sábado, 1 de abril de 2006

Confissão obtida sob tortura não vale (01/04)

Não sei se José Serra (PSDB) vai ganhar ou perder a eleição de governador em outubro em São Paulo. Ele está na frente nas pesquisas, mas Marta Suplicy fez um bom governo na capital e Aloizio Mercadante conseguiu a proeza de escapar das labaredas da crise em Brasília. Vai ser mais uma luta dura e sangrenta entre o PT e os tucanos. De todo modo, pelo menos um serviço Serra já prestou à democracia brasileira (e por que não à imprensa brasileira?), ao recusar a chantagem dos que cobravam e cobram dele “o compromisso com a palavra dada” de permanecer no cargo de prefeito até o último dia do mandato.

Vamos ao ponto: um compromisso obtido naquelas circunstâncias (no meio de uma entrevista pública, sem alternativas a não ser o sim ou o não) vale tanto quanto uma confissão arrancada sob tortura em cima de um pau-de-arara numa delegacia de bairro. Ou seja, não vale nada. Não sou eu quem diz, é a lei. Em 2004, o então candidato Serra ou assinava o papel que lhe apresentaram ou perdia a eleição para Marta Suplicy. Ele assinou. Como o preso que prefere confessar a morrer ou ficar aleijado. Quem vai condená-lo? Eu não. Ainda mais se a cobrança parte dos torturadores.

A desmoralização desse tipo de coação fará bem à imprensa e aos jornalistas. Imaginem o seguinte cenário. O sujeito vai fazer um debate no jornal durante a campanha para presidente e lhe apresentam o questionário fatal:

  1. Você promete que não vai aumentar impostos?

  2. Você promete que não vai aumentar a idade mínima de aposentadoria?

  3. Você promete que vai dobrar o valor real do salário-mínimo?

  4. Você promete que vai criar dez milhões de empregos?

  5. Você promete que vai reduzir ano a ano a proporção da dívida pública sobre o PIB?

  6. Você promete que vai reduzir pela metade a população abaixo da linha de pobreza?

  1. Você promete que não vai entrar em guerra com ninguém?

O candidato decide não assinar. Ganha, em troca, uma semana de manchetes:

Segunda-feira: Fulano admite aumentar imposto

Terça-feira: Fulano admite aposentadoria só aos 70

Quarta-feira: Fulano não garante aumento real do mínimo

Quinta-feira: Fulano descarta criar dez milhões de empregos

Sexta-feira: Fulano admite que dívida pode aumentar em seu governo

Sábado: Fulano não assume metas contra a pobreza

Domingo: Fulano acena com ameaça de guerra

A palavra dada só tem valor nas situações em que há um mínimo de possibilidade para o livre arbítrio. Se Giordano Bruno morreu na fogueira, Galileu Galilei preferiu um bom acordo com a Igreja e resmungou intimamente que, apesar de tudo, a Terra se move (na tela de Cristiano Banti, de 1857, Galileu enfrenta a Inquisição romana; clique na imagem para ampliar). Penso que a imprensa erra quando se imagina o próprio Santo Ofício.

A confissão obtida sob tortura é coisa da Idade Média. O abuso no exercício do poder enfraquece o poder democrático. Seria mais honesto se o jornalista simplesmente escrevesse: “Eu, Sicrano de Tal, acho que o melhor para São Paulo é eleger alguém do PT”. O leitor sairia ganhando. Seria melhor do que esse espetáculo de farisaísmo, esse desfile de políticos e jornalistas falsamente compungidos com a “falta de palavra” do adversário posto a assinar uma "confissão" pendurado de cabeça para baixo num cavalete.

Clique aqui para assinar este blog

12 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Milagre, milagre! Milagres acontecem! Um Jornalista (com jota maiúsculo, por favor!) é capaz de fazer uma leitura realística e minimamente intelegente a respeito daquele "pedaço de merda", em forma de compromisso, que fizeram Serra assinar. Será que se Martinha tivesse ganhado a eleição - com Rui Falcão de vice, e não alguém do PMDB como queria Dirceu e o PT -, estaríamos vendo agora: "como assinei aquele compromisso com o grande jornalista Gilberto Dimenstein, da Folha de São Paulo, infelizmente, não poderei ser candidata a governadora. Por isso, abro tiro o meu da reta em favor ao meu companheiro Mercadante, homem sério, que - fazendo uma campanha a Senador com 700 mil - será governador com nossos apoios: meu, do Eduardo e do Favre, é lógico!"

sábado, 1 de abril de 2006 04:33:00 BRT  
Anonymous Fernando disse...

Caro anonymous, o que mais me espanta é a Folha de São Paulo (que também tem Jornalistas com jota maiúsculo) se orgulhar de ter feito esta "pegadinha" com o Serra.

Serra foi coagido por Gilberto Dimenstein a assinar o papel. Não existe outro termo, foi coação. E depois veio o registro em cartório, que não tem valor legal nenhum, mas aumenta o impacto da propaganda.

