sexta-feira, 7 de abril de 2006

Back to basics para a oposição (07/04)

As expressões americanas usadas no universo dos negócios já são comuns entre nós. É uma medida (cultural) da expansão do capitalismo aqui. Outro dia, amigos meus se chocaram quando lhes disse que Luiz Inácio Lula da Silva talvez represente a última oportunidade de nos transformarmos num país capitalista de verdade. Mas isso é tema para um outro post.

Uma expressão que já pegou é "to do the homework", fazer a lição de casa. A reunião está acabando e o chefe se despede:

- A próxima reunião será segunda-feira. Espero que até lá todos tenham feito a lição de casa.

Ele está falando das informações e relatórios que cada um deve preparar e trazer. Outra expressão, não tão difundida, é "back to basics", voltar aos fundamentos. É dita em geral nas empresas que um dia decidiram fazer um pouco de tudo (verticalizar). De repente, descobrem que poderiam ser mais eficientes se se dedicassem mais ao "core business", o negócio principal.

Não se pode acusar PSDB e PFL de negligenciarem o seu core business. Ambos fazem oposição 24 x 7 x 365, como os call-centers. É isso mesmo que eles têm que fazer. Oposição é oposição e ponto final. Governo que depende da oposição para governar tem que pedir o boné e mudar de ramo.

Outra coisa é se tucanos e pefelistas estão sendo eficientes no seu negócio. Vamos começar a saber no fim de semana, quando tem pesquisa Datafolha. Na terça tem a CNT-Sensus. Aquela que explodiu como uma bomba em fevereiro, ao primeiro detectar a recuperação de Luiz Inácio Lula da Silva. Foi mais xingada que Delcídio Amaral ao encerrar a CPI dos Correios, mas depois o PSDB e o PFL perceberam que tinham exagerado. Ainda estão devendo desculpas ao Clésio Andrade (presidente da Confederação Nacional do Transporte) pelo papelão.

Vamos ver se jogar todas as fichas na "ética" está dando o cacife esperado pela oposição. Leio aqui e ali que a opinião pública já condenou o governo e o presidente. Daí concluo que o eleitorado de Lula não faz parte da opinião pública. E que, portanto, esta e o eleitorado são duas categorias diferentes. Um dia, anos atrás, explicaram-me: quem põe o presidente no palácio é o eleitor, mas quem tenta arrancá-lo de lá é a opinião pública. Foi uma explicação muito útil, que agradeço.

De todo jeito, independente das pesquisas, arrisco que ainda falta alguma coisa a quem deseja, legitimamente, tirar Lula do palácio em 31 de dezembro de 2006. Li hoje no Financial Times que o número de novos empregos nos Estados Unidos em março foi de 211.000, "empurrando para baixo a taxa de desemprego e reforçando a confiança na saúde da economia".

Esse número chamou a minha atenção. Entrei no site do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho) e vi ali que, em fevereiro (último mês com dados disponíveis), o Brasil criou 176.632 empregos com carteira assinada. O número é 20% menor que o americano. Só que a aconomia americana é 15 vezes maior que a brasileira.

Ou seja, em ordem de grandeza o Brasil cria empregos a um ritmo parecido com o da principal economia do mundo, quinze vezes maior que a nossa. Não sei se essa maneira de ver as coisas é tecnicamente correta e deve haver diversas explicações sobre por que a comparação não pode ser feita nesses termos. Mas pouco importam as objeções técnicas, porque eleitoralmente vai fazer efeito, creio eu.

Um pouco mais de back to basics e de reflexão sobre seu core business não faria mal à oposição em sua homework, vocês não acham?

Post, homework, back to basics, core business, call-center. Acho que vou passar um tempo sem dar as caras ali no meu amigo Aldo Rebelo.

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10 Comentários:

Blogger Daniel disse...

Alon,

Apenas uma nota (sem querer ser chato): o Caged é um cadastro que depende mais da eficiência da fiscalização que de intensificação da atividade econômica. Inclusive sua metodologia foi alterada recentemente, o que impede comparação da série histórica. Criação de emprego se avalia de verdade no índice de desemprego, que pouco se mexeu no Brasil recente, e não resiste a uma comparação com os EUA (lá: 4,7%. aqui: 10%).

Abraço,
Daniel De Bonis

sexta-feira, 7 de abril de 2006 19:24:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Não sei se a melhor maneira de comparar é pelo índice de desemprego. Ele é uma medida de estoque, enquanto a criação mensal de empregos é uma medida de fluxo. Claro que os Estados Unidos levam vantagem no primeiro item, mas o que estou querendo destacar é outra coisa: a nossa capacidade de gerar empregos é semelhante à de uma economia quinze vezes maior. A oposição tem como rebater: basta ela mostrar como vai fazer para dobrar, triplicar esse fluxo. Mas para isso ela precisaria fazer a lição de casa e voltar aos fundamentos do fazer oposição.

sexta-feira, 7 de abril de 2006 19:31:00 BRT  
Anonymous Luis Carlos disse...

