domingo, 2 de abril de 2006

Jane Fonda e Lula: O Passado Condena (02/04)

Jane Fonda ganhou seu primeiro Oscar aos 34 anos com Klute (1971), traduzido aqui no Brasil como O Passado Condena. O filme é bom (na imagem, a capinha do DVD), mas a tradução do título é péssima. Coisa comum entre nós. Acho que a pior tradução de todos os tempos em título de filme foi a de Harold and Maude, do mesmo ano. Virou Ensina-me a Viver. A piada era que Harold significaria "Ensina-me" e Maude, "a Viver".

Essa conversa mole é porque estamos num domingo. A não ser que você seja (como eu e mais um punhado de blogueiros malucos) viciado em análise política, não dá para falar do assunto "a seco" no domingo, a poucas horas de ver o Santos ser campeão paulista depois de 22 anos (Atualização às 18h04: Não deu. Perdemos). Lembrei do filme de Jane Fonda, Donald Sutherland e Roy Scheider por causa do título. Ele cai como uma luva para o nosso Luiz Inácio Lula da Silva.

Esqueçam dos paulo de tarsos, paloccis e okamottos. A principal dívida de Lula com o seu passado está em outro lugar, e a conta só agora começa a aparecer com mais nitidez. Basta ler no noticiário de hoje, especialmente na coluna de Tereza Cruvinel em O Globo. O PMDB ameaça abandonar Lula na eleição e aderir, mesmo que aos pedaços, à candidatura de Geraldo Alckmin.

A relação entre o PMDB e Lula é como aquelas em que o marido cansa de aprontar com a mulher até que, um dia, ela o abandona.

O PT nasceu da luta dos trabalhadores e de um segmento da esquerda, é verdade. Mas também é verdade que se beneficiou da decisão da ditadura de dividir o então MDB (Movimento Democrático Brasileiro) no fim dos anos 70, para tentar garantir a maioria no colégio eleitoral que viria a escolher o sucessor do presidente João Figueiredo.

Em 1982, na volta das eleições diretas para governador (com turno único e voto vinculado), o PT preferiu correr sozinho a unir-se com o já PMDB contra o PDS (Partido Democrático e Social), herdeiro da Arena (Aliança Renovadora Nacional, a agremiação governista no período militar).

Em 1985, o PT recusou-se a apoiar o candidato do PMDB, Tancredo Neves, na sucessão de Figueiredo. Seus parlamentares que decidiram votar em Tancredo no colégio eleitoral foram expelidos do partido.

Em 1989, Lula recusou o apoio oferecido por Ulysses Guimarães no segundo turno contra Fernando Collor. O velho comandante da luta de oposição na ditadura e da luta pelas "diretas já" morreu sem se recuperar da desfeita.

Desde sua fundação, o PT vem crescendo nos estados graças, também, à crítica feroz aos políticos do PMDB. O exemplo mais emblemático é São Paulo, onde o PT comandou uma campanha sistemática de denúncias de corrupção para tentar liquidar a liderança política do ex-governador Orestes Quércia. O que não impediu o PT de pedir -e conseguir- o apoio de Quércia a Lula em 2002. Depois de obtido o apoio, os petistas fizeram de tudo para evitar que o ex-governador se elegesse ao Senado. Conseguiram.

Lula elegeu-se em 2002 graças também ao apoio majoritário no PMDB, ainda que a vice de José Serra (PSDB) tenha sido a ex-deputada peemedebista Rita Camata. Mas Lula recusou fazer um governo de coalizão com o aliado. Ainda antes de tomar posse, desautorizou o acordo fechado por José Dirceu com Michel Temer em troca de dois ministérios à legenda. Preferiu dar cinco pastas ao PT do Rio Grande do Sul. O que não impediu a seção gaúcha do petismo de ser varrida do mapa na eleição municipal de 2004.

Quando, afinal, aceitou abrir mais espaços ao PMDB em seu governo, Lula o fez tentando sempre dividir a legenda aliada. Nunca a tratou institucionalmente.

