sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

O antiliberalismo é de esquerda? (17/02)

A Folha de S.Paulo trouxe quarta-feira (15) reportagem em que um grupo de intelectuais e jornalistas supostamente de direita foi dissecado e classificado por um punhado de analistas supostamente de esquerda. Da degustação desse menu taxonômico, algo não me caiu bem. Nunca entendi completamente por que o liberalismo entre nós é classificado na coluna da direita e nos Estados Unidos "liberal" é um xingamento dirigido à esquerda.

Desconfio que deve ter a mesma raiz de outra diferença nas palavras. Enquanto aqui empresa pública é sinônimo de estatal, lá significa uma companhia cujas ações são negociadas com o público, na Bolsa. Cada um que interprete como quiser.

A reportagem procura no golpe militar de 1964 as raízes dessa alocação dos liberais na fila da direita. Tenho dúvidas. Naquele período, houve liberais e liberais. Paulo Brossard era um de carteirinha e foi símbolo da resistência à ditadura. Como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, sem falar em Teotônio Vilela. É verdade que alguns pagaram caro por ficarem identificados com o movimento que derrubou João Goulart. Mas uma parte significativa deles acabou, com o tempo, entrando na quota dos perseguidos pelo regime.

A conexão intelectual e política entre "progressismo" e antiliberalismo entre nós remonta, pelo menos, aos desdobramentos da Revolução de 30. O combustível do movimento tinha sido a pressão por eleições limpas (bem liberal, não é?). Na seqüência, os tenentes se dividiram e o país viveu anos de conflitos, até que, em 1935, os comunistas deram a Getúlio Vargas o pretexto para cancelar as eleições e decretar, em 1937, o Estado Novo. Que foi antiliberal, filofascista e, portanto, de direita.

Acho que o liberalismo brasileiro começou a morrer naquela época, num acordo tácito entre a esquerda e a direita geradas no útero do tenentismo. Depois vieram os equívocos da UDN, que passou a vida conspirando contra resultados eleitorais e imaginou ter chegado ao poder quando ajudou a derubar Jango. Apenas para descobrir, no AI-5, que mais um de seus planos, o definitivo, tinha falhado.

O debate sobre aliar-se ou não aos liberais contra a ditadura consumiu boa parte das energias intelectuais da esquerda nos anos 70. Nasceu ali a divisão que hoje se expressa na polaridade entre o PT e o PSDB. Na época, a dúvida era sobre participar do então Movimento Democrático Brasileiro (que o esquerdismo chamava de "oposição consentida") ou pregar o voto nulo. Com o tempo, quase todas as correntes socialistas não trotsquistas entraram no MDB. Na brecha das liberdades conquistadas pelo MDB vieram Lula, o PT e uma história que já é bastante conhecida.

Essa polêmica nunca ficou bem resolvida. Os galanteios que Lula faz hoje ao PMDB são unicamente tática eleitoral, sem falar que o partido é só um retrato meio desbotado dos escombros do MDB. O pacto proposto pelo PT aos peemedebistas envolve repartição de pedaços do orçamento, não projetos. Prefiro o Partido Socialista chileno, que entendeu a importância de uma aliança estratégica com o centro liberal, representado pela Democracia Cristã. Talvez porque antes tenha sofrido o que sofreu nas mãos de Augusto Pinochet. Acho que nunca mais vão cometer os erros do presidente socialista Salvador Allende.

Quando releio as linhas acima, tenho a sensação de que escrevi sobre a pré-história. Nos últimos anos, temos vivido enrolados nessa mixórdia de multiculturalismo e regressismo anticapitalista que tentam nos impor como o "novo" pensamento "progressista". Vladimir Lênin fundou o socialismo revolucionário russo em oposição ao anarquismo e ao terrorismo. Ao olhar hoje para os que se dizem seus herdeiros, ele deve estar revirando lá no mausoléu da Praça Vermelha, em Moscou. Na foto acima, o produto de um bom momento nas relações entre a esquerda e os liberais: o desfile da vitória sobre o nazifascismo (Moscou, Praça Vermelha, 24 de junho de 1945).

Abaixo, links para ler a reportagem da Folha (para assinantes do jornal ou do UOL) e um texto crítico do Primeira Leitura.

1) Folha de S.Paulo (15.02.2006)

Direita, volver!

Regime militar ainda é um estigma
Direita, volver!: "O povo brasileiro é maciçamente de direita"
A esquerda prepondera, diz Rosenfield
Frases

2) Primeira Leitura (15.02.2006)

Eu, um direitista

4 Comentários:

Anonymous Leonardo Valles Bento disse...

Acho que diferença se explica pelo fato de que, entre nós, como na Europa continental, a polarização política se dá entre Liberais e Socialistas (ou social-democratas), enquanto nos EUA e no Reino Unido a polarização se dá entre Liberais e Conservadores (como no século XIX). Por isso, no primeiro caso os Liberais estão na direita, identificados com a redução do estado, com as privatizações, não intervenção econômica e livre-mercado. No segundo caso, os Liberais (chamados liberais igualitários) são de esquerda porque defendem medidas anti-conservadoras como legalização do aborto, casamento gay, cotas para negros nas universidades, além de políticas de distribuição de renda.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006 13:30:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

É verdade, mas isso ainda não explica por que o igualitarismo anticapitalista não tem expressão política nos Estados Unidos.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006 13:35:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Talvez o problema seja pensar em termos dicotômicos. E essa taxonomia todo tem qual alcance na realidade latino-americana? Posso concordar com toda crítica ao multiculturalismo (ainda mais no que e tornou nas universidades americanas), mas não sei se ajuda muito falar em miscigenação ou integração (que pro aqui é apenas uma palavra mais suave para etnocídio).

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006 16:10:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Matou a pau Alon!!! Tudo que os petistas não gostam é 'de direita'. Já vi tudo. Na eleição vai ser um papo de 'vamos votar no Lula para impedir a volta da direita'.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006 00:17:00 BRT  

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