quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Um comentário sobre as colunas de Cony (15/02)

Não resisto a comentar duas colunas de Carlos Heitor Cony, na Folha de S.Paulo, sobre a polêmica desencadeada pelas charges do profeta Muhammad.

Em 7 de fevereiro, ele escreveu, sob o título "Liberdade de expressão":

"Muhammad, para os muçulmanos, é mais do que um profeta, é um pai. O cristianismo diferenciou-se do judaísmo por substituir Javé (ou Adonai) pelo Pai Nosso. Deus (que os ortodoxos judeus grafam D"us em sinal de respeito) foi substituído pela função e figura de um pai. A liberdade de expressão dá direito de ofender ou ridicularizar o pai ou a mãe de quem quer que seja? A defesa histérica e incondicional da liberdade de expressão é, no fundo, a expressão de um corporativismo da mídia, que, em alguns casos, mascara a truculência e, em outros, a burrice."

Hoje ele voltou ao assunto em "Ainda a liberdade de expressão" (peço antecipadamente desculpas a quem freqüenta este blog):

"Suponhamos que apareçam duas charges, não importa em que veículo da mídia (imprensa, rádio, TV ou internet). Na primeira, a jovem judia (Anne Frank) está de costas, ajoelhada, fazendo sexo oral em Hitler, que uiva de prazer. Eu não riria desta charge, como não achei graça na charge de Maomé com a bomba de terrorista na cabeça. Acredito que o Estado de Israel teria aquilo que o direito internacional chama de "casus belli" -um caso para qualquer país ir à guerra contra outro. Inclusive com direito a usar bomba atômica. Mudando de cenário e personagens, na segunda charge, o papa gloriosamente reinante estaria de cócoras, paramentado, sendo sodomizado por George W. Bush com uniforme do Exército que está ocupando o Iraque. Ou com o macacão de operário no ramo do petróleo ao qual pertence a sua família."

Sobre a pergunta de Cony de 7 de fevereiro, a resposta é sim. Sim, a liberdade de expressão "dá direito de ofender ou ridicularizar o pai ou a mãe de quem quer que seja". Quem se sentir ofendido, que recorra à Justiça, que peça ao país o rompimento de relações diplomáticas com o outro, que faça o que quiser, desde que pacificamente. A resposta a essa pergunta de Cony tem que ser "sim", porque o "não" obrigaria a fazer uma segunda indagação: "E quem, então, vai decidir o que pode ou não ser dito ou publicado?". Aposto que Cony não conseguirá uma resposta razoável para isso, porque até hoje ninguém conseguiu.

Sobre a coluna de hoje, e à parte os aspectos freudianos, há um ponto que Cony omite. O chamamento ao terror muçulmano muitas vezes parte de membros da hierarquia islâmica, e é apresentado como virtude de inspiração religiosa. Muhammad não tem nada a ver com isso, mas seus intérpretes entre nós dizem que explodir civis desarmados, inclusive crianças, pode ser uma coisa boa para quem deseja servir a Deus. Nunca soube de um rabino ou padre que pregassem o sexo oral com nazistas ou o sexo anal com o papa como caminhos para a salvação da alma.

Isso não significa que quem deseje publicar aberrações assim deva ser impedido de fazê-lo. Vale também aqui a resposta à primeira pergunta de Cony. Mas o paralelo que ele tenta construir hoje não tem, definitivamente, nem pé nem cabeça. É desespero de quem perdeu as razões, ainda que mais pareça ter perdido a razão.

1 Comentários:

Anonymous Angelo da CIA disse...

Tem toda razão Alon. Hoje é o primeiro dia em que visito seu blog e logo de cara já fico satisfeito com sua análise sobre a "viajada" de Cony. Quando li ontem a coluna de Cony, fiquei horrorizado, revoltado. E olhe que não sou judeu nem católico. Mas, sorte dele mesmo é que, ainda qeu fosse um desses, não teria o ímpeto terrorista que muito líder muçulmano incentiva em seus seguidores

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006 07:53:00 BRST  

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