sábado, 18 de março de 2006

O jornalismo de torcida e A Revolução dos Bichos (18/03)

O mundo ameaçou desabar porque Gustavo Krieger e Andrei Meirelles contaram no blog da revista Época que o caseiro Francenildo dos Santos Costa tem uma movimentação bancária incompatível com sua renda. Os dois jornalistas também publicaram as explicações do caseiro (aquele do caso Palocci), mas não foi suficiente. Foram acusados de: 1) fazer o jogo do governo, 2) usar informações vazadas ilegalmente pelas autoridades e, pior que tudo, 3) cometer uma injustiça contra um homem do povo que decidiu enfrentar os poderosos.

O Gustavo e o Andrei não precisam que eu os defenda, suas carreiras falam por eles. Mas aproveito o episódio para meter o bedelho nesse debate sobre o jornalismo dito investigativo, que aliás nunca foi minha especialidade (se é que tenho alguma). Até porque sobrou também para mim, pois fui o primeiro a comentar e parabenizar no blog da revista. Vibrei com o furo e, melhor, com o feito de lançar um blog dando um furo com essa repercussão. Recebi toda sorte de críticas (que publiquei neste blog e procurei rebater) e alguns xingamentos (que não publiquei).

Vamos então por partes.

Em primeiro lugar, o lide jornalístico precisa responder a quatro perguntas: “quem?”, “o quê?”, “quando?” e “onde?”. O sublide, a duas: “como?” e “por quê?”. Anos atrás, fazíamos na redação da Folha de S.Paulo piada com o que eu chamava de “sétima pergunta”: o “e daí?”. Servia para derrubar matérias bem montadas, mas que não tinham relevância.

[Uma obervação: A pergunta “A quem interessa publicar isso?” não faz parte do lide e nem do sublide. Nem é levada a sério em redações sérias. Se fosse relevante, toda reportagem deveria vir acompanhada de uma advertência ao leitor. Já imagino como seria: “Cuidado, pois essa matéria sobre juros menores interessa aos empresários do setor produtivo!” ou “Atenção, pois essa entrevista com o ministro do Planejamento vai dar argumentos a quem defende a política econômica!”. Num caso extremo, “Fique alerta, pois o objetivo dessa denúncia da oposição é enfraquecer o candidato do governo nas próximas eleições!”. Fala sério...]

Em segundo lugar, o jornalista precisa saber se a informação que vai publicar é verdadeira e relevante. Se for, deve mandar bala. Francenildo suspeita que a Polícia Federal tenha vazado seus dados para a revista. Investigue-se. Se se comprovar, puna-se o responsável pelo eventual vazamento. Mas não ataquem os jornalistas que obtiveram as informações, checaram, ouviram o outro lado e publicaram. Só cumpriram, com competência, sua obrigação profissional.

O argumento mais daninho é o terceiro. Tem a mesma raiz intelectual e ideológica da tolerância com o crime, desde que cometido pelo pobre. É por essas e outras que somos lenientes com a invasão da Aracruz, com as manifestações desse ludismo tardio (por que aqui quase tudo é tardio?) estimulado pela demonização do sucesso, da produtividade e da prosperidade individual. Quando vejo essas manifestações de "pobrismo", lembro sempre que o único país católico que deu certo foi a França, talvez por ter feito uma revolução que conseguiu separar o Estado e a Igreja.

No momento em que resolveu falar, Francenildo tornou-se um homem público. Nesse aspecto, não há diferença entre ele e Antonio Palocci. Ou a vida privada de ambos é relevante como assunto jornalístico ou não é. De ambos, bem entendido.

Jornalismo não é torcida. Mas se um dia decidirem que deve ser, vamos ter que rasgar os manuais e adotar A Revolução dos Bichos como texto-base. Naquela fazenda (era fazenda ou sítio?) todos os porcos eram iguais, mas uns eram mais iguais que os outros.

Talvez sejamos mesmo uma fazenda de porcos, mas convém não exagerar. Na imagem (clique para ampliar), a capa da Time de 1983 com o autor de Animal Farm, George Orwell.

