quinta-feira, 23 de março de 2006

A propósito do artigo de Demétrio Magnoli sobre Emir Sader (23/03)

Enxergar a história pelos óculos da ideologia pode ser um problema. Você tende a selecionar os fatos que interessam, e a distorcer ou ignorar os que não se encaixam no modelo. A análise dos acontecimentos, de suas causas e das condicões em que se deram, bem como dos personagens e de seu grau de arbítrio, tudo é substituído pela “teoria histórica”, pela “ciência” e suas “leis”. Não é necessário saber como as coisas se passaram, basta saber os motivos que tornaram “inevitável” terem se passado daquela maneira. É o reinado da preguiça, das certezas prévias e das simplificações.

Tenho um amigo que lamenta, com freqüência, o tipo de ensino de História que seus filhos recebem na escola. Ele sonha com o dia em que os meninos vão chegar em casa falando sobre fatos e personagens, “e não apenas sobre como o grau de desenvolvimento das forças produtivas determina o modo de produção”, brinca meu amigo, com uma ironia que mal esconde a preocupação com o futuro intelectual das crianças. E olhem que ele já leu muito Karl Marx.

Demétrio Magnoli escreve hoje na Folha de S.Paulo (para assinantes da Folha e do UOL) um artigo em que, para criticar certo texto de Emir Sader, dá sua própria versão da história soviética e de Josef Stálin. Pelo menos numa coisa Demétrio a priori tem razão: falar bem de Stálin, nem que seja só um pouco, para apresentar uma reedição da biografia de León Trotsky escrita por Isaac Deutscher pode ter sido uma imprudência de Sader. Não faz sentido elogiar o carrasco num livro escrito para homenagear a vítima.

Tenho muitas reservas à maneira de Sader de pensar, especialmente em assuntos relacionados à globalização, ao Oriente Médio e ao terrorismo (ou seja, em quase tudo), mas acho que o Demétrio dessa vez escorregou. Ele critica a afirmação de Sader de que o desenvolvimento acelerado da URSS nos anos 30 foi decisivo para dar ao país os meios que lhe permitiram resistir à invasão alemã e, ao final, derrotar o nazismo. O fato é que uma Rússia agrária e camponesa dificilmente teria conseguido vencer o III Reich. E a rápida industrialização da URSS foi conseguida graças à alta capacidade de investimento estatal, que só existiu porque o regime soviético expropriou a riqueza rural e implantou a ditadura do proletariado.

É possível que uma Rússia democrático-liberal tivesse conseguido os mesmos resultados? Que tivesse conseguido enfrentar e liquidar o nazismo? Pode ser, nunca saberemos ao certo. Eu duvido. Todas as democracias liberais européias caíram diante de Adolf Hitler, com exceção do Reino Unido, que foi salvo pelo Canal da Mancha. Os britânicos foram heróicos, mas não tiveram que enfrentar a Wehrmacht em solo pátrio.

Demétrio também critica a idéia de o Estado de bem-estar social europeu ter sido uma concessão das elites aos trabalhadores para evitar a propagação do comunismo depois da Segunda Guerra Mundial. Nesse caso, é útil recorrer ao 18 Brumário de Luís Bonaparte e lembrar de como a classe dominante pode apoiar uma ou outra facção política, conforme sua necessidade de momento. A burguesia européia não inventou a social-democracia, esta é uma criação do movimento operário. Mas em diversas ocasiões no século 20 a Europa apoiou-se nos socialistas para conter o avanço dos comunistas. A lógica da Guerra Fria o impunha.

Quando a Alemanha invadiu a União Soviética em 1941, Hitler imaginava que os povos governados por Stálin se levantariam para saudar o invasor e para ajudá-lo a acabar com o comunismo. Aconteceu o contrário, os soviéticos se uniram e expulsaram os alemães. E quem governava o país eram o Partido Comunista e Stálin. Depois da guerra, os Estados Unidos fizeram um Plano Marshall não na América do Sul, mas na Europa Ocidental. Qualquer análise precisa partir desses fatos, simples e conhecidos de todos.

Na imagem (clique para ampliá-la), as nações européias que se beneficiaram do Plano Marshall. As barras vermelhas mostram a participação relativa dos países na ajuda americana recebida.

