sexta-feira, 31 de março de 2006

31 de março, há 42 anos (31/03)

Os militares voltaram a comemorar sem constrangimento o aniversário do golpe de 31 março de 1964, que hoje completa 42 anos. É um sintoma? Talvez. Os pessimistas dirão que que o ambiente político e a crise do governo de esquerda do PT (o primeiro no país desde João Goulart, que era do PTB) abrem espaço para um potencial golpismo de direita manifestar-se com mais desenvoltura.

Os otimistas como eu acham que não é isso, que na democracia cada um comemora o que quiser, desde que pacificamente e sem ferir os direitos do outro. Até porque é preciso reconhecer: golpismo perigoso no Brasil não é nem nunca foi o dos militares. Foi e é o dos civis. Tenho mais receio das vivandeiras do que dos quartéis. Basta ler e ouvir o que se escreve e se diz, nos jornais e no Congresso.

Os militares têm sido um elemento progressista na História do Brasil. Se não no sentido que a esquerda costuma dar à palavra, confundindo progressismo com esquerdismo, pelo menos na acepção mais geral: quase sempre apoiaram o progresso. Eis uma diferença importante, por exemplo, com seus colegas da Argentina.

O novo ministro da Coordenação Política, Tarso Genro, escreve hoje sobre outro assunto na Folha de S.Paulo. De passagem, diz que João Goulart foi derrubado mais pelos seus méritos do que pelos seus defeitos. Li essa tese pela primeira vez, se não me engano, num livro de Luiz Alberto Moniz Bandeira, “O Governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil (1961-1964)”. Gosto dela. Por mais equívocos que Jango tenha cometido, seu pecado indesculpável para a direita foi apontar a proa do governo para os mais pobres, com as reformas de base. Elas eram tão necessárias que o primeiro presidente do ciclo militar, marechal Humberto de Alencar Castello Branco (foto), acabou fazendo o Estatuto da Terra, pilar fundador da moderna reforma agrária no Brasil.

Acho que o problema de Jango foi dar ouvidos aos que pediam as reformas “na lei ou na marra”. Quem acabou retirado do poder na marra foi ele próprio. Uns concluíram que isso representava o “colapso do populismo” no Brasil e decidiram enveredar pela luta armada. Penso que se encontra aí a raiz histórica e política do petismo (a raiz social do PT é São Bernardo, é Luiz Inácio Lula da Silva). Outros entenderam que o colapso não havia sido do “populismo”, mas da democracia, arruinada pelo sucessivos descuidos com ela, e que se tratava de juntar todo mundo que, em princípio, estivesse a favor de restabelecê-la para sempre.

Aliás, poderíamos aproveitar a efeméride de 64 para fazer um pacto: proponho abolir o uso da palavra “populismo” como categoria histórica nos nossos debates. Ao se prestar a quase tudo, o termo acaba não explicando quase nada. Se desaparecer, não vai fazer falta. A expressão serviu e serve apenas para amalgamar essa aliança espúria entre a esquerda e a direita que têm horror às origens trabalhistas do moderno protagonismo operário e popular no Brasil.

Infelizmente para os socialistas e os comunistas, eles escolheram ficar fora da Revolução de 30. E, como já advertira o Conselheiro Acácio, as conseqüências vieram depois. A quem se interessar pelo assunto sugiro ler “O Imaginário Trabalhista - Getulismo, PTB e cultura política popular: 1945-1964”, de Jorge Ferreira, editora Civilização Brasileira.

Alguns não compreendem o porquê desse ódio acumulado e aparentemente inesgotável entre o PSDB e o PT. Não é tão difícil assim entender. É um pouco como as guerras entre sérvios e croatas e entre judeus e palestinos. Quando se odeiam, irmãos o fazem a taxas bem mais elevadas do que seria razoável. As duas legendas têm origem antigetulista. Nasceram da negação, respectivamente, dos dois vetores políticos que carregavam a marca de Getúlio Vargas: o Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro.

A aliança entre o PSD e o PTB garantiu para o Brasil duas décadas de democracia no pós-guerra. Quando se rompeu, abriu as portas para o golpe de 42 anos atrás. Depois, refeita no velho Movimento Democrático Brasileiro (MDB), permitiu a aglutinação das forças que acabaram construindo a ponte que nos transportou de volta à democracia com Tancredo Neves e José Sarney.

Lembro bem de que no governo Sarney o PMDB se deixou demolir por uma campanha permanente e brutal para estigmatizá-lo como legenda fisiológica e invertebrada, a antítese do partido ideológico de que supostamente precisávamos para sermos um país moderno, mais parecido com os do Primeiro Mundo.

Essa conversa deu em Fernando Collor. Depois, tentaram desmoralizar Itamar Franco, o da “república do pão-de-queijo”. Sabe-se hoje que Itamar só escapou da guilhotina quando, sabiamente, aceitou colocar Fernando Henrique Cardoso no ministério da Fazenda.

