalista). Por patriotismo, vou rezar para que no ano que vem você volte aqui e tire um sarro da minha cara.

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