quinta-feira, 20 de abril de 2006

Desinformação, ignorância e a popularidade de Lula (20/04)

Na Carta Política que a consultoria Tendências enviou esta semana aos seus clientes, há uma análise do economista José Márcio Camargo sobre a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre os mais pobres, com o título acima. Transcrevo um trecho:

"(...) em nossa opinião, a popularidade dos presidente entre os grupos mais pobres da população decorre, fundamentalmente, do forte crescimento da renda real e do padrão de consumo deste grupo social. E (...) este crescimento não depende apenas dos programas de transferência de renda, mas tambvém do aumento do emprego e dos salários reais. Entre 2002 e 2004, os 20% mais pobres da população tiveram um aumento de renda de 33%, ou seja, cerca de 10% ao ano. Deste total, 22% é explicado por programas de transferência de renda e 8% pelo aumento real do salário mínimo. (...) 70% se refere ao aumento do nível de emprego e dos salários reais. Se acrescentarmos a estes ganhos de renda o aumento do crédito e a queda da taxa de juros para pessoas físicas, não parece surpreendente que o presidente seja tão popular nos grupos mais pobres da população."

Há uma teoria corrente entre jornalistas, marqueteiros e analistas políticos. Ela é conhecida como "pedra no lago". Diz que a sociedade adota suas opiniões em ondas, como as formadas no lago quando uma pedra cai na água. Tradução: as opiniões políticas propagam-se dos mais ricos para os mais pobres, dos mais bem informados para os menos bem informados, das pessoas com mais instrução formal para as com menos instrução formal. Assim, quando alguém quiser tornar hegemônica certa tese, bastará convencer os assim chamados formadores de opinião e esperar que o rolo compressor dos veículos de comunicação faça o serviço.

Por que a teoria não está funcionando tão bem como funcionava antes? O texto de Camargo, acima, é uma explicação possível. Os pobres parecem preferir um governo que faz algo por eles do que uma oposição que lhes promete o paraíso. Outra possibilidade é a pulverização de meios para se informar, acelerada pela internet. Os pobres acessam a rede bem menos do que os não pobres, mas é possível que a internet esteja criando formadores de opinião dentro dos grupos que estão na base da sociedade. Assim, ficam menos dependentes da opinião que vem "de fora". Uma terceira explicação é não haver unanimidade entre os formadores tradicionais de opinião. E a diversidade de opiniões dificulta o "efeito manada" no jornalismo. Este último aspecto tem incomodado muita gente.

Talvez seja uma mistura de todas essas coisas. É um bom debate.

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10 Comentários:

Blogger Mauricio Savarese disse...

Parabéns, Alon, por não se render à chatice de outros blogueiros mais populares, porém comprometidos com o Gilette Press, com um sensacionalismo enfadonho e, cada vez mais, com o erro. Que continue assim; acurado e dono de visão crítica, sem compromisso com o blat blat blat.

quinta-feira, 20 de abril de 2006 11:40:00 BRT  
Blogger Mauricio Savarese disse...

Parabéns, Alon, por não se render à chatice de outros blogueiros mais populares, porém comprometidos com o Gilette Press, com um sensacionalismo enfadonho e, cada vez mais, com o erro. Que continue assim; acurado e dono de visão crítica, sem compromisso com o blat blat blat.

quinta-feira, 20 de abril de 2006 11:40:00 BRT  
Blogger Kleuber & Simone disse...

Esse seu post matou a pau! Falou tudo!

quinta-feira, 20 de abril de 2006 12:06:00 BRT  
Anonymous José Luiz Frare disse...

Meu caro Alon,
Em primeiro lugar, parabéns pelo seu blog, que tem um grande diferencial dos outros mais populares: inteligência. Eu acrescentaria mais um elemento para justificar a popularidade do Lula. Ele e seu partido, apesar dos pesares, têm enraizamento social forte em parte considerável da sociedade civil organizada, que não se influencia tão facilmente pelos "formadores de opinião".

quinta-feira, 20 de abril de 2006 12:07:00 BRT  
Blogger Paulo C disse...

Os porta-vozes da classe dominante (que você gentilmente designa "jornalistas, marqueteiros e analistas políticos") sempre acharam e sempre vão achar que para "tornar hegemônica certa tese, bastará convencer os assim chamados formadores de opinião e esperar que o rolo compressor dos veículos de comunicação faça o serviço.". Isto nem é uma contradição, é uma crença básica necessária para que as elites continuem a funcionar enquanto tal: se são as elites, estão certas e estão certas por serem as elites.
A contradição é mais embaixo, como Marx já tinha notado há 150 anos: o povo existe (ao contrário do que gostariam os que se enclausuram em condomínios e prédios de luxo e gastam o que podem para manter os bárbaros fora dos muros) e o povo pensa (ao contrário do que pensam nossas elites, que volta e meia se arrogam o monopólio da verdade) e nem toda a artilharia de mídia do mundo é capaz de convencer uma pessoa racional que azul é vermelho.
Assim, de nada adianta os senadores do PFL e do PSDB posarem de vestais da República: quem acredita que mudaram? Só mostra que eles acreditam piamente que ninguém tem memória dos anos FHC (e no caso do PFL, dos anos de chumbo e dos anos Sarney e dos anos de Collor).
Também de nada adianta discutir com os fatos econômicos mais básicos: como uma pessoa que está vivendo melhor nos últimos 2 anos vai subitamente se convencer que não está vivendo melhor, só porque um político ou jornalista diz isto na televisão?
Você toca em outro ponto interessante. Existem grandes interesses econômicos muito felizes com este governo: os bancos (ou o "Mercado"), as redes de televisão (quase já beneficiárias da decisão sobre o padrão de TV digital), os grandes agricultores (recorde sobre recorde de safra, exportações e faturamento não são facilmente esquecidos), entre outros. Para estes corrupção é instrumento ou incidente, nunca motivo de decisão. Esta parece ser a raiz da cisão das elites. Grandes interesses econômicos são sempre conservadores, preferem "deixar como está para ver como fica" que aventuras ou novidades (com ou sem banho de ética. Aliás, fica a dúvida. Depois de aceitar um presente de um ou quatrocentos vestidos finos e direcionar verba publicitária para aliados, basta um banho de ética e tudo fica limpo?).

quinta-feira, 20 de abril de 2006 14:03:00 BRT  
Anonymous Marcus disse...