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16 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Fiquei emocionado ao ler essa nota. É tocante a vontade do bloguista de achar algo de positivo na Rússia de Stálin. Infelizmente, parece que só restou essa especulação quanto à hipotética incapacidade de uma Rússia liberal de resistir ao nazismo.
Essa especulação não faz nenhum sentido, principalmente pelo seguinte. A ascensão do nazismo na Alemanha e do socialismo na Rússia tiveram em grande parte raízes comuns. Não dá para imaginar um sem o outro. Esse aqui não é meio adequado para uma aula de história, mas a ascensão de Hitler não teria sido possível sem o descrédito da democracia de Weimar, descrédito esse que tem suas raízes na maneira como a 1a guerra acabou - que tem a ver com a revolução russa, que tirou aquele país da batalha.
Por outro lado, para quem acredita que a história é ciência e tem leis, essas contingências não têm a menor importância.

quinta-feira, 23 de março de 2006 19:08:00 BRT  
Anonymous Ronald Freitas disse...

Você diz que a Rússia é culpada pela ascensão do nazismo na Alemanha, por ter feito unilateralmente a paz com o Kaiser. Você só esqueceu do Tratado de Versailles e da humilhação que a França e a Inglaterra impuseram à Alemanha. Os bolsheviques só saíram da guerra em 1917-18 porque o exército imperial estava em desagregação. Se não o fizessem, teriam sido atropelados. E o descrédito na democracia de Weimar começou quando os social-democratas alemães no poder assinaram o Tratado de Versailles. Depois, mataram Rosa de Luxemburgo. Conteste isso!

quinta-feira, 23 de março de 2006 19:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ronald, você sabe debater sem colocar palavras na minha boca? Eu não disse que a Rússia é culpada pela ascensão do nazismo, o que eu disse é que a história da Rússia e da Alemanha no séc. XX são profundamente interligadas, e que portanto a hipótese de uma luta entre Alemanha nazista e Rússia liberal não faz o menor sentido.

quinta-feira, 23 de março de 2006 19:34:00 BRT  
Anonymous Ronald Freitas disse...

Por que não faz sentido, se a Alemanha entrou em guerra com outras nações liberais, como a Grã-Bretanha e a França? Aliás, a França tinha uma aliança histórica com a Rússia desde os czares, e é bem provável que ambas se alinhassem contra Hitler. E a Alemanha iria avançar para leste de qualquer jeito, pois só ali havia "espaço vital". Tanto é que todos os movimentos de Hitler antes da guerra foram nesse sentido (Áustria, Tchecoslováquia). O Führer sabia que a expansão do Reich se daria fundalmentalmente às custas dos povos eslavos, estivesem ou não sob o domínio comunista. Também tenho críticas a esse texto do Alon (está na cara que ele pensa como comunista), mas uma coisa que ele diz é verdade: O Ocidente sozinho não teria derrotado o nazismo. Você defende a tese de que sem a União Soviética não haveria a Alemanha Nazista. Mas é apenas uma tese, ainda por ser comprovada. Acho que nunca será.

quinta-feira, 23 de março de 2006 19:47:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ronald, o ponto fundamental é o seguinte: a ascensão de Hitler ao poder se deveu a uma série de contingências, e ainda assim foi por muito pouco. Exemplo: Hitler era ou não era visto na Alemanha como alternativa ao comunismo? Como ele poderia ter sido anti-comunista sem comunistas? Eu só estou tentando dizer que o argumento do Alon não faz sentido. E no final das contas é uma patética defesa do stalinismo.

quinta-feira, 23 de março de 2006 20:38:00 BRT  
Anonymous Ronald Freitas disse...

Não achei que ele estivesse defendendo o estalinismo. E acho que o fascismo e o nazismo não surgiram só por causa do comunismo, surgiram porque os trabalhadores não se reconheciam nos liberais e na social-democracia. Tanto que o Partido Nazista se chamava Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. E acho que você não deveria usar adjetivos para desqualificar as pessoas. Por que "patético"? É a opinião dele. Ele tem coragem de dar opinião e manter um blog que todo mundo pode ler e opinar.

quinta-feira, 23 de março de 2006 20:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Angus Reid Global Scan : Polls & Research
Fifty Years Later, Russians Regard Stalin Positively
March 4, 2006

(Angus Reid Global Scan) – Many adults in Russia think the tenure of one of the most notorious Soviet leaders was beneficial, according to a poll by the Public Opinion Foundation. 47 per cent of respondents believe Josef Stalin played a positive role in the country’s history.

Stalin was the second leader of the Soviet Union, taking over after the death of Vladimir Lenin in 1924. Stalin was responsible for a series of repressive campaigns—known as the Great Purge—during the 1930s. During his tenure, Stalin eliminated all possible political opposition through executions and internal exile.

