segunda-feira, 6 de março de 2006

Preocupada com a desigualdade, China quer crescer menos. Só uns 7,5% (06/03)

Está na edição de hoje de O Estado de S.Paulo:

"China quer reduzir ritmo de crescimento do PIB

Wen Jiabao, primeiro-ministro chinês, anunciou meta para expansão de 8% do PIB em 2006 e de 7,5% para os anos subseqüentes

Paulo Vicentini
ESPECIAL PARA O ESTADO
PEQUIM
O primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, pediu ontem que a economia que mais cresce no planeta há um quarto de século reduza o ritmo de sua expansão durante o 11º Programa Qüinqüenal (2006 - 2010). Durante seu tradicional pronunciamento na abertura da reunião anual da Assembléia Popular Nacional (APN), Wen anunciou uma meta de 8% para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) em 2006 e de uma taxa média de 7,5% para os anos subseqüentes. "Para dobrarmos o PIB per capita do ano 2000 até 2010, teremos que alcançar um desenvolvimento estável e relativamente rápido, sem que as localidades persigam exclusivamente a velocidade e nem concorram cegamente entre si".
Em tese, a fala de Wen se justifica. Na avaliação do Comitê Central do Partido Comunista da China (CCPCCh), o atual modelo de crescimento adotado pela nação mais populosa do planeta é excludente.
Muito embora a China tenha galgado ao degrau de quarta economia mundial em 2005, após registrar a estonteante taxa média anual de 9,5% no crescimento do PIB nacional entre 1979 e 2005, o fosso que divide os pobres dos ricos segue se alargando.
A renda per capita alcançada nas áreas rurais, por exemplo, equivale a menos de um terço do valor de US$ 1,29 mil atingido nas zonas urbanas. Um resultado que, na prática, deixa cerca de 650 milhões de camponeses muito longe da renda per capita almejada para 2010: US$ 1,7 mil. "É um cenário potencialmente explosivo", avaliam os membros da nova esquerda chinesa, corrente com grande trânsito político e intelectual junto ao atual governo. "

Clique aqui para ler a íntegra da reportagem (só para assinantes do Estadão). As angústias dos chineses com o crescimento sustentado e sustentável estão em linha com as preocupações de Lula. Só que há uma pequena diferença: eles falam em reduzir o crescimento do PIB para 7,5%, nós temos medo de subir além dos 2,3%.

Leia também:

O estudo do Ipea sobre as razões da redução da desigualdade no Brasil (05/03)

A reforma trabalhista de Lula e o Livro Vermelho de Mao Tsetung (03/03)

O PT só gosta quando a CNBB critica os outros; precisamos é de um Marquês de Pombal (02/03)

Um enigma para o Carnaval (24/02)

7 Comentários:

Blogger Ricardo disse...

Taí mais uma grande oportunidade para o Brasil: exportemos Lula, expert em crescimento desacelerado, ou então a equipe do COPOM e do Banco Central, que entendem tudo de controle do crescimento.
Finalmente, algo em que podemos exportar inteligência! O controle é nosso!

segunda-feira, 6 de março de 2006 12:28:00 BRT  
Anonymous Marcus Pessoa disse...

O último trecho do post ficou meio impreciso, Alon. Que eu saiba, a taxa de 2,3% foi um "acidente", ou melhor, a mostra da incompetência do Copom para interpretar os sinais inflacionários. Que eu saiba, o teto máximo de crescimento recomendado pela atual ekipekonomika está entre 4 e 5%.

Se for isso, e a China tiver motivos para limitar seu crescimento em 7,5%, fica parecendo razoável o limite imposto ao Brasil. Temos uma renda per capita bem maior que a dos chineses, e uma desigualdade maior também. Sou um leigo em economia, mas acho que ainda precisamos resolver algumas deficiências estruturais antes de conseguir um crescimento sustentado.

segunda-feira, 6 de março de 2006 14:37:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

É verdade, nossa renda per capita é o dobro da deles e temos um sistema de proteção social que inexiste lá. É preciso saber se estamos acertando a calibragem. Acho que não. O Ipea já demonstrou que o que reduz mesmo a desigualdade é emprego.

segunda-feira, 6 de março de 2006 14:58:00 BRT  
Anonymous Artur disse...

Alon,
Acho que ninguém precisa do lastro do IPEA para saber que bons empregos são o melhor caminho para a redução de desigualdades. A questão, me parece, comporta 2 outros ângulos de análise: quais as pré-condições para estabelecer um ciclo virtuoso de criação de bons empregos formais e o que fazer com a "desigualdade excessiva" enquanto os bons empregos não vêm.
abs

segunda-feira, 6 de março de 2006 18:39:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

É verdade, não deveria ser necessário recorrer ao Ipea para conferir legitimidade a essa tese. Ela deveria ser óbvia. Mas o problema é outro. A China só cresce (bem) mais que nós porque a capacidade de investimento de sua economia é (bem) maior que a da nossa. E, se crescer é o melhor caminho para combater a pobreza, como fazer para acelerar nosso crescimento?

segunda-feira, 6 de março de 2006 19:16:00 BRT  
Anonymous Artur disse...

Alon,
Que tal, entre muitos outros caminhos possíveis e necessários de investigação, examinar os fatores que geraram a grande capacidade de investimento da China, de origem endógena ou exógena?
Que tal examinar o papel do Estado chinês, do PCCh, as diversas experiências "contra a maré" do sul e sudeste asiáticos?
Que tal buscar entender pq todas as tais das "condicionantes obrigatórias" para atração de investimentos - desregulamentação, redução de direitos sociais, liberalização comercial e cambial, BC autônomo, Estado de Direito burguês, sacralidade dos contratos, instituições sólidas, etc - não entraram um segundo sequer nos cálculos de quem lá investe?
Temos um conhecido em comum - João Guilherme - que, toda vez em que proponho essa pauta, se sai com uma das suas formuletas maravilhosas: 'A China é NEP com Tcheka'. Rio muito, mas não concordo.
Há, por certo, algo a mais no Império do Meio.
Não tenho encontrado bons textos sobre a economia e a política chinesa recentes - ainda que fareje rastros bukharinistas positivos muito fortes.
"Growing Out of the Plan – Chinese Economic Reform 1978-1993", de Barry Naughton foi um dos poucos que li e traz, pelo menos, um bom volume de dados brutos. Se vc tiver outras fontes a sugerir, agradeço em nome de nossa origem política “manchu” em comum.
Abs,
PS: seu sistema de comentários exigir a digitação de "uaognese" só o I-C'hing explica

segunda-feira, 6 de março de 2006 21:40:00 BRT  
Blogger Caboclim disse...

Alguém já parou pra pensar que o que a China tá fazendo [sem também cair em determinismos] é aquilo que o velho chamava de "acumulação primitiva"?

terça-feira, 7 de março de 2006 09:48:00 BRT  

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