quarta-feira, 22 de março de 2006

As notícias econômicas e a radicalização política (22/03)

A guerra entre governo e oposição promete romper todos os limites. Há acordos tácitos pontuais, como foi o arquivamento da representação contra o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), mas a lógica que vai prevalecendo é a do vale-tudo.

2006 será o ano em que a jovem democracia brasileira terá sido finalmente submetida a um "teste de stress". Vamos ver como nos saímos sem a nossa habitual cordialidade. Progressivamente, nas palavras de meu amigo Ilimar Franco, a política no Brasil vai ficando igual à americana. Não há convenções que não possam ser abandonadas e o objetivo do jogo não é derrotar, é destruir.

Eu diria que vai ficar pior que nos Estados Unidos. Lá, democratas e republicanos mostram os dentes mas acabam se unindo em temas relacionados à segurança nacional. Aqui, nem isso. Ninguém lembra mais (porque a lógica da crise em que estamos mergulhados não é buscar a verdade, é causar o maior dano possível ao adversário), mas um agente da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) foi obrigado a depor em sessão aberta numa CPI e, portanto, a revelar sua identidade. Sobre o que mesmo ele falou? O que resultou daquilo? Fora o espetáculo, nada. E o show segue.

Os jornais de hoje trazem boas notícias para Lula, na economia. "Emprego formal atinge nível histórico em fevereiro com reação da economia" é um título de reportagem de O Globo. O lide, de Martha Beck e Eliane Oliveira: "A retomada da atividade industrial e a expansão do comércio ajudaram o mercado de trabalho a criar 176.632 empregos formais em fevereiro. Esse foi o melhor resultado já registrado para o segundo mês do ano e representa um aumento de 0,68% em relação a janeiro, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgado ontem pelo Ministério do Trabalho. Nos últimos 12 meses, a geração de vagas com carteira assinada chegou a 1,3 milhão".

Outro título no mesmo jornal: "Preço baixo, comércio em alta". O lide, de Cássia Almeida: "A dona de casa Denilza Narciso de Oliveira tem enchido mais o carrinho de compras nos últimos meses. Os preços estáveis e em baixa têm permitido levar para casa mais biscoitos, iogurte, frutas e frios, gastos que giram em torno de R$ 500 por mês. 'Tenho comprado mais coisa com menos dinheiro. O preço do frango, então, baixou muito. E as promoções nos supermercados vêm aumentando', disse".

Mais um: "Remessas caem e contas externas têm recorde". O texto é de Patrícia Duarte: "Mais uma vez impulsionado pelo bom desempenho da balança comercial, aliado à menor remessa de lucros e dividendos para fora do país, o saldo de transações correntes brasileiro fechou fevereiro positivo em US$ 725 milhões — o melhor desempenho para meses de fevereiro desde o início da série histórica, em 1947. O número inverteu o déficit de US$ 452 milhões de janeiro e surpreendeu o Banco Central (BC), que esperava ficar no zero a zero. Por causa disso, o BC revisou para cima boa parte dos principais indicadores das contas externas para 2006. O próprio superávit das contas correntes passou de US$ 6,1 bilhões para US$ 8,6 bilhões".

Se você quiser entender por que a campanha eleitoral deste ano vai ser a mais sangrenta (Deus queira que apenas em sentido figurado) da História do Brasil, não basta ler as notícias de política. Tem que prestar atenção nas de economia. Ou a oposição levanta o país numa cruzada moral contra Lula e o PT ou vai perder a eleição, porque na comparação de desempenhos econômicos e administrativos Lula tem garrafas para entregar. Certamente há motivos para uma cruzada desse tipo no Brasil, mas convém desconfiar dos generais que se apresentam para comandá-la.

5 Comentários:

Blogger Ricardo disse...

Não acho que seja comparando com FHC que vá se dar a briga mas SP e Brasil. Aí, Alckmin tem economia chinesa contra lema brasileira. Fora a roubalheira.

quarta-feira, 22 de março de 2006 11:39:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O problema de discutir moralidade na política é que os agentes se revertem dos mais variados tons de cinza. Não há preto nem branco. Isso não nos impede de dizer que o governo Lula está rompendo todos os limites.

Quanto aos generais - vamos pegar um exemplo concreto, o do ministro Nelson Jobim. É um pemedebista da pior espécie. Nem por isso deixo de aplaudir a proibição do nepotismo no judiciário.

Quanto aos índices econômicos - OK, já deu para perceber que estamos lidando com um discípulo de Jim Carville. Para fins eleitorais, tudo bem: uma galinha na panela de cada brasileiro, etc. Agora, achar que governo se reduz a isso é de uma pobreza extraordinária.

quarta-feira, 22 de março de 2006 11:47:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Esse negocio de crescimento chines e uma bobagem. Foi a Veja que inventou isso. Sao Paulo cresceu 7% num ano que o Brasil cresceu 5% (2004). Mas agora a industria do resto do Brasil esta crescendo mais rapidamente que Sao Paulo. Li uma coisa aqui mesmo neste blog, nao me lembro quando. E voce acha que alguem vai acreditar quando o Alckmin disser que o Brasil vai ficar igual a Sao Paulo se ele for presidente? So um paulista obtuso acreditaria nisso. Roubalheira? Esses petistas sao ladroes de galinha perto dos tucanos. Viva a Heloisa Helena!!!

quarta-feira, 22 de março de 2006 12:21:00 BRT  
Anonymous Márcio Linhares disse...

É isso mesmo, na média de quatro anos de governo o crescimento de São Paulo vai ficar bem parecido com o do Brasil. E esse Geraldo Alckmin é um espertalhão, pois ele sabe que São Paulo só cresce porque o governo federal tem políticas que ajudam. Por que não crescia quando o FHC era presidente e o Mário Covas governador? Se o problema é a incompetência do PT no governo federal, por que São Paulo vai melhor agora quando o governo federal está nas mãos do PT? Por que não ia melhor quando os tucanos mandavam em tudo? NÃO PENSEM QUE SOMOS IDIOTAS!

quarta-feira, 22 de março de 2006 12:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon, é emocionante sentir a sua solidariedade com o pobre agente da Abin que teve a sua identidade revelada por uma CPI. Será que não tinha um exemplo melhor?
Sei lá, de repente é alguma coisa que só quem mora em Brasília pode entender. Vista aqui de São Paulo a Abin é uma organização totalmente inútil, e presta um grande serviço à nação quem desmascara os seus agentes. Veja bem, não estou falando do princípio abstrato de uma agência de inteligência; estou falando da Abin como ela realmente é.

quarta-feira, 22 de março de 2006 14:40:00 BRT  

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