sexta-feira, 17 de março de 2006

Dois bandos em guerra pela caneta (17/03)

O candidato do PSDB à Presidência da República, Geraldo Alckmin, fala macio e promete uma campanha civilizada, mas sua tropa amola o facão e avança nas tripas do adversário. Revira-se a vida pessoal dos petistas com uma sem-cerimônia que o PT não ousou ter quando estava na oposição e lhe pediam para especular com a vida pessoal dos tucanos.

Essa combinação de maciez no discurso do chefe e ferocidade na ação dos subordinados não é novidade. Em 2002, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva vestia a fantasia de "Lulinha Paz e Amor", mas seus fiéis mostravam na televisão ratos roendo a bandeira do Brasil e colavam cartazes para acusar os adversários de conspirar contra os direitos trabalhistas. Direitos que agora o próprio Lula quer rediscutir. Pelo menos foi o que ele disse à The Economist.

Os petistas sustentam que Fernando Henrique Cardoso fez um governo entreguista, mas não revogaram uma sequer das privatizações comandadas pelo tucano. E não me venham com a história de "respeitar contratos". Negócios supostamente lesivos ao país precisam ser investigados. Caso se comprovem as irregularidades, devem ser revogados e os responsáveis, punidos. Não o fazer seria um crime de lesa-pátria. Ou então, a conversa sobre entreguismo era só conversa fiada.

Conforme se aproxima o dia da eleição, os tucanos aumentam o volume das críticas a uma política econômica que passaram anos defendendo e elogiando. Quando se pergunta o que fariam de diferente, não sabem responder. Limitam-se a bater obsessivamente na tecla de que o Brasil cresce abaixo dos demais emergentes por incompetência de Lula e do PT. E o pior é que têm consciência -acho eu- do exercício de mistificação que praticam.

Sabem que o Brasil vai mais devagar porque tem um sistema de proteção social (SUS, Previdência, programas de complementação de renda), estabelecido na Constituição de 1988 e consolidado nos governos FHC e Lula, que não existe na Índia, na China, na Argentina ou na Venezuela. Enquanto os demais investem, aqui nós protegemos os mais pobres (e algumas vezes os nem tanto). Basta comparar a composição e o volume da renda per capita no Brasil e nesses países.

Quando vejo alguém do PSDB e do PFL reclamando da carga tributária, lembro sempre do ministro da Fazenda de FHC, Pedro Malan. Ele explicava pacientemente e quantas vezes fosse necessário que os impostos aumentam para pagar despesas aprovadas pelos próprios políticos, e sempre em decorrência de pressões vindas da sociedade (ou de parte dela). Nunca foi seriamente contestado.

Esperar dos partidos sinceridade, honestidade intelectual ou patriotismo em épocas de luta pelo poder seria de uma ingenuidade imperdoável. Quanto mais perto o dia da eleição, mais os tucanos e petistas adotam o comportamento clássico descrito nos manuais quando dois bandos entram em querra para decidir quem vai ter a caneta das nomeações e da liberação de recursos do orçamento.

Ambos só precisam cuidar para não surgir na eleição alguém que aparente estar mais preocupado com o país do que com o poder. Mesmo que seja mentira.

8 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, essa sua visão negativa do governo do PT é derivada das coisas que você viu lá dentro do Planalto?

sexta-feira, 17 de março de 2006 10:36:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro anônimo:

Se você pesquisar no meu blog vai ver o que penso do governo Lula: que ele tem muitas qualidades. Como o do Fernando Henrique também tinha. Os políticos vivem em clima de Fla-Flu e cabe aos jornalistas lançar um pouco de luz sobre a luta que travam pelo poder.

sexta-feira, 17 de março de 2006 11:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É verdade. Todo governo tem aspectos bons e aspectos ruins. É que imaginei que desse assunto de guerra da caneta você deve entender bastante, tendo passado pela secretaria de assuntos parlamentares da casa civil.

sexta-feira, 17 de março de 2006 11:28:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Acho que entendo um pouco. Inclusive dei minhas opiniões a respeito aqui neste blog, um pouco antes do Carnaval. Dê uma olhada no que penso sobre o orçamento impositivo (obrigatório). Só não entendi por que você se esconde no anonimato.

sexta-feira, 17 de março de 2006 11:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, sou tucano e falo sem problemas: a política econômica é essa mesma. Não mudaria uma vírgula, e quem fala contra ou faz demagogia ou é irresponsável mesmo.

O problema na verdade é o resto. Temos uma previdência quebrada, uma política tributária perversa, uma legislação trabalhista arcaica, e um estado inchado. Juros altos e arrocho fiscal são apenas anestésicos para que a cirurgia seja feita. Mas não fazemos nada, e o tempo vai passando com o país anestesiado.

Note que isso aí não é exatamente uma "rede de proteção social". A previdência, por exemplo, quebrou em parte devido às aposentadorias rurais; mas quebrou principalmente pelas aposentadorias altíssimas do funcionalismo público. A legislação trabalhista protege mais a classe média do que os pobres que nem tem carteira assinada. O governo federal gasta mais com a universidade gratuita para os filhos dos ricos do que com o ensino fundamental para os pobres. Mas a sociedade está pronta para encarar isso? Enquanto não estiver, a política econômica é essa mesma.

E só um P.S.: não me venha dizer que o PT não investigava a vida pessoal dos governistas. Você sabe que isso é mentira - ninguém teve tão poucos escrúpulos nessa área como Dirceu e sua turma. Precisa também citar a ala petista do MP (Luiz Francisco e cia.)? Por favor - o PT sempre jogou baixo.

sexta-feira, 17 de março de 2006 19:08:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

"Mentira" é um pouco forte, mas vamos lá. O que eu escrevi foi o seguinte:

"Revira-se a vida pessoal dos petistas com uma sem-cerimônia que o PT não ousou ter quando estava na oposição e lhe pediam para especular com a vida pessoal dos tucanos".

Não disse que o PT não fuçava, disse que ele não tinha a sem-cerimônia atual. Porque não ousava ter. Certamente tinha informações, mas as guardava como arma de dissuasão. A diferença agora é que o processo parece ter saído controle das forças políticas.

Quanto à outra parte de seu comentário, concordo em muita coisa. Mas veja que quando o PT chegou ao governo e tentou avançar nas reformas, em alguns casos a oposição apoiou, mas em outros preferiu cobrar coerência com a posição anterior dos petistas, sabidamente equivocada.

A contribuição previdenciária dos inativos do setor público, por exemplo, foi tratada demagogicamente como "maltratar os velhinhos". E a oposição tanto fez que impôs a aprovação da PEC Paralela, que diluiu os avanços da proposta original.

sexta-feira, 17 de março de 2006 19:53:00 BRT  
Anonymous Artur disse...

Pois é, no dos outros é sempre refrescante.
Como sou um comunista carcomido e, portanto, em aberta discordância com Anônimo e Alon - ainda que a amizade do último seja algo de que tenho orgulho desde 1977 - posso me pronunciar sem rodeios: a única crítica verdadeira de tucanos ou protoaves ao atual governo é que o caixa bicudo recebe menos benesses.
Todo o resto é jogo de cena.

sexta-feira, 17 de março de 2006 20:14:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

É, temos uma divergência importante. Eu não sou carcomido.

sexta-feira, 17 de março de 2006 20:19:00 BRT  

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