Following the victory of the allies in World War II, the Soviet Union was established as one of the world’s superpowers. Stalin remained in control of the government and the Communist Party until his death in 1953. His successor, Nikita Khrushchev, officially denounced Stalin’s personality cult and repression in 1956.

In a May 2005 interview with German newspaper Bild, current Russian president Vladimir Putin said, "Stalin was certainly a tyrant and many call him a criminal, but he was not a Nazi. It was not the Soviet forces who crossed the German border on June 22, 1941, but the contrary. That is the first thing we should not forget."

Polling Data

In your view, did Josef Stalin play a positive role or a negative role in Russian history?

Positive 47%

Negative 29%

Hard to answer 24%

Source: Public Opinion Foundation
Methodology: Interviews with 1,500 Russian adults, conducted on Feb. 18 and Feb. 19, 2006. Margin of error is 3.6 per cent.

quinta-feira, 23 de março de 2006 21:36:00 BRT  
Anonymous Artur disse...

Pois é... ideologização de tudo é fato.
Bem que o velho-barbudo-comedor-de-domésticas avisou.
Mas não há como evitar essas provas ambulantes de Jung e seus arquétipos. São tão previsíveis quanto Marmelada Cica.
Só gostaria de tecer com o Anônimo xyz um thread de "what-if history": e se Joe - "totalitário" como ele só - resolvesse aliar-se aos seus "iguais" na Germânia?
Francamente acho que este não é um tema para amadores ou citadores de Google.

quinta-feira, 23 de março de 2006 21:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O trecho abaixo não é uma defesa do stalinismo?

"O fato é que uma Rússia agrária e camponesa dificilmente teria conseguido vencer o III Reich. E a rápida industrialização da URSS foi conseguida graças à alta capacidade de investimento estatal, que só existiu porque o regime soviético expropriou a riqueza rural e implantou a ditadura do proletariado.

É possível que uma Rússia democrático-liberal tivesse conseguido os mesmos resultados? Que tivesse conseguido enfrentar e liquidar o nazismo? Pode ser, nunca saberemos ao certo. Eu duvido. Todas as democracias liberais européias caíram diante de Adolf Hitler, com exceção do Reino Unido, que foi salvo pelo Canal da Mancha. Os britânicos foram heróicos, mas não tiveram que enfrentar a Wehrmacht em solo pátrio."

E o engraçado é o seguinte: O Alon, que você chamou de comunista, é que critica a visão ideológica da história, segundo a qual tudo que aconteceu era inevitável.

quinta-feira, 23 de março de 2006 21:56:00 BRT  
Anonymous Ronald Freitas disse...

Não acho que seja uma defesa de nada. Ele só falou o que aconteceu. São fatos. Eu sou contra o estalinismo mas não posso brigar com os fatos. Stálin tem que ser analisado historicamente, como Gengis Khan, Napoleão e Júlio César. Sem torcida. Acho que o Alon fez isso ou tentou fazer.

sexta-feira, 24 de março de 2006 08:59:00 BRT  
Anonymous Dourivan Lima disse...

Sem querer posar de conhecedor do assunto (que não sou), só acho que quando se entra no pantanoso terreno dos "inevitáveis históricos" e dos "contrafactuais" podem ser alinhadas milhares de boas razões de um lado e de outro do debate e não se chega a lugar nenhum. Com as devidas ressalvas pela minha condição de "moron" ou "amador", atrevo-me a dizer que todos, incluindo o Magnoli, o Sader e o "anônimo" (why?) citam com propriedade situações particulares e irrepetíveis do "acaso de labirintos" da história para defender idéias que ao final acabam emprenhadas por "ideologias", "teleologias" e (perdão) "filosofias da história" -pois tentam sair do "foi" para o "poderia ter sido". Nada disso é proibido ou mesmo fútil, mas quem, honestamente, pode ditar as "balizas" desse tipo de debate?

sexta-feira, 24 de março de 2006 11:01:00 BRT  
Blogger André Oliveira disse...

Dizer que o Canal da Mancha salvou a Inglaterra da invasão nazista é uma enorme simplificação.
Os nazistas tinham todas as condições de organizar uma grande operação de invasão da Inglaterra, com ou sem o Canal. E era esse o objetivo da operação Leão Marinho.

Entretanto já na primeira fase desta operação, que consistia no uso das força aerea para destruir as defesas aéreas inglesas, apesar da grande superioridade a Lufwaffe acabou levando a pior no que foi chamado de Batalha da Inglaterra.

