domingo, 16 de abril de 2006

Caravelas liberais contra o vento, em mares nunca dantes navegados (16/04)

Alon Feuerwerker
(Nas Entrelinhas - Correio Braziliense, em 17 de abril de 2006)

A essência do marketing não é vender produtos. É vender necessidades. Você não sabia que precisava daquilo. De repente, fica sabendo. Picolé na praia qualquer um vende. Difícil é vender picolé no Pólo Norte. Ainda mais se for picolé de chuchu.

Geraldo Alckmin tem qualidades conhecidas: trajetória democrática, experiência administrativa e uma história política aparentemente limpa. Começam agora a aparecer acusações contra ele, mas Alckmin pode argumentar que são manobras eleitorais. Mais ou menos como a corrida desesperada de PSDB e PFL para atingir a honra de Luiz Inácio Lula da Silva, diretamente ou por meio de familiares.

Voltemos ao marketing. O desafio da oposição não é mostrar Alckmin como um bom sujeito e administrador competente. É convencer o eleitor de que o Brasil precisa do presidente Geraldo Alckmin no Palácio do Planalto. Por enquanto, tucanos e pefelistas parecem acreditar que esse objetivo pode ser alcançado por vias tortuosas e indiretas: tentando implodir a imagem do atual presidente da República com denúncias de corrupção.

A oposição tem políticos capazes e profissionais. Tem também dinheiro para pagar bons marqueteiros. Uma coisa chata é jornalista sabe-tudo, que fica atirando lições a esmo. Diz o ditado que quem sabe faz e quem não sabe ensina. Só que até agora a linha da oposição não tem dado certo. Em maio, vai fazer um ano que Lula apanha como nenhum presidente apanhou antes, mas o petista continua favorito na corrida presidencial. Pode ser que ainda não tenha apanhado o suficiente. Mas também pode ser que a estratégia dos adversários esteja errada.

A oposição parece acreditar que o brasileiro médio vai acordar bem cedo no dia da eleição, vai colocar a roupa de domingo, vai entrar na sua seção eleitoral e, em protesto contra a corrupção do governo do PT, vai votar nos candidatos do PSDB e do PFL. É uma crença e tanto.

No passado, um PT "virgem" e "ético" foi o desaguadouro do voto contra o PFL e o PSDB. Será que o eleitor vai agora percorrer o caminho de volta? Não sei. Faz pouquíssimo tempo que tucanos e pefelistas saíram do poder cravejados de denúncias de corrupção. E o eleitor pode ter ficado mais esperto depois do strip-tease político desencadeado por Roberto Jefferson.

Mas eu posso estar sendo injusto. Talvez a tática do PDSB/PFL não seja resultado apenas de uma escolha. Talvez seja fruto da necessidade.

Os dois principais partidos da oposição têm um programa para o Brasil. Geraldo Alckmin defende que o Estado contenha seus gastos, pare de sugar compulsivamente a poupança nacional e, em conseqüência, libere recursos para o setor privado investir, gerar crescimento e empregos. É um programa coerente e plenamente defensável. Se for aplicado para valer, pode dar certo.

Só que não vem dando ibope ultimamente. O vento global sopra para o outro lado. No Peru, uma candidata que defende essas idéias era favorita, mas corre o risco de ficar fora do segundo turno. No México, um ex-prefeito socialista da capital lidera a corrida pela cadeira do liberal Vicente Fox. Não preciso falar da Venezuela e da Argentina. Mesmo no Chile, Michelle Bachelet foi um ajuste, para a esquerda, na tradicional aliança entre socialistas e democrata-cristãos.

Podemos ir mais longe. O governo liberal francês foi derrotado nas ruas, quando tentou flexibilizar o mercado de trabalho. Na Alemanha, a conservadora Angela Merkel atenuou, no governo, o ímpeto reformista que exibia na oposição. Resultado: saboreia altos índices de popularidade. Na Itália, Silvio Berlusconi controlava a máquina estatal e os canais de televisão, mas mesmo assim perdeu a eleição para uma coligação liderada por ex-comunistas e comunistas.

