terça-feira, 28 de março de 2006

Uma aposta que se esgotou (28/03)

Há pouco tempo, no Roda Viva da TV Cultura, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso revelou que a transição suave de seu governo para o de Luiz Inácio Lula da Silva teve outro objetivo, além do civilizatório: o tucano esperava do sucessor um chamado para que as duas correntes governassem juntas o país.

Do lado petista, houve também quem cultivasse essa idéia. Dois exemplos eram o ex-ministro Luiz Gushiken e, principalmente, o agora também ex-ministro Antonio Palocci. A base do raciocínio era razoavelmente simples: se o governo Lula implementava políticas aceitáveis pelos tucanos, em especial na economia, haveria terreno para um pacto de governabilidade, mesmo que informal.

O ato de Lula ao levar em 2003 ao Congresso suas duas reformas (Previdência e Tributária) acompanhado dos governadores era simbólico dessa estratégia: na ausência de uma maioria governista sólida, uma alternativa era buscar na sociedade e nas forças políticas fora do Parlamento o apoio à governabilidade.

Essa linha idílica começou a apresentar problemas na votação das próprias reformas, quando PSDB e PFL mandaram a coerência às favas e partiram para uma oposição de tipo petista, especialmente no ponto da contribuição previdenciária dos inativos. A coisa se agravou no episódio Waldomiro Diniz, já em 2004, quando a oposição sentiu a possibilidade de remover do Palácio do Planalto o principal pivô de Lula, o então ministro da Casa Civil, José Dirceu.

O que já não vinha bem piorou ainda mais quando o Executivo patrocinou as desastradas tentativas de reformulação da lei do audiovisual (Ancinav) e de implantação do Conselho Federal de Jornalismo, iniciativas de cunho autoritário que reacenderam na oposição a dúvida sobre a real vocação democrática da administração do PT.

E então vieram as eleições municipais. Nelas, o PT passou um duplo recado que atiçou a sede de sangue das outras forças políticas: mostrou não ser uma legenda com apetite para alianças que implicassem a real divisão do poder e exibiu uma fraqueza insuspeita, ao perder o segundo turno na maior parte dos lugares em que mais desejava ganhar, com destaque para São Paulo e Porto Alegre.

A fraqueza petista e a feroz luta interna no partido acabaram resultando em 2005 na eleição de Severino Cavalcanti. O curioso é perceber que os principais quadros do PP que serviram de "cavalo" para que a oposição derrotasse o governo na sucessão de João Paulo Cunha ou renunciaram (Severino), ou foram cassados (Pedro Corrêa) ou caminham para o ostracismo (José Janene).

O fortalecimento excessivo do PP está na raiz da crise com o PTB, que levou às denúncias de Roberto Jefferson e ao desenrolar conhecido de todos.

Em meio a essa deterioração progressiva, sobrevivia Palocci. Seu limite, como se viu, era a aproximação da eleição presidencial. Quando o projeto de poder da oposição veio à luz com nitidez, sua sorte foi decretada. PSDB e PFL livraram-se dele como quem joga fora um sofá usado.

Ontem, um colega me telefonou para constatar, assombrado, que José Dirceu, mesmo cassado, está em melhor situação do que seu ex-colega da Fazenda. Dirceu tem boa acolhida no PT e na esquerda, coisa que Palocci perdeu. É uma pena, pois o ex-prefeito de Ribeirão Preto talvez tenha sido um dos melhores ministros da Fazenda que este país já teve.

Acertou na economia mas encontrou seu limite na política. Ou, pelo menos, colocou todas as suas fichas numa única casa e perdeu. Com o tempo, a História lhe fará justiça (acredito eu), mas esse economicismo lhe foi fatal.

Clique aqui para assinar este blog

8 Comentários:

Blogger Ricardo disse...

Mas, Alon, e os crimes dele? Não valem ou contam para nada? O fato da política dele ser um piloto automático significa competência?

terça-feira, 28 de março de 2006 02:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Não entendi aonde o economicismo do Palocci é diferente do seu. Você já escreveu várias vezes nesse blog que o único dado que importa na disputa política é o crescimento econômico.
E eu gostaria de saber o seguinte: onde é que os fatos encaixam na sua narrativa a queda do Palocci? Fatos como as relações dele com a máfia de Ribeirão, as seguidas mentiras à CPI e ao Brasil, e finalmente o ato criminoso da intimidação do Francenildo.

terça-feira, 28 de março de 2006 08:39:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

As acusações de Ribeirão não são novas. A oposição conviveu bem com elas enquanto interessou. Palocci acabou caindo por causa do que fez no caso Francenildo. Se não tivesse acontecido, teria caído por qualquer outra coisa, pois ninguém o sustentava mais. A própria eclosão do caso do caseiro foi um sinal da falta de apoio a Palocci.

terça-feira, 28 de março de 2006 08:51:00 BRT  
Anonymous Priscila Schneider disse...