Mais um texto brilhante. Seu blog é o melhor blog político do Brasil, sem comparação.

Quando Lula foi eleito, eu achei que o jogo político ficaria mais complexo do que antes. Não era mais o presidente-bicho-papão contra "nós, o povo". Dito e feito.

quinta-feira, 20 de abril de 2006 14:09:00 BRT  
Anonymous Kleber disse...

Alon, parece que o "lago" evaporou. Daí o desespero de muita gente. Duas teses: "Tudo que é sólido desmancha no ar" ou mesmo "Modernidade Líquida" do Zigmunt Bauman. Uma para atender os cartesianos da MOdernidade. A outra para os pós-modernos. Abraços!

quinta-feira, 20 de abril de 2006 15:08:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Quanto a melhoria de vida da maioria dos brasileiros, não há dúvida. Brasileiros, e a maioria das pessoas no resto do mundo, olham primeiro para seu bolso antes de votar. Se não houver algum outro fator que justifique alguma cautela, como o medo do PT de Lula na reeleição de FHC, a tendência é de manter no poder o governante que estiver sendo responsável pela melhoria das condições econômicas.
Quanto a "pedra no lago", temos que tomar cudado na analise. Quando houve uma queda de Lula nas pesquisas alguns meses após os trabalhos da CPI, todos , incluindo eu, atribuiu esta queda como efeito das denúncias. Hoje sabemos que o ano de 2005 foi um mau ano para a economia. Pode ser que a queda de Lula seja uma combinação dos dois fatos, mas comparando com o desempenho da economia neste ano e o crescimento de Lula nas pesquisas, aquela primeira analise no mimíno teria que ser refeita. Além disso, quem acompanha de perto o cerco que a oposição faz ao governo sabe , como o signatário deste blog ja escreveu, que CPI é para enfraquecer governos. E os investigadores em termos de ética não são tão diferentes dos investigados.

quinta-feira, 20 de abril de 2006 16:46:00 BRT  
Anonymous Luis Carlos disse...

Estamos em meados de abril e, sinceramente, não apostaria em qual será o resultado das eleições de outubro. Perdão por ser acaciano, mas cada eleição nós só a entendemos quando termina. As variáveis que determinarão seu resultado estão aí, ao nosso redor: o divórcio quase litigioso entre Lula e a opinião pública/ classe média; os relativos bons números da economia e os efeitos dos programas de transferência de renda (e os impactos sobre a classe baixa são mostrados pelo Márcio Camargo); um candidato tucano meio picolé, meio chuchu; o mesmo candidato tucano que pode crescer e ir para o segundo turno que, sua vez, pode virar um plebiscito; uma oposição com um passado que a condena; o deixa que eu deixo do PMDB; uma América Latina ansiosa por melhoria na qualidade de vida; os problemas estruturais de nossa economia, e por aí vai. Eu acredito que a melhoria da renda da população realmente ajuda a segurar os atuais índices de intenção de votos do Lula. Sem dúvida. Já virou lugar comum citar a estratégia de marketing do Clinton em 1992: é a economia, estúpido! Mas há outras variáveis, como estas que eu citei aí em cima. A mídia, com escassas exceções, só atrapalha o entendimento. Oscila muito, uma hora diz: o Lula vai cair, vai cair, vai cair!!! Outra, o Lula não será jamais atingido pelos escândalos, nunca! As opiniões mudam a cada 30 dias, conforme o resultado dos institutos de pesquisa.

quinta-feira, 20 de abril de 2006 18:16:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon:
Como sempre, o tema está bem sacado e a abordagem dá o quê pensar. Porém, não se iluda, o efeito "pedra no lago" existe e está em movimento. O Brasil tem milhões de pobres, sim, mas, tb,tem milhões de pessoas vivendo muito bem. E estas pessoas possuem, quase sempre, uma ampla rede de relacionamentos: parentes, contra-parentes, amigos, empregados (inclusive caseiros) em todas as classes sociais e, me diga, quem não gosta de concordar com um "vencedor". Entretanto, o mais importante é não perder contato com a realidade, gostemos dela ou não... Hoje, acabo de ler que a Justiça suspendeu o programa do PT, ontem a OAB informou ao Presidente que o "gato subiu no telhado", além disso, as grandes empresas de mídia impressa e televisiva,por mais que procuremos nas entrelinhas,já tomaram uma posição da mesma forma que as duas outras pernas conservadoras do tripé que controla as rédeas da política e da economia no Brasil (Agrobusiness e Finance). A contra-revolução latino americana está em curso e o "bunker" escalado é o Brasil. Esta é uma disputa de poder que está sendo levada muito a sério por quem não aceita transferí-lo sem resistência. É só isso. Com a palavra os pensadores, intelectuais, artistas etc. Meu amigo "quem cala, consente." Acho que estou enganado, é uma mera visão. Um abraço.

quinta-feira, 20 de abril de 2006 22:05:00 BRT  

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