Impossibilitado de aliar-se com o PT, FHC foi original. Como não podia refazer a aliança PSD-PTB, cooptou a União Democrática Nacional (UDN). Juntou o PSDB com o PFL e o PMDB e deu-nos oito anos de estabilidade política e econômica. Meus amigos petistas e comunistas não gostam que eu diga, mas só isso já colocaria o sociólogo tucano na galeria dos grandes presidentes da História do Brasil. Galeria que terá também Luiz Inácio Lula da Silva, se o metalúrgico tiver a habilidade e a sabedoria de recompor (compor) a aliança com o PMDB e completar bem o seu período de quatro (ou oito) anos.

Aí o ciclo estará fechado. Todas as forças políticas ponderáveis terão passado pacificamente pelo poder no Brasil, e pelo voto. Seremos enfim uma democracia totalmente funcional. Estarão realizados os melhores sonhos de nossa juventude. E cada um de nós poderá, finalmente e com a ajuda de Deus, cuidar da vida e envelhecer em paz. Não mais fará diferença de que lado tenhamos estado em 31 de março de 1964.

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11 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon escreve

"Os militares têm sido um elemento progressista na História do Brasil. Se não no sentido que a esquerda costuma dar à palavra, confundindo progressismo com esquerdismo, pelo menos na acepção mais geral: quase sempre apoiaram o progresso. Eis uma diferença importante, por exemplo, com a Argentina."

A definição é circular e o raciocínio teleológico.

sexta-feira, 31 de março de 2006 16:46:00 BRT  
Anonymous Paula Dias Vieira disse...

Fui no Houaiss ver o que é teleológico. Diz lá:

"Teleologia

Datação
1858 cf. MS6

Acepções
substantivo feminino
Rubrica: filosofia.
1 qualquer doutrina que identifica a presença de metas, fins ou objetivos últimos guiando a natureza e a humanidade, considerando a finalidade como o princípio explicativo fundamental na organização e nas transformações de todos os seres da realidade; teleologismo, finalismo
1.1 doutrina inerente ao aristotelismo e a seus desdobramentos, fundamentada na idéia de que tanto os múltiplos seres existentes, quanto o universo como um todo direcionam-se em última instância a uma finalidade que, por transcender a realidade material, é inalcançável de maneira plena ou permanente
1.2 teoria característica do hegelianismo e seus epígonos, segundo a qual o processo histórico da humanidade - assim como o movimento de cada realidade particular - é explicável como um trajeto em direção a uma finalidade que, em última instância, é a realização plena e exeqüível do espírito humano


Etimologia
tele(o)- + -logia; f.hist. 1858 teleología"


Desculpa, mas esse texto nada tem de teleológico. Ele faz uma avaliação de que os militares desempenharam papel progressista na construção da nacionalidade. Eu também acho isso. Se você não acha, argumente em vez de lançar adjetivos ao vento. Você é muito corajoso no teu anonimato.

sexta-feira, 31 de março de 2006 17:08:00 BRT  
Anonymous Richard Lins disse...

Oi Alon, conheci o seu blog na coluna da Tereza Cruvinel. Achei suas palavras muito ponderadas e o pensamento isento, porém faltou nos explicar como um exército tão "progressista" pode tolerar a butralidade e o autoritarismo... só se explica mesmo pela ganância de altos postos e na subserviência dos comandados. Isto faz nossas Forças Armadas estarem no mesmo nível dos exércitos Alemão, Japonês, Argentino, Sérvio etc. E não pertencerem ao grupo de forças como o Espanhola (garantiu a estabilidade após a morte de Franco) ou Italiana, que combateram os terroristas e os mafiosos sem "leis de excessão".

sexta-feira, 31 de março de 2006 17:33:00 BRT  
Anonymous Richard Lins disse...

Complementando, achei muitíssimo interessante sua visão sobre os acontecimentos históricos de 1930 p/ cá.
Só acho que FHC vai passar mesmo p/ História como mais um presidente que tentou alguma coisa mas não chegou lá (tipo Jango). Já Lula, acredito que vai ficar alguns degraus abaixo... isto se não for fazer companhia aos ilustres Quem da República Velha.

sexta-feira, 31 de março de 2006 17:38:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Pois é Richard, muitas vezes na História o progressismo material (urbanização, industrialização, inclusão educacional, universalização dos serviços de Saúde) acaba sendo promovido por forças autoritárias e brutais. O que eu disse foi que os militares brasileiros não são, nem nunca foram, intrinsecamente reacionários. Quando jogaram esse papel, estavam comandados ou influenciados por uma elite civil que se recusava a largar do osso. O mesmo Exército espanhol que sustentou a transição democrática, quarenta anos antes levantara-se para esmagar a República e instalar o fascismo. O mesmo Exército brasileiro criado para perseguir escravos fugidos apoiou a Abolição depois da Guerra do Paraguai. É duro aceitar isso, mas a ideologia não explica a História. Esta precisa ser compreendida pelas suas próprias leis (ou pela sua própria lógica).

sexta-feira, 31 de março de 2006 17:50:00 BRT  
Blogger Aurélio Macedo disse...

