terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

O Estadão e os bancos (28/02)

O Estado de S.Paulo trouxe durante o Carnaval um editorial com o título Bolsa-Banco. Naturalmente, tratava do escândalo dos megalucros dos bancos, que já foi objeto de nota neste blog. É sempre um prazer ler os editoriais bem escritos do Estadão, mas dessa vez os colegas escorregaram na lógica.
Num certo momento, como era previsível, o jornal aponta a dívida pública como a grande vilã desse seqüestro de riqueza. Diz o editorial que "o recorde de enriquecimento das instituições financeiras sob a gestão pública de seus maiores detratores é a prova definitiva de que ele não resulta da ganância doentia dos banqueiros, vilões da indignação populista. É o resultado natural de um sistema perverso mantido pelo Estado estróina para garantir sua capacidade de se financiar, absorvendo os recursos produzidos pela sociedade, apoderando-se da parte do leão e lhe jogando as migalhas de banquetes em que os banqueiros são convidados de honra da 'companheirada'."
Errado. Dois pontos colocam em xeque a tese "estatófoba" do jornal. Primeiro, os diversos bancos tiveram taxas bem diferentes de crescimento do lucro. Segundo, o lucro dos bancos cresceu bem mais do que a taxa de juros ou a dívida pública. Minha hipótese é que a altíssima lucratividade dos bancos decorre principalmente de "spreads" e tarifas escorchantes, decorrentes do oligopólio do crédito no Brasil. De todo modo, segue o debate.
O editorial do Estadão nem resvala na questão do oligopólio. Esse é o liberalismo brasileiro. Em vez de usar sua independência editorial para defender a democratização do sistema financeiro, o jornal prefere dar cascudos na esquerda. Fala da "execrada especulação financeira, monstro preferencial a ser imolado na fogueira socialista". Ora, essa discussão nada tem a ver com o socialismo. É uma polêmica sobre o capitalismo, colegas.

Adendo postado em 01/03 às 8h10: Transcrevo um trecho da coluna de 01/03 de Elio Gaspari n'O Globo e na Folha de S.Paulo. "(...)[os bancos] Preferem também que o secretário do Tesouro, doutor Joaquim Levy, pare de falar em abrir uma licitação para a prestação dos serviços bancários à rede do INSS. Hoje a Viúva paga aos bancos para que atendam à turma da Previdência. Levy achou que o negócio é tão bom que, se ele abrir uma licitação, haverá bancos querendo pagar para fazer negócios com aposentados. (...)."

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Leia também:

O antiliberalismo é de esquerda? (17/02)

1 Comentários:

Anonymous Artur disse...

Ab initio, parabéns. O dedo foi ferino à ferida: nada mais "estatista" que um capitalista brasileiro com acesso ao erário. No dia que em que a "profecia" de Covas se realizar - e este país passar por "um choque de capitalismo" - assistiremos passeatas de empresários em defesa do "Estado ameaçado".
Quanto ao tema que lhe é tão caro: o remédio seria rooseveltiano, um Glass-Steagal Act à brasileira? Afinal, a tal da concorrência e do livre-mercado - inclusive com abertura plena para os bancos estrangeiros - tem dado no que vc relata...

Abs

quarta-feira, 1 de março de 2006 09:03:00 BRT  

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