sábado, 4 de março de 2006

Borges de Medeiros, Alckmin, Getúlio e Serra (04/03)

O recente livro de Domingos Meirelles sobre a a Revolução de 1930 (Os Órfãos da Revolução, Editora Record) traz nas páginas 286 e 287 a descrição de como o então governador do Rio Grande do Sul, Getúlio Dornelles Vargas, informou ao presidente Washington Luís Pereira de Souza que era candidato a sucedê-lo, mesmo contra a vontade deste. Os detalhes do episódio ajudam a compreender melhor o atual impasse tucano na escolha entre o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o prefeito da capital paulista, José Serra, para concorrer à Presidência da República em outubro.

O paulista (apesar de nascido em Macaé-RJ) Washington Luís havia rompido a aliança entre São Paulo e Minas Gerais (café com leite) ao preferir um outro paulista, Júlio Prestes de Albuquerque, na sua sucessão. O governador de Minas, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, sobrinho-neto do Patriarca da Independência, vira frustrado seu sonho de ser o novo presidente. O Velho Andrada, como era chamado, encarregou então seu secretário do Interior, Francisco Luís da Silva Campos, de articular uma candidatura gaúcha com o apoio de Minas para enfrentar o afilhado de Wasington Luís. A História registra que essa divisão entre as oligarquias republicanas esteve na base da revolução que levou Getúlio ao poder.

Vargas havia sido ministro da Fazenda de Wahington Luís e o presidente o considerava um aliado. Em 17 de julho de 1929, o deputado gaúcho José Antônio Flores da Cunha levou ao presidente a carta em que Getúlio lhe comunicava, na prática, o rompimento.

Diz o livro de Meirelles que “Flores entregara ao chefe da Nação uma carta confidencial de Vargas, na qual o presidente [na época os governadores eram chamados assim] gaúcho dizia que Minas sonhava em fazê-lo candidato. (...) Diante da delicadeza do assunto consultara [Antônio Augusto] Borges de Medeiros. Como chefe regional do Partido Republicano, Medeiros reconhecia o direito do presidente [Washington Luís] em conduzir as negociações, mas esclareceu que não se poderia desprezar aquele momento histórico, 'o exame da primeira oportunidade que se oferecia para a escolha de um representante do Rio Grande do Sul à mais elevada magistratura da República'.

Vargas afiançou que não fazia parte dos seus planos substituir Washington Luís. (...) mas como homem de partido viu-se, de repente, obrigado a submeter-se àquela decisão 'pela voz do seu chefe' (...). 'Quem propõe é Minas, quem aceita é o chefe do Partido e eu acato a decisão', escrevera (...) dias antes, eximindo-se de eventuais complicações políticas.”

Serra está melhor nas pesquisas e é o favorito da cúpula tucana, mas o chefe político do PSDB em São Paulo é Alckmin. Borges de Medeiros poderia ter reivindicado a candidatura à sucessão de Washington Luís, mas resolveu indicar Getúlio. Alckmin quer ele mesmo ser o candidato, pois está no fim do mandato e acha que pode vencer Luiz Inácio Lula da Silva. Serra sabe que não pode sair da Prefeitura com dois anos e nove meses de mandato a cumprir e ainda por cima rompido com Alckmin. Seria, muito provavelmente, o prenúncio da derrota. O desfecho do impasse tucano depende menos de prazos e mais de como os dois, Serra e Alckmin, vão costurar o indispensável acordo para que um deles possa ter chances de vencer.

Um livro clássico e popular sobre o tema nos Estados Unidos é o Toda Política é Local e Outras Regras do Jogo, de Tip O'Neill. O título é auto-explicativo.



Leia mais:

O inferno astral do PSDB chega a São Paulo (02/03)

Risco de disputa na convenção tucana (01/03)

Cúpula tucana escolhe Serra (26/02)

Alckmin, Serra, Aécio e um Maia contra Lula? (19/02)

Dois destinos interligados (15/02)

A convergência entre Serra e Alckmin em São Paulo (14/02)

Onze pontos para tentar desvendar o enigma tucano (22/01)

2 Comentários:

Anonymous Priscila Schneider disse...

É por isso que eu leio esse blog. Traz coisas diferentes! Tem cultura! Parabéns!

domingo, 5 de março de 2006 10:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Nem tem comparação com outros.

segunda-feira, 6 de março de 2006 11:14:00 BRT  

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