domingo, 12 de fevereiro de 2006

O "spinning" de Lula está forte, mas lembremo-nos de Marta (12/02)

Aqui e ali, lemos e ouvimos que Lula caminha para se tornar imbatível em outubro. Jornalismo é assim mesmo, é um dia depois do outro. Há menos de dois meses, o diagnóstico era o inverso. Lula seria inevitavelmente derrotado por qualquer tucano. Acho que o PSDB chegou a acreditar nisso. Subiu no salto alto, mergulhou numa disputa interna tresloucada e agora está mais perdido, desculpem-me os amigos tucanos, do que cachorro que caiu do caminhão da mudança.

Vale dar uma olhada na definição de spinning na Wikipedia. É um termo usualmente pejorativo, significando uma descrição fortemente enviesada de um evento ou situação, em benefício próprio. O spinning é parte da rotina diária dos políticos. Está cada vez mais profissionalizado. E não adianta reclamar. É preciso saber mergulhar no conteúdo dos argumentos e tentar demoli-los, mesmo que o resultado final seja se render.

A tese do Lula invencível em outubro sustenta-se num tripé. 1) Os bons números na economia. 2) O apoio entre os mais pobres (clique aqui para ler na última Veja, ainda que a definição de "pobre" da reportagem seja quem recebe até R$ 1.500 por mês; o pessoal da revista deve estar ganhando bem). 3) A comparação com o governo de Fernando Henrique Cardoso.

Esses argumentos podem ser analisados também à luz da experiência recente.

Em setembro/outubro de 2004, a avaliação de Lula era muito boa. A pesquisa CNT-Sensus dava-lhe quase 60% de aprovação. A economia vinha, como se diz, bombando. Chegaria ao final do ano com 5% de crescimento do PIB. Em São Paulo, a avaliação da prefeita Marta Suplicy experimentava uma subida consistente. Naquele outubro, em plena disputa do segundo turno contra José Serra, Marta tinha no Datafolha 48% de ótimo+bom contra 17% de ruim+péssimo. E Marta era a campeã dos mais pobres, com a tríade CEUs, bilhete único e programas sociais de complementação de renda.

Marta ganhou a eleição? Não, perdeu. E o PT perdeu o segundo turno na maior parte dos outros lugares decisivos em que disputou, como Porto Alegre e Curitiba. Porque subestimou a necessidade de alianças e porque o eleitorado decidiu que deveria mudar para melhor, ainda que a situação não estivesse ruim. Foi esse o discurso de Serra em São Paulo e o de José Fogaça em Porto Alegre.

Lula sabe de tudo isso. Enquanto os tucanos estão mergulhados na crise existencial, o presidente corre atrás de alianças. E o spinning palaciano martela nos ouvidos do país que não vale a pena trocar o certo pelo duvidoso, o governo Lula pela "volta ao governo FHC".

Se vai funcionar é outra conversa. Nunca deixo de me impressionar com a incompetência dos tucanos quando se trata de defender o governo FHC. As duas principais acusações do PT contra Fernando Henrique eram (são) a ortodoxia econômica e as privatizações. O governo Lula colhe bons resultados na economia basicamente porque ampliou e tornou estrutural o ajuste fiscal herdado do governo anterior. Aliás, bem no comecinho do governo a Fazenda disse que iria fazer isso mesmo. Está no documento Política Econômica e Reformas Estruturais, de abril de 2003. Quanto às privatizações, o PT não reestatizou nenhuma empresa vendida no governo anterior. Se foram operações lesivas ao interesse nacional, o novo governo teria a obrigação de revê-las.

Mas, mesmo que o PSDB não consiga melhorar a avaliação que o povo tem de FHC, é preciso saber se vai colar o argumento petista de que votar num tucano seria promover a "volta ao passado". Esse tipo de catastrofismo não costuma emplacar. Vide 2002 e o slogan "Serra ou o caos". Eleições são apostas sobre o futuro. Lula já mostrou ao país que pode fazer um bom governo. Mas não está protegido contra o "efeito Marta", encontrar pela frente alguém que convença o eleitor de que pode fazer um governo ainda melhor.

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3 Comentários:

Anonymous Antonio disse...

Só um detalhe sobre a Marta: como paulistano eu digo para você que a Marta perdeu a Prefeitura por um único (com varias nuances) motivo, PRECONCEITO! E foram vários tipos de preconceitos, que a mídia paulistana em alguns deles enalteceram contra a Marta! Lula não sofre este preconceito, a não ser aquela já surrada e gasta! Esta é uma grande diferença. E ainda tem mais: a mídia não afeta mais (muito pouco) a pessoa do Lula, perdeu totalmente a credibilidade perante a população. A Veja que o diga. Lula pode ser sim imbatível, se o PMDB apóia-lo um abraço. PT saudações.....
Poxâ já são quatro da matina! Abraços...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006 03:51:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Ainda torço para que até outubro o povo acorde e ponha para fora de Brasília toda essa camarilha petista.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006 10:23:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Marta perdeu em SP por INCOMPETÊNCIA, roubalheira generalizada e pelo uso eleitoral da máquina administrativa no final do governo dela (São Paulo conhece bem esse tipo de política), além dos projetos ridículos, tipo CEU Saúde. Se houvesse preconceito contra Marta, Erundina não teria sido eleita, nem Celso Pitta (negro e carioca).
Um dia o PT vai se tocar que o PT não é necessariamente "o bem" e o resto da humanidade "o mal".

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006 11:56:00 BRST  

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