Lula e seu entorno nunca compreenderam o papel do PMDB (e, mais amplamente, do centro político democrático e nacionalista) na política brasileira contemporânea. O PT nasceu, cresceu e vive em confronto com o PMDB. Pelo menos nisso, vem mantendo sua coerência.

Volto ao Conselheiro Acácio. Ele dizia que as conseqüências vêm sempre depois. A conta desse passado está ficando cada vez mais pesada, como mostra a crise política que parece não ter fim. E como mostra o risco de isolamento do presidente na campanha pela reeleição.

Ah! Se o Santos não for campeão hoje eu volto aqui e mudo o texto (Atualização às 18h04: Já mudei). Santa world wide web (www), que nos permite reescrever o passado. Pena que o mesmo recurso não esteja disponível para Lula na sua relação com o PMDB.


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5 Comentários:

Anonymous Luis carlos disse...

Você foi de cinema, vou de literatura, se me permite fazer a gracinha. Você narrou trecho de 1 história que pode ter o título “Crônica de uma morte anunciada” ou, de uma eleição a ser perdida. A tua reflexão a partir das informações da Cruvinel mostra o que se suspeitava há muito tempo: o caminho escolhido em relação às alianças teria conseqüências e a coisa não vai ficar, digamos, muito boa para o Governo. A aversão às alianças está tendo um custo incrível para o PT e acho que para o País também. A uma frágil articulação política juntou-se outra característica peculiar do governo Lula, a dificuldade em dialogar com a Opinião Pública (maiúscula, mesmo!). Como eles sempre foram, desde o início, ruinzinhos de comunicação! Alon, meu caro, você já imaginou como este governo sairia se o Apagão ocorresse em sua gestão? Lembra? A turma tendo que diminuir o consumo de luz, ameaça de corte se não economizasse etc...Em matéria de discurso para a opinião pública, os tucanos são melhores....pouquinha dúvida quanto a isso. Assim, sem aliança com outro grande partido e com a impaciência da opinião pública (quem vem de longe, muito longe) acho difícil o presidente mostrar-se legítimo para reivindicar um segundo mandato. Vai disputar, mas será difícil ganhar.
Luis Carlos

domingo, 2 de abril de 2006 20:41:00 BRT  
Anonymous Artur disse...

Alon,
Depois dessa manifesta emedebizada - com a qual concordo, e muito - dá até para perdoar você por ver algo de interessante na Vila Belmiro, a filial pasteurizada de Ulrico Mursa.

segunda-feira, 3 de abril de 2006 00:11:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

É compreensível que os ímpios não se curvem por vontade própria ao templo maior do esporte bretão. Mas não desistiremos. Levaremos nossa jihad a todos os gramados e arquibancadas onde restar algum infiel.

segunda-feira, 3 de abril de 2006 00:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É impossível crer que algum partido poderá governar sem realizar alianças. O crescimento de um ou outro, em alguma eleição, pode até acontecer. Mas a fluência do governo ficará marcada por indas e vindas. Dai a sensação de que nada avança satisfatoriamente. Assim, pensar em um partido hegemônico foi e é ficção. Mesmo no tempo da Arena.

segunda-feira, 3 de abril de 2006 10:27:00 BRT  
Anonymous Richard Lins disse...

O Grande Vencedor da próxima eleição presidencial será o PMBD. Com candidato, sem candidato, com vice, sem vice ou à la carte o partido ganha. Michel Temer manobrou bem e colocou os tentáculos do partido em divessas canoas... quem chegar chegou e o PMDB vai estar lá. É por isto que o pessoal do PFL tá manobrando c/ tanta cautela... já viram que só podem apostar no cavalo certo, sem risco.
Quanto ao futebol, com os timécos daqui do Rio não dá p/ concorrer!

segunda-feira, 3 de abril de 2006 11:53:00 BRT  

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