O liberalismo anda em baixa. O público, aparentemente, quer mais Estado, e não menos. Para tentar ganhar a eleição programaticamente, os liberais brasileiros teriam que navegar contra o vento. Os portugueses fizeram isso no início dos Descobrimentos, cinco séculos atrás. Inventaram um navio (a caravela) cuja vela latina (triangular) lhes permitiu desbravar "mares nunca dantes navegados" (na foto, Luís de Camões, autor de Os Lusíadas), com ventos desconhecidos. Acabaram descobrindo o caminho marítimo para as Índias e chegaram ao Novo Mundo. Nunca deixaram de ser um pequeno país, mas transformaram-se numa nação de gigantes.

Se tiverem peito, PSDB e PFL vão construir suas caravelas liberais e lançá-las ao mar. Seria uma aposta destemida no seu próprio futuro. Mas podem também continuar confortavelmente abrigados nas denúncias contra Lula e o PT, de dedos cruzados e rezando para que, uma hora, Deus ajude e a coisa funcione. O retrospecto me diz que essa última alternativa é a mais provável. Além do mais, já está virando hábito: a cada quatro anos, debatemos animadamente ética na política até outubro e, surpresos, ganhamos em troca reformas da previdência depois de janeiro.

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5 Comentários:

Anonymous augusto disse...

Prezado Alon:
Como disse em meu primeiro comentário em 18.03: "Alkmim vai dar trabalho para a Imprensa". Infelizmente, do que posso depreender pelo alto nível dos seus posts, você, mais dia menos dia, por honestidade intelectual terá que abordar que todo esse esforço de marketing vem sendo veiculado por uma estrutura de mídia, que especialmente em SP parece já ter tomado uma posisão. Meu amigo, a janela de oportunidade que se abre para aqueles que representam o "pensamento intelectual não cooptável" nestas eleições será discutir, seriamente, o papel da mídia no Brasil. Isso é muito urgente, pois sem uma mudança é impossível governar sem um "pacto midiático" (lembra?) com estes grandes eleitores ou decisores, como queira. Um abraço.

domingo, 16 de abril de 2006 21:13:00 BRT  
Anonymous Marcus disse...

No pasarán.

segunda-feira, 17 de abril de 2006 01:11:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Excelente análise. Eu percebo também que cada vez que o governo move-se para o Centro, o povo desloca o centro para a direita (até sem saber). Quando o PSDB foi fundado eu situava-o, ainda que erroneamente, no espectro próximo dos partidos socialistas democráticos europeus. Quando chegou ao Governo, eu situava-o na Social Democracia. Agora, na oposição, ele está igualzinho ao PFL. Não há diferenças de discursos, de programas, de práticas, de praticamente nada. Uma fusão PSDB/PFL seria perfeitamente cabível, não faria diferença nenhuma no cenário político nacional (pode fazer no regional). Como eu posso deixar de situar os tucanos como um autêntico partido de direita, hoje? O Tasso Jereissati, por exemplo, já teve um momento em que via-o como um político moderno, renovador (talvez eu estivesse enganado, mas era a imagem que tinha). Hoje ele se comporta como antigos coronéis da política nordestina que ele combateu (a santíssima trindade para escolha do presidenciável tucano não me deixa mentir).
Até 2002 eu via o PSDB à esquerda do conjunto do PMDB, hoje parece estar à direita, apesar da difícil definição entre os diversos PMDBs.
Quando a oposição empurra o governo para a lama, o povo empurra a oposição para o abismo que vem depois da lama, como se estivessem encadeados. Acho que o raciocínio popular é simples: se até o Lula está assim, ou se ele teve que fazer tudo isso, imagine os outros.

segunda-feira, 17 de abril de 2006 14:54:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Não quero poluir o alto nível analítico do blog com banalidades, mas também não quero perder a piada, que é irresistível: A última caravela que o PSDB/PFL lançaram foi aquela réplica da Nau Capitânia nos 500 anos do descobrimento, que, digamos... não foi muito bem sucedida.

segunda-feira, 17 de abril de 2006 16:37:00 BRT  
Anonymous Marcos Ladeira disse...

Amansam ondas, quebra o vento a ira;
minha tormenta triste não sossega;
arde o peito em vão, em vão suspira.

Camões

A ira liberal é uma tormenta inofensiva. Lembrei nesse verso de Camões os discursos raivosos de ACM Baby e do Senador Arthur Virgílio que, com expressão irada, ameaçaram dar uma surra no Presidente Lula. De nada tem valido tanta violência. O povo cansou dessas demonstrações de raiva sem coerência.

Camões diria: Arde o peito em vão, em vão suspira...

terça-feira, 18 de abril de 2006 21:51:00 BRT  

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