quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

Opinião: O Itamaraty precisa dizer a que veio (01/02)

Nota anterior trouxe informações sobre o apoio de Hugo Chávez ao Irã na disputa de Teerã com as grandes potências e as Nações Unidas em torno do programa nuclear iraniano. Algumas reflexões, cruas, sobre nossa geopolítica regional:

1. A democracia foi esmagada na maior parte da América do Sul em diversos períodos da segunda metade do século 20. E não apenas porque o ambiente de liberdades, mesmo limitadas, propiciava a ascensão de forças políticas populares e de esquerda. Mas também porque a chegada dessas correntes ao poder adquiria um significado global de ameaça à segurança dos Estados Unidos. Trocando em miúdos, Washington não aceitava a hipótese de que a outra superpotência, a União Soviética, semeasse aliados no quintal americano. Para se manterem no poder, as forças políticas dominantes na América do Sul souberam explorar bem esse aspecto da política externa dos vizinhos do norte.

2. Hoje, a democracia avança na América do Sul. Os partidos populares, nacionalistas e de esquerda chegaram ao governo em quase todos os países da região. Claro que a força principal a impulsioná-los é o desejo de mudança de maiorias que nunca antes se sentiram plenamente representadas no processo político. Mas esse avanço se dá, também, porque os Estados Unidos adotaram a expansão da liberdade e da democracia como projeto nacional estratégico após os atentados contra as torres gêmeas em 11 de setembro de 2001. O raciocínio de Washington é conhecido. A premissa é que democracias não iniciam guerras nem usam o terror como arma. Trocando em miúdos -e para espanto e horror de alguns- a Doutrina Bush é parte do enredo cujos atores principais têm sido entre nós gente como Lula, Tabaré Vázquez, Michelle Bachelet e Evo Morales. As boas (ótimas) relações de Lula com Bush não são casuais.

3. Os Estados Unidos querem uma América do Sul em que vigorem a democracia e a economia de mercado. E que, principalmente, esteja livre de armas de destruição em massa. Nucleares, químicas ou biológicas. Mantido esse figurino, aceitarão com naturalidade a alternância no poder entre a esquerda e a direita, o liberalismo e a social-democracia, o nacionalismo e o globalismo. Mas os Estados Unidos não absorverão pacificamente que o subcontinente seja transformado em área potencialmente ameaçadora a sua segurança.

4. Talvez Hugo Chávez esteja pensando em repetir, a seu modo, o Fidel Castro que tentou instalar mísseis soviéticos em Cuba nos primeiros anos após a revolução, como escudo de defesa contra um possível ataque. Será que esse caminho interessa ao Brasil? Com a palavra o Itamaraty. Temos uma das melhores linhagens de diplomatas de todo o mundo. Mesmo sem ter freqüentado, tenho certeza de que uma das primeiras lições no Instituto Rio Branco é que o interesse do país não se defende com bravatas. Chegou a hora de a nossa diplomacia, que tanto se ufana de seu protagonismo, mostrar a que veio.

5 Comentários:

Anonymous Solano Nascimento disse...

Eu só não entendi uma coisa: os Estados Unidos têm financiado nos últimos anos a oposição -com tentativas de golpe- a Chávez, que teve seu mandado democrático reiterado por trocentos plebiscitos. Não faz sentido dizer que os Estados Unidos apóiam todos os movimentos democráticos. Eles apóiam os que não os incomodam, como o de Lula. Acho um equívoco ver as reiteradas vitórias de Chávez e a chegada ao poder dos cocaleiros na Bolívia como uma concessão dos Estados Unidos. É uma visão excessivamente paternalista da história recente da América do Sul. Eu diria que, pelo contrário, talvez essas vitórias só tenham ocorrido por causa da oposição que Bush faz a elas. Acho que vou lançar um blog de esquerda para me opor ao teu.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006 15:51:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Acho que você é um doido. Que besteira esta de os EUA fomentar a democracia?! Pirou, é?

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006 17:29:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Algumas vezes, a realidade é mais complexa que os esquemas mentais adotados para explicá-la. Uma parte da esquerda brasileira "pirou" quando Jimmy Carter pressionou o governo brasileiro (Geisel) a respeitar os direitos humanos nos anos 70. Alguns acharam até que a esquerda deveria ficar contra o presidente dos Estados Unidos, por patriotismo. De todo modo, obrigado pelo comentário.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006 18:53:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

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sexta-feira, 26 de setembro de 2008 22:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Chávez tem uma certa razão, tiramndo o fato de ele ser doido, acho que o Brasil tem é que se armar, um País só é soberano quando se tem força, queria ver a Bolivia e o Equador fazer o que faz com o Brasil se fosse os EUA.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008 22:52:00 BRT  

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