Muito bom artigo.
Parabéns, estou cada vez mais fã
Bom fim de semana a todos!

sexta-feira, 31 de março de 2006 18:43:00 BRT  
Anonymous Flavio Lopes disse...

Caro Alan,

Considero a sua análise bastante lúcida e dela só discordo num pequeno ponto, quando você diz que "O problema de Jango foi ter dado ouvidos aos que pediam as reformas “na lei ou na marra”".
Não creio que este tenha sido o problema de Jango mas sim que o golpe estava predestinado, decidido "em Roma", tanto assim que foi um golpe em cadeia e praticamente toda a América do Sul foi tomada por ditaduras militares, com assistência técnica, inclusive para a prática da tortura dita científica, todo mundo sabe de quem.
Continuo vendo o perigo de golpe, pois a direita, pelo menos a brasileira, é, sempre foi e sempre será golpista, como a história demonstra.
No caso, com a recuperação eleitoral de Lula, vejo a direita (sim, os tucanos são direitistas e golpistas, sim!) disposta a partir pro tudo ou nada e, como no caso de Jango, não pelos erros (enormes, diga-se de passagem) cometidos pelo PT e por Lula mas, sim, pelos seus pouquíssimos e raquíticos acertos.
Quem se lembra das campanhas, capitaneadas por Lacerda, contra Vargas, Juscelino e Jango não pode deixar de notar que a história se repete, como farsa, tal qual em Luiz Bonaparte, e registrar a extranha coincidência na campanha pela desqualificação ética e política de Lula.
Quando vejo, egressos da ditadura, gente que pulou do barco quando o mesmo fazia água, fazendo catilinárias contra "o autoritarismo do PT", gente que apesar da sua riqueza antiga, "enricou" ainda mais na "privataria" tucana, falando em ética e, principalmente, gente que sempre inchou os quadros públicos com os seus apaniguados e coligados políticos, falando em "choque de gestão", eu temo e tremo, pensando que os meus netos irão passar pelos mesmos fantasmas que eu enfrentei nas décadas de 50 a 80.

sexta-feira, 31 de março de 2006 22:56:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon:
Excelente o texto. Só não consigo entender, sinceramente, essa mania de que PT e PSDB são irmãos. PSDB e PFL, sim, são irmãos, como ficou claríssimo, hoje, nesse episódio de transferência de poder sem voto. Mas o texto está sensacional, uma forma totalmente diferente, e de alto nível, de abordar a política no Brasil.

sexta-feira, 31 de março de 2006 23:27:00 BRT  
Anonymous Johnny Bloom (em Miami) disse...

Sabem por que esse taxto está muito bom? Porque ele destoa da cantilena da grande imprensa. Os veículos de comunicação querem nos fazer crer que os políticos são todos uns safados, ladrões e canalhas. O noticiário político é a cobertura da safadeza, do roubo e da canalhice. Você nunca vê uma matéria interessante sobre algo que esteja sendo votado no Congresso, ou algum tipo de cobertura programática. Isso acontece por uma razão óbvia: se os políticos são um lixo, quem deve mandar no país é a imprensa. Sacaram? É uma luta pelo poder, e só. Mas o povo já começou a perceber isso. O que os jornais ainda não entenderam é que eles não mandam mais na opinião pública, porque a sociedade adquiriu outras formas de dialogar consigo mesma. Uma forma são os blogs como este do Allon. Aposto que o fenômeno vai explodir na eleição.

sábado, 1 de abril de 2006 00:24:00 BRT  
Anonymous Richard Lins disse...

Oi denovo Alon, como falei, o Exército Brasileiro não está no mesmo patamar das Forças Espanhoças exatamente por isto: Deram o golpe no passado e se redimiram na sucessão de Franco. Como vc mesmo citou, nosso exército já foi escravagista, mas virou abolicionista na República... coisa que a Marinha demorou um pouco mais à aceitar, certo?!

segunda-feira, 3 de abril de 2006 12:22:00 BRT  
Anonymous Helio Bacha disse...

A pergunta que cabe não é se o "exército sempre foi progressista", mesmo porque vá lá saber o que isso significa. A questão é: se foi DEMOCRÁTICO ou GOLPISTA - com discurso à esquerda ou à direita.
Senhores, estou profundamento convencido que fora da democracia não há progresso. Só a democracia é progressista.

quinta-feira, 10 de julho de 2008 19:11:00 BRT  

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