Alon, o tema diz respeito sobre o que terá + peso para decidir a eleição, certo? Afinal, quem ganha: a atual estratégia da oposição de empurrar o Lula contra a opinião pública (batendo no governo no aspecto moral), fungindo do "core business" ou a capacidade do Lula deixar a maior parte da população minimamente satisfeita para reelege-lo este ano? Creio que nem o resultado das próximas pesquisas serão suficientes para cravar qual a estratégia que dará certo. Estou curioso sobre os rumos da disputa, mas se a estratégia de colocar o Lula contra a parede der certo, pra quê ir para o "core business"? Não creio que haverá campanha em cima de propostas. A crise tá um pouquinho grande, temos que admitir, e o nome dela não é PT, apesar do partido ter boa parcela de culpa. O problema é que os todos os atores (oposição e governo), são pequenininhos demais para o tamanho da encrenca.

sexta-feira, 7 de abril de 2006 20:34:00 BRT  
Anonymous Fernando disse...

Alon, você está comparando "apples to oranges" como diriam os gringos, para horror do Aldo. Com o índice de informalidade existente no Brasil o CAGED é no máximo só uma curiosidade, a comparação correta seria entre índices de desemprego como bem falou o Daniel. O resto é "spin" petista.

Outro fator fundamental é saber o quanto estão pagando estes empregos. A renda salarial média dos brasileiros se manteve estagnada no governo Lula, depois de ter subido substancialmente com FHC. Vai ser fácil para a oposição.

sexta-feira, 7 de abril de 2006 21:07:00 BRT  
Anonymous Priscila Schneider disse...

Ô Fernando, menos. Se o Caged só pega os empregos formais, então há mais empregos ainda sendo criados, o que conta a favor de Lula e não contra. Sobre a renda, não vejo como dizer que ela cresceu mais num período de estagnação do que num de crescimento. Se é spin ou não, veremos na pesquisa e na eleição.

sexta-feira, 7 de abril de 2006 21:16:00 BRT  
Blogger Emerson disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

sábado, 8 de abril de 2006 09:49:00 BRT  
Anonymous Willian Gonçalves disse...

Existe um outro fator que pode decidir essa eleição, e que está sendo pouco levada em conta. Existe uma percepção popular de que todos os políticos são corruptos. E bastou o Geraldo confirmar sua candidatura para que surgissem as primeiras historinhas a seu respeito. A oposição joga um "all in" em que colocará uma marca de ladrão em Lula, contando com a ajuda de parte da imprensa que faz de conta que caixa 2 e seus penduricalhos nunca existiram no Brasil. Se aparecerem denúncias de uso de caixa 2 por parte do Alckmin, Lula pode acabar como vítima para o eleitorado, no papel da Madalena pecadora, apedrejada por pecadores hipócritas.

sábado, 8 de abril de 2006 11:54:00 BRT  
Anonymous Willian Gonçalves disse...

Existe um outro fator que pode decidir essa eleição, e que está sendo pouco levada em conta. Existe uma percepção popular de que todos os políticos são corruptos. E bastou o Geraldo confirmar sua candidatura para que surgissem as primeiras historinhas a seu respeito. A oposição joga um "all in" em que colocará uma marca de ladrão em Lula, contando com a ajuda de parte da imprensa que faz de conta que caixa 2 e seus penduricalhos nunca existiram no Brasil. Se aparecerem denúncias de uso de caixa 2 por parte do Alckmin, Lula pode acabar como vítima para o eleitorado, no papel da Madalena pecadora, apedrejada por pecadores hipócritas.

sábado, 8 de abril de 2006 11:55:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

É Alon, pelos comentários fica claro como esta eleição está apaixonante. Basta que o texto cite um dos lado e as reações são imediatas.
E pensar que a um ano e meio atras todos achavam que o Lula já estava reeleito, e que esta eleição seria apenas , digamos assim, uma avaliação do seu governo. Quanto ao nosso amigo Emerson, digo apenas uma coisa: é bom termos uma jornalista que vá contra a maré. A quebra do sigilo pode ter sido um erro (muito grave) do Palocci. Mas pergunte ao balconista da sua padaria o que ele acha do caseiro. A reposta do balconista provavelmente é a minha também. Nesta história não tem puros meu caro.

sábado, 8 de abril de 2006 16:10:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

É Alon, pelos comentários fica claro como esta eleição está apaixonante. Basta que o texto cite um dos lado e as reações são imediatas.
E pensar que a um ano e meio atras todos achavam que o Lula já estava reeleito, e que esta eleição seria apenas , digamos assim, uma avaliação do seu governo. Quanto ao nosso amigo Emerson, digo apenas uma coisa: é bom termos uma jornalista que vá contra a maré. A quebra do sigilo pode ter sido um erro (muito grave) do Palocci. Mas pergunte ao balconista da sua padaria o que ele acha do caseiro. A reposta do balconista provavelmente é a minha também. Nesta história não tem puros meu caro.

sábado, 8 de abril de 2006 16:10:00 BRT  

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