quinta-feira, 30 de março de 2006

O mensalão, a CPI e a nossa Lei Seca (30/03)

O caso do Mensalão veio a público na Folha de S.Paulo de 6 de junho de 2005. Ontem, quase dez meses depois, o relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), apresentou suas conclusões aos membros da comissão. O texto pode ou não ser aprovado na próxima semana, mas seus efeitos políticos estão dados. A partir das revelações/acusações de Roberto Jefferson e de seus desdobramentos, um partido repassar dinheiro a outro em troca de apoio é crime político, nas eleições ou fora delas. Suspeito que isso vai ficar parecido com a Lei Seca, que proibiu o comércio de bebida alcoólica nos Estados Unidos entre 1919 e 1933 (na imagem, um selo americano sobre o tema, clique para ampliar).

A circulação de dinheiro clandestino vai se tornar mais perigosa, mas não vai parar. Por uma razão simples: até hoje não se descobriu como fazer política sem gastar, e a pressão quase unânime da sociedade (e da imprensa) é para criminalizar todas as formas de financiamento da atividade. O caixa 2, por razões óbvias. O caixa 1, por supostamente significar a influência maligna e altamente contagiosa da esfera material no que deveria ser o puro universo das idéias [advertência: isso foi uma ironia].

Uma alternativa é o financiamento público, mas ele é visto com justificada desconfiança: muito provavelmente, passaria a conviver com o caixa 2 em vez de substituí-lo. A melhor solução, creio eu, seria liberalizar radicalmente o financiamento político-eleitoral. Quem quisesse daria os recursos que desejasse, quando melhor lhe aprouvesse. A Receita Federal acompanharia, preocupada unicamente com a origem do dinheiro e com o recolhimento dos impostos.

Quem deseja o poder, que se viabilize na sociedade, inclusive financeiramente. Mas acho que isso ainda demora, se é que um dia vai chegar a acontecer. O farisaísmo só não é nosso esporte nacional número 1 por causa de Charles William Miller. Nossos políticos estão mais interessados em achincalhar o adversário do que em aperfeiçoar a democracia. Até porque isso não é cobrado deles.

Somos medievais em pleno século 21. De tempos em tempos, queimamos uma ou mais bruxas em praça pública. Depois do espetáculo, e de consciência apaziguada, voltamos aos nossos pecados cotidianos. Até que o próximo infeliz seja pego com a boca na botija e faça desencadear uma nova campanha pela ética na política.

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1 Comentários:

Anonymous Dourivan Lima disse...

Análise precisa. A continuar esse baixo moralismo, vale a máxima do Ivan Lessa: o pior criminoso é o que se deixa apanhar.

quinta-feira, 30 de março de 2006 16:34:00 BRT  

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