Por conta disso e de novas prioridades em decorrência da invasão da União Soviética o plano de invasão foi sustado.

Logo não se deve agradecer ao Canal por ter evitado a invasão alemã da Inglaterra. Foi, em parte, o esforço da RAF que conseguiu fazer frente aos aviões alemães e, em parte contingências por conta da nova frente de batalha na Europa Oriental.

É importante notar que foi na Inglaterra, pela primeira vez, que os Nazistas tiveram de lutar de igual para igual com seu oponente. Até aquele momento eles só tinham batido em morto.

domingo, 9 de março de 2008 13:15:00 BRT  
Anonymous Eduardo disse...

Na minha humilde opinião, o que salvou mesmo a Inglaterra foi o fato de Hitler enxergá-la como uma possível aliada, que apenas se mostrava - até então - recalcitrante. Afinal, todo mundo sabe que os seus verdadeiros inimigos eram os comunistas, cujo enfrentamento ele apenas adiou com o pacto de 1939.

quinta-feira, 17 de julho de 2008 22:32:00 BRT  
Anonymous julianofolis disse...

Uma coisa é história, fatos, acontecimentos,dinâmica, movimentos (sociais, econômicos)... outra coisa é historioachismo, historiotorcida, historiodistorção, nova história, idealismo histórico, positivismo histórico... são infinitos trabalhos acadêmicos de pessoas "renomadas", versões querendo mascarar as contradições existentes diariamente e o pior é a tentativa de naturalizar as já existentes e chamam isso de ciência, evolução...

sexta-feira, 31 de outubro de 2008 15:19:00 BRST  
Anonymous Eduardo Batista disse...

Bom, não sou especialista nem nada, mas quero dar meu palpite também. Creio que também seja possível argumentar que o que salvou a Russia foi o mesmo motivo que salvou a Inglaterra: a sua geografia particular. Isso não explica tudo, mas não deixa de ser um argumento razoável. O que digo é que o papel que o mar teve na preservação da Inglaterra, a distância e o inverno rigoroso tiveram na preservação da Rússia. Claro que as geografias "privilegiadas" não salvaram Inglaterra e Rússia, houveram diversos fatores. Mas esse fator geográfico talvez foi o que faltou à França por exemplo. Assim, acho fraco o argumento de que a França caiu por ser liberal e a Rússia caiu por ser comunista. É uma análise simplista.

quarta-feira, 4 de março de 2009 15:09:00 BRT  
Anonymous Pepe Rodríguez disse...

O Sr. Alon escreve: "O fato é que uma Rússia agrária e camponesa dificilmente teria conseguido vencer o III Reich. E a rápida industrialização da URSS foi conseguida graças à alta capacidade de investimento estatal,...". Bom, não vou aqui tentar moldar o pensamento dos autores dos comentários acima, como se faz com o aço à fogo. Não vejo sentido na agressão mútua por opiniões pessoais! Enfim, no meu entendimento, sobre a afirmação do Sr. Alon destacada acima, da qual não concordo, e que coincidentemente é a mesma opinião de um amigo meu e que gerou o mesmo comentário que faço a seguir, sobretudo pela importãncia excessiva dada aos comunas na derrota nazi-facista:

1- A esência da 2ª GG foi a motorização: tanques, aviões, navios, submarinos e transporte a motor; daí a vital importância no destino da guerra com a entrada dos Estados Unidos - sua capacidade industrial foi deciciva para a vitória dos aliados. A Alemanha nazista enfim enfrentava um rival a sua altura em produção industrial bélica. Obs: No auge da produção americana, fabricava-se, se não me falha a memória, um avião por dia e uma embarcação a cada 30.

2- A Inglaterra só resistiu devido a ajuda por mar de mantimentos, matéias-primas e equipamentos bélicos provindos dos americanos;

3- Após a transferência das industrias bélicas soviéticas para o interior do país, além do Montes Urais, fugindo da fulminante ofensiva alemã, a União Soviética obteve grande ajuda dos Estados Unidos com o fornecimento de equipamentos bélicos mais atuais, em grande quantidade, através do Irã;

4- A afirmação que o rigoroso inverno russo foi fator decisivo é correta. Vide erro semelhante anterior de Napoleão;

Minhas considerações pessoais:

1- sem a entrada dos russos, a guerra apenas duraria mais a terminar;

2- se o Japão atacasse os russos pelo leste, em vez de agredir os americanos, ao mesmo tempo que os alemães, a história seria outra...

quarta-feira, 11 de março de 2009 22:42:00 BRT  

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