sábado, 11 de março de 2006

A morte de Milosevic e o duplipensar ocidental (11/03)

Slobodan Milosevic morreu na cela que ocupava na Holanda. Para uns, foi um criminoso de guerra. Para outros, um herói nacionalista que lutou contra a fragmentação da antiga Iugoslávia. Cada qual tem sua opinião. George Bush, por exemplo, é para uns o líder da resistência do Ocidente contra a barbárie terrorista, o comandante da expansão da democracia pelo planeta. Para outros, é só um carniceiro lunático, guiado por uma psicose globalista de fundo místico.
É sempre saudável fugir dos estereótipos. Mesmo porque você corre o risco de ser pego no contrapé. A independência dos países, por exemplo. Você já se perguntou por que o separatismo na antiga Iugoslávia foi pintado nos anos 90 do século passado com cores heróicas, enquanto a luta pela independência dos Países Bascos e da Irlanda do Norte continuava a ser repudiada pela comunidade internacional?
Veja que usei propositalmente "separatismo" para qualificar uma ação que o ocidente classificava como do bem (o movimento de croatas, eslovenos e bósnios por estados independentes), e de "luta pela independência" outras ações que ainda hoje são desenhadas como do mal (ETA na Espanha e IRA na Irlanda do Norte). Geralmente, essas duas expressões , separatismo e luta pela independência, são usadas ao contrário nos casos que abordei. Preste atenção.
Diferentemente dos demais países do Leste Europeu, a antiga Iugoslávia deixou a esfera de influência da União Soviética logo depois da Segunda Guerra Mundial. Em verdade, nunca foi um "satélite de Moscou", expressão pejorativa que não era (e não é) usada para qualificar países que se aliaram aos Estados Unidos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O líder iugoslavo na época, Josip Broz, o Marechal Tito, foi até um dos inspiradores do Movimento dos Países Não-Alinhados. Aliás, Tito era croata.
Entre as décadas de 50 e 80, a Iugoslávia Socialista era vista no Ocidente como estado-tampão, que estabilizava uma região potencialmente explosiva. Os Bálcãs são a fronteira européia entre ocidente e oriente, entre cristianismo e Islã. É confusão permanente. O estopim da Primeira Guerra Mundial foi o assassinato do herdeiro do Império Áustro-Húngaro por um nacionalista sérvio na capital da Bósnia. É gente de briga. A Iugoslávia foi o único país que se libertou da ocupação nazista sem ter ajuda de tropas estrangeiras em seu território.
Quando o poder socialista desabou no Leste Europeu e na União Soviética, no final do século passado, a Iugoslávia era uma das últimas peças do dominó a se manter de pé. Sua momentânea fraqueza e sua posição estratégica despertaram a cobiça européia, especialmente a alemã. Era a oportunidade de fazer o que Adolf Hitler conseguira apenas por um curto período: instalar estados que servissem de cabeça de ponte da expansão da Alemanha para o leste (na foto, o líder dos fascistas da Croácia e aliado de Hitler, Ante Pavelic, cumprimenta o Führer em junho de 1941; clique na imagem para ampliá-la) . Quando, anos atrás, a seleção da Croácia conquistou o Campeonato Mundial de Handebol, seus jogadores cantaram o hino da república croata fantoche e filonazista que existiu sob as bênçãos do III Reich. E que foi uma das ditaduras mais sanguinárias da época, horrorizava até os alemães.
Na passagem dos anos 80 para os anos 90 do século passado, os sérvios enxergaram no separatismo croata, esloveno e bósnio uma ameaça a sua sobrevivência como nação independente. Pelas razões históricas já expostas, fica difícil condenar um sérvio por ver inspiração nazifascista no nacionalismo croata. Também por isso, o resultado do esfacelamento iugoslavo foram a guerra civil, a barbárie, o genocídio e os crimes contra a humanidade.
Que merecem ser condenados com todo o vigor. Mas não se deve esquecer que foi o ocidente , especialmente a Alemanha, quem desestabilizou a Iugoslávia ao estimular unilateralmente sua fragmentação. Ali, dividir a Iugoslávia passou a ser "luta pela independência" e não mais "separatismo".
Mas a Alemanha, ao contrário de Milosevic, não foi "convidada" a sentar-se no banco dos réus em Haia. A História, como se sabe, é escrita pelos vencedores.
Nada impede, porém, que a verdade seja resgatada. E se você não sabe e quer saber o significado de "duplipensar", clique aqui.

3 Comentários:

Anonymous Artur disse...

Alon,
Quem dera que os demais "blogs de política" no Brasil mirassem nestas bandas. Sabemos, os 2, o quanto discordamos em tantas coisas, mas é tão melhor discordar de argumentos e textos de qualidade!
Confesso um sentimento ambivalente: como o volume de comentários é tão baixo em um blog tão bom? E como é bom que este blog ainda não tenha virado praia das torcidas organizadas e suas centenas de comentários pueris.

abs.

domingo, 12 de março de 2006 13:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

São poucos os comentarios porque isso aqui nao tem clima de Palmeiras x Corinthians ou Vasco x Flamengo

domingo, 12 de março de 2006 15:11:00 BRT  
Anonymous Marcus Pessoa disse...

Gostei muito do texto, Alon. Foi muito informativo.

domingo, 12 de março de 2006 15:59:00 BRT  

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