Serra tem mais que o direito, tem o dever moral de ser candidato. Não podemos deixar o estado cair nas mãos da Marta, que só fez "bom governo" se você esquecer o estado falimentar em que ela deixou o caixa da prefeitura. Infelizmente no Brasil quem quebra o caixa mas faz obras ainda é considerado bom governante.

sábado, 1 de abril de 2006 09:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Discordo que Marta tenha feito um bom governo em Sao Paulo. Alem de ficar conhecida como Martaxa, deixou dividas de quase 2 bilhoes de reais.... Eh bom lembrar que Sao Paulo virou um festival de obras as vesperas da eleicao em 2004... nao acho que um administrador assim possa ser qualificado como bom.

sábado, 1 de abril de 2006 09:49:00 BRT  
Anonymous eduardo disse...

Excelente raciocínio, Alon.

sábado, 1 de abril de 2006 10:49:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Perfeito! O duro é ouvir as baboseiras do Dimenstein como se ele fosse o sujeito mais ético do país, e Marta tivesse sido a governanta mais honesta do universo.
Marta, se eleita, faria exatemnte isso hoje: estaria se candidatando ao governo do Estado. Será que Dimenstein iria cobrar o compromisso dela da mesma maneira? Duvido.
Alíás, dadas as circunstâncias, eu acredito piamente que Serra iria ficar 4 anos na prefeitura se não ocorresse mensalão, e se o PSDB tivesse criado novas lideranças em SP (ou ao menos preparado Paulo Renato) para a tarefa.

sábado, 1 de abril de 2006 11:47:00 BRT  
Anonymous J Augusto disse...

O argumento é brilhante. Mas continuo achando que, independente de papel assinado ou de declaração verbal, a renúncia a um mandato popular a menos da metade do prazo (seja Serra, fosse Marta) para candidatar-se a outro cargo é um desrespeito ao eleitor, que escolheu um prefeito e será governado por outro a quem não votou.
Se houvesse eleições para vice-prefeito desvinculadas do prefeito, ainda seria tolerável. Se o repórter fez a inconveniente pergunta é porque esse tema é também do interesse de muitos eleitores, que se tivessem oportunidade de perguntar diretamente, o fariam.

sábado, 1 de abril de 2006 16:27:00 BRT  
Blogger bravomikefoxtrot disse...

de acordo. a renúncia antes da metade do mandato é um desrespeito ao eleitor, que não vota em vice. Isso é o que deve ser cobrado, e nao o papel timbrado da Folha.

sábado, 1 de abril de 2006 17:09:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O texto do Alon baseia-se num absurdo: a lista de sete perguntas a um suposto candidato. A idéia é tão absurda quanto um jornalista apresentar documento para candidato assinar. Este não é papel de jornalista. Está mais para tática de adversário político. Ou para “estilo jornalístico” da “Folha de S. Paulo”.

A pergunta poderia ser feita, sim. Até mesmo estas sete perguntas do Alon. Ou até mesmo aquela bobagem do Kasoy perguntar a FHC sobre sua crença em Deus. Aliás, são perguntas que deviam ser feitas por instituições interessadas em um posicionamento do candidato.

O documento que o Serra assinou não é uma bobagem, como todo serrista, desesperadamente, quer crer (e não estou sequer insinuando que Alon seja serrista). É um argumento forte em campanha. Também não foi tirado sob tortura. Coação política, talvez, mas faltou habilidade para o candidato sair da armadilha. Mas vamos ao que vem depois: Serra dizer que agora que quer "mudar de endereço, de trabalho, mas não de cidade” ajuda pouco a sair da enrascada do documento assinado.

O candidato é bom, mas devia continuar pensando pela sua cabeça. Essa frase parece coisa de marqueteiro. E alguém pode perguntar para o marqueteiro se o Serra, quando tentou ser candidato a presidente no lugar de Alckmin, não sabia que, em caso de vitória, não poderia governar a partir da capital paulista.

sábado, 1 de abril de 2006 21:06:00 BRT  
Anonymous Paulo Celso disse...

Pois é. Você diz que é absurdo, mas aconteceu. A Folha armou essa arapuca para o Serra e agora quer faturar em cima disso. Vai cair no vazio. O povo não é bobo. Não vai deixar de votar nele por causa disso. Olha, eu leio as coisas do Alon aqui neste blog e acho estranho que você diga que ele é serrista. Ele me parece mais um petista moderado, ou um comunista das antigas. Na maior parte do tempo ele acaba defendendo discretamente o Lula. Você não percebeu?

sábado, 1 de abril de 2006 21:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Quando li esse artigo do Alon fiquei furisa com ele. Mas hoje voltei a ler e comecei a achar que talvez ele tenha alguma razão. O Gilberto Dimenstain está mesmo fazendo o joguinho da Marta Suplicy.

domingo, 2 de abril de 2006 14:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Se eu tivesse votado no serra nao votaria novamente... acho que ele deveria ter sido sincero... e cogitado a possibilidade de deixar o governo ao inves de assinar o papel.

terça-feira, 4 de abril de 2006 02:15:00 BRT  
Anonymous Theo disse...

Alon, nessa vocÊ acertou. Como jornalista, eleitor, contribuinte, etc., concordo com tudo o que você disse. Abraço

terça-feira, 4 de abril de 2006 16:37:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home