quinta-feira, 13 de abril de 2006

As lições, muito atuais, de Giocondo Dias e Salomão Malina (13/04)

Duas décadas atrás, tive o privilégio de conviver de perto com a cúpula do então Partido Comunista Brasileiro (PCB). Trabalhava na Redação do semanário oficial do partidão, o Voz da Unidade. O tablóide funcionava num prédio da Rua 7 de Abril, no centro de São Paulo. Foi ali que aprendi a suportar bem o medo de estar pertinho do fechamento, com um monte de páginas de jornal em branco para preencher, pouca coisa na linha de produção e nada na gaveta. Foi ali que me acostumei a olhar para uma lauda vazia e manter a calma. Hoje não há mais laudas, mas a calma no fechamento continua muito útil.

Foi também ali que aprendi algumas lições fundamentais sobre política e história. Duas delas: 1) a democracia é um valor universal e 2) o golpismo é um câncer da política brasileira que precisa ser combatido todo o tempo. Quem me dizia essas coisas sabia do que estava falando.

Giocondo Dias era o secretário-geral do PCB que sucedera Luís Carlos Prestes. O Cabo Dias, como era conhecido, surgiu para o comunismo e a política na insurreição de Natal-RN (depois de derrotada, virou Intentona Comunista), que em 1935 tentou depor Getúlio Vargas e levar ao poder a Aliança Nacional Libertadora (ANL), comandada por Prestes. [Não confundir com a Ação Libertadora Nacional, a ALN de Carlos Marighella nos anos 60]. O resultado prático do levante foi facilitar a implantação do Estado Novo.

Salomão Malina, que viria a ser o último secretário-geral do PCB após a morte de Dias, era judeu e foi um dos pracinhas da FEB (Força Expedicionária Brasileira) mais condecorados na Segunda Guerra Mundial (na foto, soldados marcham no Rio em 1944; clique para ampliar) . Morreu alguns dias antes da eleição de 2002. Teve a coragem e a dignidade de admitir, ainda em vida, que as ilusões golpistas do PCB haviam colaborado para a desestabilização de João Goulart em 1964.

A memória de Giocondo Dias e Salomão Malina vem à mente nestes dias em que um ramo do oposicionismo insiste em fazer circular a tese do impeachment. Quem está nessa se divide em duas correntes.

Há os que desejam derrubar Luiz Inácio Lula da Silva, mas desconfiam de que lhes faltaria o apoio popular. Por conveniência, desenvolveram o raciocínio de que já haveria as condições "jurídicas" para tal, mas não as "políticas". Alguém deveria perguntar-lhes, então, por que não trabalham para criar essas últimas. Se é medo mesmo ou só preguiça.

A segunda turma é a dos que propõem o impeachment já. Estes também sentem que não vão conseguir tirar Lula da cadeira na marra, mas especulam sobre o assunto. Como Augusto de Franco, hoje em artigo na Folha de S.Paulo:

"(...) O impeachment seria a melhor solução democrática, inclusive porque a menos traumática no médio prazo. Não havendo o impeachment -ou, que seja, ao menos um movimento pelo impeachment capaz de suscitar a emergência de uma opinião pública insurgente- e não havendo punição exemplar para os envolvidos, com a total defenestração dos aparelhadores do Estado, o próximo governo carregará, aí sim, uma herança maldita (porque autocrática) de proporções incalculáveis.
Isso, é claro, para não falar dos riscos da reeleição de um governante que, conquanto ainda tenha popularidade, não tem mais legitimidade. Deixá-lo concorrer nestas circunstâncias, promovê-lo a competidor legítimo depois de tê-lo poupado e mantido contra a lei e os bons costumes é um erro cuja conseqüência se abaterá sobre nós como uma bomba se, por acaso -o que não é difícil-, Lula tirar a sorte grande na loteria eleitoral que se avizinha."

