sábado, 29 de abril de 2006

A lendária sorte de Itamar (29/04)

Alon Feuerwerker
(Publicado no Correio Braziliense em 30 de abril de 2006)

O ex-presidente Itamar Franco balança entre enfrentar uma campanha presidencial ou buscar a legenda para o Senado em Minas pelo PMDB. Enquanto o mineiro não se decide, seus adversários potenciais cruzam os dedos. Os inimigos de Itamar sabem que ele pode ter vários defeitos, mas entre eles não está o azar. A trajetória desse político de Juiz de Fora é uma incrível sucessão de vitórias, geralmente obtidas em cenários desfavoráveis. Como o personagem de Tom Hanks, Itamar é um Forrest Gump da política brasileira.
Em meados dos anos 80, Tancredo Neves era o governador de Minas e trouxera para dentro do Palácio da Liberdade seu neto Aécio, então com pouco mais de 20 anos de idade. Certo dia, um jornalista perguntou ao ex-ministro de Getúlio Vargas e João Goulart por que escolhera o neto para seu sucessor político. "Em política é preciso ter estrela. O Aécio tem estrela, como o Itamar". Tancredo sabia do que falava.
Em 1974, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), único partido de oposição permitido no regime militar, não se recuperara da grande derrota na eleição de quatro anos antes, a primeira depois do AI-5. Havia quem propusesse a autodissolução da legenda e a maior parte da esquerda ainda sonhava com a via armada para chegar ao poder. As perspectivas para as eleições de novembro daquele ano não poderiam ser mais sombrias.
Pouco antes da convenção do MDB, o então prefeito de Juiz de Fora, Itamar Franco, procura o chefe político da oposição em Minas, Tancredo, e lhe pergunta se tem intenções de concorrer ao Senado. "Não vou, porque não sou burro", responde Tancredo. "Pois então eu sou candidato", diz Itamar. "Você é louco, não vai ter mais de 300 mil votos", vaticina Tancredo.
A história é conhecida. O MDB elegeu não apenas Itamar, mas 16 senadores entre os 22 possíveis e esmagou a Aliança Renovadora Nacional (Arena), o partido que apoiava o regime. A oposição conseguiu também eleger mais de um terço da Câmara dos Deputados e fechou o caminho para a institucionalização da ditadura por vias constitucionais.
Em 1980, o mandato de senador de Itamar caminhava para o fim e sua reeleição era improvável. A reforma partidária introduzida pelo general Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil, dividira a oposição e fizera nascer um novo partido de centro, o Partido Popular (PP), cuja seção mais forte era a mineira. Ali, o PP juntara dois adversários históricos, Tancredo e o ex-governador de Minas Magalhães Pinto. Era a aliança do PSD com a UDN, virtualmente imbatível nas eleições para governador dois anos depois. A Itamar estava reservado o destino de concorrer a governador pelo novo PMDB e perder para Tancredo.
Mas veio a vinculação de votos, uma modalidade radical do que hoje se chama verticalização. O eleitor não poderia votar em partidos diferentes para os vários cargos em disputa em 1982, ano em que aconteceriam eleições de vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal, senador e governador. O PP percebeu que caíra numa esparrela, pois não tinha bases municipais fortes. Decidiu incoporar-se (fundir-se) ao PMDB. Itamar aceitou que Tancredo fosse o candidato a governador, desde que ele concorresse novamente ao Senado. A aliança foi fechada e ambos se elegeram.
No fim da década de 80, novamente o mandato senatorial de Itamar corria contra o relógio. Ele estava aparentemente sem saída. Em 86, deixara o PMDB para disputar, pelo PL, o governo de Minas. Perdera para um ex-prefeito peemedebista de Contagem, Newton Cardoso, que lhe tomara a legenda. Então, em 89, aceitou ser vice do então governador de Alagoas, Fernando Collor. De novo a história é conhecida. Collor elegeu-se, sofreu o impeachment e Itamar virou presidente. Mesmo ridicularizado pela imprensa, especialmente a paulista, com sua "república do pão-de-queijo", Itamar acabou o mandato com alta avaliação e elegeu o sucessor, Fernando Henrique Cardoso, o ministro da Fazenda do Plano Real.
Quatro anos depois, em 98, FHC operou de todas as maneiras para impedir a candidatura de Itamar a presidente pelo PMDB. Conseguiu. O mineiro trocou então uma derrota certa para o Planalto por uma vitória na eleição de governador em Minas, onde em 2002 ainda ajudaria a eleger o sucessor, Aécio Neves, derrotando o algoz de 1986, Newton Cardoso. E onde daria uma contribuição decisiva à eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, atraído para o apoio ao petista pelo então presidente do PT, José Dirceu.
Quando assumiu o cargo, no começo de 2003, o governador Aécio Neves foi muito pressionado por assessores para jogar na conta do governo Itamar as dificuldades financeiras que encontraria pela frente. O neto de Tancredo nunca aceitou esses conselhos. "Não me indisponham com o Itamar", dizia sempre aos conselheiros. À luz da biografia do ex-prefeito de Juiz de Fora, Aécio tinha suas razões para essa prudência.