O que não há aqui é economicismo. Alon mostrou que a economia influi na política mas esta tem uma autonomia. E sobre ilegalidades, a CPI dos Bingos comete ilegalidades todos os dias, sob aplausos da imprensa, a mesma imprensa que exige punicao para quem cometeu ilegalidades no caso do Francenildo. A imprensa não defende a lei, ela faz política.

terça-feira, 28 de março de 2006 09:02:00 BRT  
Anonymous Ronald Freitas disse...

É isso mesmo, a CPi dos Bingos é uma afronta à Constituição e a imprensa não reclama. A imprensa viola todos os dias a privacidade das pessoas e faz isso sem derramar as lágrimas de crocodilo que derramou no caso do Francenildo. O Estadão só deu a notícia da corrupção na publicidade do Alckmin depois que o assessor pediu demissão. A Folha faz editorial todos os dias pedindo para que a Constituição seja rasgada. A imprensa é um lixo!

terça-feira, 28 de março de 2006 09:20:00 BRT  
Anonymous Artur disse...

Para quem desenvolveu o bom hábito de ler sem ser pelas fímbrias da venda o comentário de Priscila Schneider é colírio.
Todo mundo - não só a imprensa - que tem na opinião pública seu alvo faz política. Entre os quais, nitidamente, todos nós que lemos e comentamos em blogs...políticos.
Se esse súbito ardor pela 'legalidade' que assaltou as forças de oposição ao governo Lula tivesse sido aplicado em todo o pós-Collor teríamos vivido uma situação "italiana", de uns 2 a 3 governos por ano, tal o volume de ilegalidades praticadas.
Uma auditoria séria, p. ex. nas privatizações e na forma de ação dos fundos de pensão faria um 'valerioduto' assumir suas reais proporções: um traque, coisa de meninada amadora.
Tenho posição oposta à do Alon quanto às qualidades da política econômica adotada por Palocci e quanto, inclusive, às qualidades políticas do mesmo. Daí estar muito à vontade para concordar com a tese central do post: o que derrubou Palocci foi sua ilusão estratégica, a de que um PTSDB era o "caminho natural".
Ao, supostamente, praticar um dos esportes favoritos de seus "aliados" em Brasília - visitas a "casas no Lago" - teve que enfrentar seus verdadeiros papel e dimensão: mero peão na "extinta" luta de classes.

terça-feira, 28 de março de 2006 09:26:00 BRT  
Blogger Mauricio Savarese disse...

Alon sim, Noblat não. Parabéns pelo bom trabalho.

terça-feira, 28 de março de 2006 14:14:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon:
Ótimo texto, de alto nível. Gostaria, porém, de acrescentar minha visão:
No distante ano de 1989, Lula chegava ao seu primeiro 2o. turno enfrentando um fidedigno representante dos valores da direita brasileira, F.Collor.
Naquele instante, parte significativa da esquerda brasileira surpreendeu-se, pois tudo levava a crer que o autodenominado legítimo herdeiro de G.Vargas e J.Goulart, L.Brizola, deveria por "justiça histórica" ser o tal desafiante que, numa revanche final, daria, democraticamente, a vitória da esquerda sobre a direita no Brasil. Entretanto, com uma ultrapassagem espetacular na reta final Lula conseguiu seu espaço, o quê, para as teorias conspiratórias que se seguiram, apenas ratificava e dava forma final a um projeto de Golbery que passava, primeiro, pela divisão da esquerda e, depois, pela necessária legitimidade daquela e das demais vitórias conservadoras que se seguiram. Ao, finalmente, vencer as eleições presidenciais Lula, com uma política econômica que certa ou errada era, antes de tudo, contraditória, voltou a supreender a esquerda e, tb, a direita. Só não contava que com todo um esforço direcioado em consolidar um projeto de poder em detrimento do projeto de governo (royalties para J.Serra), Lula não só perdeu o seu próprio DNA intelectual de esquerda (C.Furtado, M.C.Tavares, C.Lessa, L.Pinguelli etc) como desagradou a direita que, obviamente, não vê nenhum motivo para passar o poder a, no seu entender, meros emergentes. Assim cercado de um aparato muito semelhante ao que se formou em 64, incluindo cabos Anselmo aos borbotões, além da vigorosa pressão de uma mídia que de lá prá cá apenas sofisticou-se tecnológicamente, Lula age de forma previsível entregando os anéis para salvar os dedos. Isto porém vem gerando uma situação inusitada e desconcertante: reduzido à quintaessência do PT, Lula vem desde o ano passado implementando uma agenda próxima daquilo que se esperaria da oposição no Brasil. Bom para população, que poderá acumular alguma lenha para enfrentar o rigor de um inverno conservador que se desenha, de forma cada vez mis nítida, para os próximos 4 anos. É apenas uma visão. Um abraço.

terça-feira, 28 de março de 2006 14:29:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home