Entenderam bem? Franco defende que é preciso começar já uma campanha pelo impeachment de Lula. Não porque o povo queira tirar o ex-metalúrgico do cargo, mas porque talvez decida reelegê-lo em outubro. Precisamente por isso, "deixá-lo concorrer (...) é um erro cuja conseqüência se abaterá sobre nós como uma bomba se (...) Lula tirar a sorte grande na loteria eleitoral que se avizinha". Ou seja, para Franco, a livre esolha dos governantes por cidadãos igualmente livres é só "loteria eleitoral". Talvez porque o eleitor possa não estar de acordo com as escolhas que Franco e seus amigos desejam impor ao país.

Não que essas opiniões tenham muita importância. Nada disso vai acontecer. É bom as pessoas irem se acostumando: somos uma democracia e o caminho para chegar ao Palácio do Planalto é o voto. Em outubro, quem tiver mais votos vai ganhar e levar, vai formar o governo e ficar quatro anos, a não ser que no caminho haja morte ou doença -o que esperamos não aconteça. Só aproveitei o gancho para prestar uma homenagem a dois grandes brasileiros, Giocondo Dias e Salomão Malina, com os quais gostaria de ter convivido por mais tempo. Para aprender mais e errar menos, já que o papel e o HTML aceitam mesmo tudo. Como esse um dia inimaginável "proporções incalculáveis" publicado na Folha.

Clique aqui para baixar a Canção do Expedicionário, o hino da FEB. Clique aqui para ver a letra.

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6 Comentários:

Blogger Luis Carlos disse...

Achei bom demais o Alon abordar o artigo deste cidadão. Já tinha lido e fiquei desanimado. Mais uma vez lembrei-me daquele famoso artigo do Carlos Lacerda, antes da eleição de 1950: "O sr. Getúlio Vargas não deve ser candidato à Presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar." O jeito, digamos, maroto, de fazer política da UDN sobreviveu. E nem as metáforas, quase 60 anos depois, mudaram: "mar de lama!". Confesso minha ingenuidade quando imaginei que seria nas urnas que a oposição tiraria o Lula, pois este chegaria desgastado a tal ponto perante a opinião pública que o voto contra ele teria se alastraria até o povão. Seria a tal “deixar sangrar”, expressão que a mídia impressa tanto repetiu desde meados de 2005. Mas parece que querem a política de terra arrasada, dizimar o inimigo. É o que desanima. Os mesmos métodos, os mesmos estilos...Embora seja bom ressalvar que quem nasceu Augusto de Franco já mais será um Carlos Lacerda, temos os lacerdinhas pipocando aqui, ali...acolá

sexta-feira, 14 de abril de 2006 01:56:00 BRT  
Blogger Fernando disse...

Impeachmente e' um processo constitucional, nao e' golpe. E' a reafirmacao da democracia contra o que o MP chamou muito bem de "quadrilha". O caminho para o Planalto e' o voto - ninguem discute isso - mas roubar da' cadeia e impeachment. Ou deveria.

Tambem lamento a sua homenagem a Salomao Malina e Giocondo Dias, nao combina com quem diz defender a democracia.

sexta-feira, 14 de abril de 2006 07:38:00 BRT  
Anonymous Sérgio Pillar disse...

Acho elogiável o Alon elogiar Giocondo Dias e Salomão Malina. Foram dois patriotas que refletiram sobre seus atos e ajudaram o Brasil a virar uma democracia. O Miguel Reale, que morreu hoje, foi integralista, mas nem por isso deixa de merecer nossa homenagens.

sexta-feira, 14 de abril de 2006 12:15:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Por que não se pode homenagear os comunistas? Acho que é preconceito. Ser democrata é aceitar todos, desde que aceitem a democracia.

sexta-feira, 14 de abril de 2006 12:30:00 BRT  
Blogger Semy Ferraz disse...

Gostei muito do seu artigo e concordo com o que você disse. Eu também tive o privilégio de conhecer Salomão Malina. Numa visita dele a Campo Grande-MS.

sexta-feira, 14 de abril de 2006 21:26:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, através desse artigo fiquei sabendo da sua trajetória no PCB na década de 80.

Sou neto de Salomão Malina e estou estudando jornalismo na Cásper Líbero.

Gostaria de conversar com você sobre a história de Malina.

Por favor entre em contato pelo e-mail: mariowmalina@gmail.com

Grato,

Mario Malina

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011 12:09:00 BRST  

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