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2 Comentários:

Anonymous Fernando disse...

Itamar pode ter sorte, mas sortudo mesmo é o Alckmin. A forma como ele saiu deputado federal pelo interior para governador de São Paulo...

domingo, 30 de abril de 2006 11:13:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

É inegável reconhecer a sorte. Mas falta creditar a Itamar os méritos de ajudar a própria sorte.
Regra geral, jornalistas analisam personalidades de acordo com sua formação acadêmica (uma espécie de corporativismo de conhecimento), por isso aqueles que não tem o charme da retórica, de discursos intelectualizados como FHC, ou de sabedoria prática como Tancredo Neves, são muitas vezes tachados de medíocres, quando são apenas insossos ao paladar da notícia, o que tornam-os um tremendo desafio ao jornalista escrever a respeito.
Exemplo, é o primeiro ministro chinês Hu Jin Tao, um engenheiro (tal qual Itamar) que ascendeu por merito na burocracia chinesa. Um afeito mais às ciências exatas, é quase ignorado. Muito publica-se sobre a China, pouco sobre seu líder. Falta-lhe o charme de escrever artigos, livros ou fazer discursos e declarações contundentes, à exemplo de Mao, Gorbachev, Fidel, Chaves, Tony Blair, FHC.
Itamar teve sorte de estar no lugar certo na hora certa. Mas também não deveria ser ignorado, que tomou atitudes certas nestas horas. Quando foi vice, antes do impeachment, já fazia oposição à Collor, do contrário poderia ter perdido apoio à suscedê-lo. No impeachment, teve habilidade de
aquietar-se, para não politizar o processo, beneficiário que era, respeitando a institucionalidade. Isso deu-lhe maior credibilidade e apoio. Presidente, priorizou políticas de criação de empregos, aumento da renda e crescimento econômico (o pacto automotivo foi uma delas), além do combate à inflação, por isso saiu com popularidade alta e fez o sucessor. Teve habilidade de mobilizar maioria no Congresso, ainda que o ambiente fosse favorável sob medo de retrocesso democrático. Antes da existência das TVs Senado e Câmara, liberou ou não permitiu a TVE para transmitir sessões da CPI dos Anões do Orçamento. Afastou ministro acusado (Hargreaves), e reconduziu-o quando inocentado. Trocou vários ministros, sobretudo da fazenda. Negar-lhe responsabilidades no Plano Real, seria o mesmo que negá-la ao Ministro da fazenda FHC, creditando o plano somente à Edmar Bacha e demais técnicos.
Quando governador de Minas, teve um governo tumultuado, a ponto de decretar uma controversa moratória, mas pouca gente sabe que o argumento foi não fazer moratória nos salários do funcionalismo de MG (o que, ainda assim, acabou acontecendo no fim do governo). Foi também, um foco de resistência às políticas do Governo Federal. Impediu o avanço no processo de privatização de Furnas. Retomou o controle diretivo sobre a CEMIG.
Sorte, Sarney, JK, FHC também tiveram (pode não ser tanta). FHC era um satisfeito chanceler e foi nomeado à contragosto para a Fazenda (a história é contada em detalhes pelo jornalista Expedito Filho em seu livro sobre os bastidores da campanha de FHC em 94). Pelo conjunto da Obra, Itamar é hoje considerado uma das poucas reservas morais da política brasileira.
Pode ser um dos pilares da de sustentação de um governo de coalização entre PMDB e PT ou entre PMDB e PSDB. É difícil, mas não descartaria a possibilidade de ainda vir a ser alçado a vice-presidente de Lula, dentro de uma espécie de concertação, deixando o Senado para José de Alencar.
Alon é um dos poucos que levam a sério Itamar. Mais gostaria de ver análises mais profundas da imprensa, por mais árduo que seja torná-lo matéria palatável.

domingo, 30 de abril de 2006 14:23:00 BRT  

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