quinta-feira, 9 de março de 2006

A aritmética, a política e a guerra (09/03)

O PFL trabalhou para evitar a cassação de Roberto Brant (MG), parlamentar respeitado e admirado na Câmara dos Deputados. O PT trabalhou para salvar o Professor Luizinho (SP), que passou pela liderança do governo sem fazer inimigos políticos. Num certo momento, os interesses do PT e do PFL convergiram taticamente e os dois deputados acabaram beneficiados. Isso está no noticiário. Mas falta alguma coisa nessa explicação.

A aritmética é implacável. Faltaram 101 votos para cassar Roberto Brant. O PT tem 82 deputados. Mesmo que todos tenham votado a favor de Brant ou adotado alguma forma de abstenção (coisa muitíssimo improvável), e ainda que esses votos tivessem sido dados em bloco à cassação do ex-ministro da Previdência de Fernando Henrique Cardoso, faltariam ainda 19 para que ele perdesse o mandato. O mesmo raciocínio vale para o Professor Luizinho. Faltaram 74 votos para cassá-lo. O PFL tem 63 deputados. Nem que tivesse votado unanimemente contra o petista conseguiria mudar a decisão que salvou o ex-líder do governo.

Roberto Brant e o Professor Luizinho livraram-se da pena máxima porque no voto secreto o plenário da Câmara dos Deputados não acha que caixa 2 eleitoral seja delito suficientemente grave para levar à perda de mandato. Seria espantoso se fosse diferente, pela conhecida amplitude do fenômeno na vida política brasileira. Antes da crise deflagrada pelas acusações de Roberto Jefferson, o caixa 2 era tratado por quase todos, inclusive pela imprensa, mais ou menos como o jogo do bicho ou a briga de galos: algo que está aí, é ilegal, mas com que é possível conviver. Caixa 2 só foi transformado pela opinião pública em crime hediondo quando Jefferson buscou fazer a vinculação entre esses recursos "não contabilizados" e a formação de maiorias no Congresso Nacional para votar projetos, o chamado mensalão.

Está em A Arte da Guerra, de Sun-Tsu: "Para um inimigo cercado, você deverá deixar um caminho para a saída; e não pressione com muito vigor um inimigo que está acuado e desesperado em um canto sem saída". Não é proibido pedir aos políticos que se suicidem coletivamente. Mas é razoável imaginar que eles resistirão antes de chegar a esse extremo. Karl Von Clausewitz (foto) dizia que a guerra é a política feita por outros meios. Os kamikazes matavam-se para combater os Estados Unidos. Os homens-bomba no Iraque e na Palestina explodem-se para lutar contra os americanos e contra Israel. Em ambos os casos, o objetivo do sacrifício é enfraquecer o outro lado. A auto-imolação para ajudar um inimigo implacável não está descrita na literatura especializada. De vez em quando, a gente acaba esquecendo desse detalhe.

3 Comentários:

Blogger Ricardo disse...

A união PT-PFL nem é tão nova assim, basta ver as coligações em SP para dar o chapéu no PSDB na Câmara dos Vereadores e na Assembléia Legislativa.

quinta-feira, 9 de março de 2006 11:28:00 BRT  
Anonymous Artur disse...

Alon,
Bom senso e conhecimento da realidade são atributos muito raros. Basta ler o que os "coleguinhas" escrevinham em seus blogs e nos jornalões.
O óbvio é dolorido para os ideologizados que discursam contra a ideologia. Se alguém buscasse sintetizar a "grande" imprensa brasileira aposto que usaria o grafismo dos 3 símios.
TUDO que ora é narrado já havia. Só os jornalistas "não viram".

quinta-feira, 9 de março de 2006 23:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O interessante que temos um deputado absolvido, "respeitado e admirado", que afirmou em sua defesa que o plenário deveria ter a coragem de contrariar a opinião pública, "o monstro que nos ameaça". Pois bem, o plenário parece que desafiou "o monstro". Nada como ter respeito e admiração. Está devidamente anotado. No vácuo foi outro, "que não fez inimigos políticos". Nada como fazer amigos e influenciar pessoas. Está também anotado. O "monstro" foi ferido, mas não de morte.

domingo, 12 de março de 2006 15:57:00 BRT  

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