Leia mais:

O caseiro contra-ataca (17/03)
Pingue-pongue com Gustavo Krieger, da Época (17/03)
Blog da Época estréia com grande furo (17/03)

4 Comentários:

Anonymous Fernando Cima disse...

Tudo certíssimo Alon. Só que a notícia aqui é outra. A notícia não é que Francenildo recebeu dinheiro do seu pai. A notícia é que o governo cometeu um crime e devassou o sigilo bancário de um cidadão comum.

Ah, mas Francenildo é um homem público agora? Concordo. Então o governo devassou o sigilo de um homem público. É mais notícia ainda.

E o que fez a Época? Ao invés de ir atrás da notícia (quem devassou? por que? como? a mando de quem?) ela foi atrás da vítima. *É essa inversão que estou criticando*. Se alguém do governo tem o extrato do rapaz, Época deveria ter investigado o governo. Mas preferiu investigar o rapaz. Que jornalismo é esse?

Neste seu texto agora você faz uma outra inversão. Não tem que ser comprovado que foi a Polícia Federal que vazou os dados para a revista. Não é ônus do Francenildo fazer isso. É ônus do governo mostrar que não foi ele que vazou, já que os dados estavam sob sua guarda na Caixa Economica Federal.

P.S. Como você não achou meu post anterior, meu nome completo abaixo.

sábado, 18 de março de 2006 20:10:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Acho que estamos chegando a um ponto médio, que me parece razoável. Creio que há aí duas notícias. A primeira é o volume da conta bancária de Francenildo. A Época foi atrás (ou foram atrás dela, tanto faz) e noticiou. Gol. Depois da entrevista do caseiro há uma outra notícia, que você identifica bem. Concordo que nesse caso o ônus da prova cabe ao governo. Vamos ver como a imprensa se comporta.

sábado, 18 de março de 2006 23:02:00 BRT  
Anonymous Marcus Pessoa disse...

Gostei muito do texto, Alon. É sempre bom explicar alguns princípios basilares do jornalismo, já que as pessoas não entendem!

O Fernando está tendo claramente uma posição partidária. Duvido muito que ele tenha reclamado do vazamento (também ilegal) da fita sobre o Waldomiro Diniz, feito pelo Ministério Público Federal em São Paulo (amigos do Serra). Assim como dessa vez, o comportamento da revista Época foi impecável (com o perdão da aliteração): ouviram o outro lado e publicaram o que tinham.

Não cabe ao jornalista questionar antecipadamente a forma como a notícia chegou até ele. Se é relevante, publique-se. O que não dá é pra esperar publicar alguma coisa até que o outro assunto relacionado (quem vazou) seja apurado.

Se a Época segurasse uma notícia dessas, aí sim é que seria um escândalo.

domingo, 19 de março de 2006 11:44:00 BRT  
Anonymous Dourivan Lima disse...

Embora tenha votado para presidente no Covas, no FHC (2 X) e no Serra, não me considero tucano - ainda mais agora que o baixo clero tomou conta do partido. Fui contra as tentativas de transformar CPIs e grampos em "Repúblicas do Galeão" durante os governos FHC e Lula. Não vou entrar na questão se a Época deu ou não o tratamento correto à matéria, até porque já se "institucionalizou" na imprensa o uso desses métodos ditos investigativos. O que esse episódio mostrou muito claramente - e o PPS foi muito feliz nessa percepção - é a inflexão para o uso da Polícia Federal como polícia política. Diga-se o que se quiser do governo Fernando Henrique (e eu como eleitor teria muito a reclamar), não lembro de ter havido um uso tão ostensivo da PF contra os adversários como no episódio do caseiro e da fajutíssima "Lista de Furnas". A provável exceção, a ser comprovada, é a batida da PF na empresa dos Sarneys. Mas, como diz o lugar comum, um erro não justifica outro.

segunda-feira, 20 de março de 2006 11:13:00 BRT  

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