quarta-feira, 15 de março de 2006

A gorda composição lulista (15/03)

Num jantar, acabo de encontrar o amigo que me conta: tradicionais economistas de esquerda (perdão, heterodoxos, aqueles da Unicamp), que ensaiavam uma aproximação com José Serra, avisaram a esse meu amigo ontem à noite que estão prontos para embarcar de malas e bagagens no trem de Luiz Inácio Lula da Silva. Com a escassez de alternativas no mercado eleitoral, a composição lulista promete ser variada. Meu amigo ficou contente, pois ele é Lula e não abre.

O trem do presidente na reeleição terá quem defenda com unhas e dentes o tripé câmbio flutuante + responsabilidade fiscal + metas de inflação, exatamente do jeito que está. Essa gente vai na locomotiva com o maquinista Antonio Palocci, se ele se livrar das confusões. Num vagão estará a turma que deseja baixar os juros e corrigir o real para cima. Esses ainda procuram um jeito de mostrar que suas propostas não elevarão a inflação nem a dívida pública. Num outro carro vem o pessoal que pede para reduzir imediata e simultaneamente os juros e o superávit primário, proposta do professor Carlos Lessa preparada para um PMDB que, imaginava ele, teria candidato a presidente.

As pessoas que viajam nos vagões acham que um dia vão tomar a locomotiva. Ainda não descobriram que as portas dela estão lacradas.

O PSDB liquidou a candidatura de José Serra num putsch que só não foi sangrento porque o serrismo se rendeu. Com sabedoria, evitaram ser dizimados. Lembra um pouco Cruzada, de Ridley Scott. Chega uma hora em que o potencial destruidor de quem está cercado pode e deve ser usado para obter um bom acordo, já que é insuficiente para alcançar a vitória. Resta saber quem é o Saladino dessa trama tucana recheada de traições. Desconfio que vem do Ceará. Clique na imagem acima para ampliá-la e ver uma estátua de Saladino na cidadela de Damasco, Síria.

E o PMDB? Ele vai dissolvendo em ácido seus pré-candidatos, especialmente Anthony Garotinho. Já o PDT, o PPS e o PSB fogem de projetos nacionais para não sacrificar o principal: atingir a cláusula de barreira de 5% dos votos para deputado federal e, com isso, evitar o rebaixamento para a segunda divisão da política. O PCdoB vai de Lula, ocupando um vagão todo especial: o dos que vêem o governo como "em disputa". Discordam do essencial da política econômica mas lutam de dentro para mudá-la.

São variadas as coisas em que divirjo de meu amigo Reinaldo Azevedo, que conduz com coragem o seu Primeira Leitura. Aliás, bom é conversar com quem pensa diferente, para aprender alguma coisa e testar as próprias idéias. Num ponto, Reinaldo acertou em cheio: se tudo caminhar como parece que vai, o establishment pode liquidar em março uma eleição prevista só para outubro (mudei um pouco o sentido das palavras dele, mas acho que não vai se incomodar).

Ouvi ontem o discurso de lançamento da candidatura e uma entrevista do governador Geraldo Alckmin, cuja história política é digna e marcada pelo compromisso com a democracia e o interesse público. O Geraldo propõe que votemos nele porque vai fazer um governo mais eficiente e mais honesto que o de Lula. Esse discurso deve estar orientado por alguma pesquisa, já o vi (ouvi) na boca de mais de um tucano e pefelista. Como são profissionais da política, devem saber o que fazem. A mim, não diz nada.

Claro que todo mundo que disputa eleição promete ser mais honesto e eficiente. Só faltava dizer o contrário: "Vote em mim porque sou mais desonesto e mais ineficiente do que o meu adversário". Fala sério... O PSDB, agora que tem candidato, poderia mostrar, detalhadamente, no que seu governo será diferente do de Lula. O governador tem falado muito em conter os gastos ("fechar as torneiras"). Poderia explicar, por exemplo, como vai segurar as despesas correntes sem fazer uma nova reforma da Previdência, sem reduzir os recursos destinados aos programas sociais, sem arrochar o funcionalismo e sem conter os aumentos reais do salário mínimo.

Este blog é meu e ponho o que eu quiser. Como a bobagem que escrevi acima. Você acha que alguém vai discutir numa campanha eleitoral como conter gastos correntes? Só se for maluco, ou estiver a fim de perder a eleição. É melhor ter um bom marketing e contar a história bonita do menino que veio de não sei onde e vai salvar o Brasil não se sabe do quê. Rende lágrimas e votos. Uma vez no poder, será fácil explicar que nada pode ser mudado, por causa da correlação de forças.

3 Comentários:

Anonymous Marcus disse...

Comentário perfeito, Alon. Muito bom mesmo. Bem, eu acredito que os gurus tucanos de Alckmin querem sim implantar um programa ultra-liberal. Seria mais fácil ele conseguir uma maioria sólida no Congresso que um Lula reeleito.

Não sei se os programas de cada um vão ser realmente explicitados. No caso de Lula, seu governo fala por si. Não tenho idéia se Alckmin vai ser atrativo para quem não o conhece.

Se o PMDB não lançar candidato, a decisão será no no primeiro turno, eu acho.

quarta-feira, 15 de março de 2006 04:31:00 BRT  
Blogger Regis disse...

Por que votar em Alckmin? Por quê da maneira que caminha, Lula não terá base na câmara e senado para governar e tentar passar as ditas reformas. Já entra com um governo com imagem desgasta, como foi o segundo do FHC. Se hoje consegue passar seus projetos na banheira das almas, ano que vem terá que sofrer muito mais, já que nem com o PT pode contar... No mais, o cerne dos dois governos serão iguais, pois não existe mais espaço para soluções miraculosas e sim para um projeto de longo prazo para o país. Os dois sabem o que tem que ser feito, o que diferencia é a disposição para fazê-lo.

quarta-feira, 15 de março de 2006 08:40:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Vou citar o Reinaldo Azevedo de novo, porque ele disse algo que sempre achei a respeito de Alckmin: o que ele pensa a cerca de (aplique aqui qualquer política pública)? Não sabemos nada do que pensa, já que seu governo não teve marca própria alguma (exceto pela segurança, notadamente diferente daquela de Covas). Ele é um excelente político - e só. Gestão se consegue com bons auxiliares e uma equipe competente, algo que tanto ele quanto Serra possuem, e o PT só não tem porque despreza a meritocracia e quer tomar o Estado nas mãos.
Acho engraçado, contudo, ver esquerditas ainda achando que Lula poderia ser mais opção que Alckmin. Este é folha em branco, pode ser muito mais maleável que o Apedeuta, amigão do que há mais atrasado no país (ou acham que ele vai largar do Calheiros, Sarney e mensaleiros?)

quarta-feira, 15 de março de 2006 11:01:00 BRT  

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