quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Muito tempo. E muito barato (23/02)

Internautas que passam por aqui mandam emails pedindo minha opinião sobre blogs, internet, ampliação do universo de usuários da rede e assuntos correlatos. Decidi então reproduzir aqui texto publicado no anuário da Faculdade Cásper Líbero, edição de 2000. É mais ou menos o que penso.

"Muito tempo. E muito barato.

Alon Feuerwerker

Qual é a base das ilusões despertadas pela Internet?

Digitalização + computação distribuída + disseminação das telecomunicações + transporte em pacotes de informação digitalizada. Estamos no mundo novo. Nova economia, novas tecnologias. Novo trabalho. Novo ensino, à distância. A palavra-chave é distância.

O fundamento das miragens e sonhos desencadeados pela internet está na suposição de que um dia tudo poderá ser feito de longe. Tudo poderá ser transformado em zeros e uns. Tudo poderá ser quebrado em pequenos pacotes e enviado a qualquer lugar. Tudo poderá ser feito em servidores, os depósitos de documentos e programas que atendem aos pedidos dos clientes. Se tudo se faz à distância, então o homem pode estar simultaneamente em todo lugar. Onipresença. As palavras são boa fonte sobre a essência dos fenômenos. Navegador. Quem navega? Os arquivos navegam, são os objetos que vão de um lado a outro, não as pessoas. Mas isso está encoberto. Ao fazer os arquivos navegarem, o homem tem a percepção de ele próprio “navegar”.

Cinco séculos atrás, o novo (mundo) também era uma idéia associada à navegação. Só que agora o ser humano não precisa migrar, faz as coisas migrarem por ele, ainda que o símbolo mais famoso de um software “navegador” tenha sido o leme da Netscape. A sensação de onipresença reduz o tempo gasto perceptível a zero. Tempo zero para qualquer tarefa pode ser livremente traduzido como onipotência, já que processos instantâneos costumam liberar energia, e não o contrário. A ilusão da onipotência embriaga. O poder confunde, engana. Áulicos ocupam o lugar da realidade e você passa a acreditar que pode se descolar dela. Ou que você é ela. Ou a substituição do analógico pelo digital.

Uma revolução precisa radicalizar, se quiser merecer esse nome. Em toda ruptura há um momento no qual se supõe ser possível substituir toda a realidade. Depois, os vetores da mudança dobram-se à inércia. Sorte terá a revolução que conseguir inocular no genoma social alguns trechos de código cultural completamente novo.

O que vai sobrar da atual revolução?

Já há indícios, pelo menos, do que não vai sobrar. Você nada faz pela internet que já não fizesse antes. Antes do transporte digital você lia jornais e revistas, enviava e recebia correspondência, encontrava pessoas para conversar, divertia-se com produtos culturais. Afinal, para que você usa a internet? Para fazer essas mesmas coisas.

Com a internet, temos a “percepção do novo mesmo nas coisas mais antigas. Há uma tendência a confundir aspectos qualitativos com quantitativos, novidade com rapidez. Sem o balão ou o avião, o homem simplesmente não voaria. Sem a internet, o homem continuaria a poder escrever cartas, ler jornais, ir ao cinema ou ao teatro, encontrar-se com outras pessoas para conversar. Faça você mesmo o teste e tente descobrir algo inteiramente novo que você faz com a internet, e quem sem ela não poderia fazer. Não encontrará.

Aceite o fato de que o futuro tem mais chances de se parecer com Blade Runner do que com Os Jetsons. E descubra a única coisa que mudou. Pois essa mudança é central. É decisiva. Há um único produto novo disponível na internet. Melhor, há um único produto disponível na internet. Melhor ainda, a novidade está nas quantidades disponíveis desse produto, que não é tão novo assim.

Acima, dissemos que tempo zero é uma miragem. A abundância do tempo é ilusória, ele permanece escasso. A novidade é que a rede permite chegarmos ao limite da exploração das reservas disponíveis de tempo. E, conforme as regras de mercado, o preço do tempo cai. Quais serão, para a sociedade, os efeitos mais permanentes da queda vertiginosa de preço do tempo?

Esses efeitos podem ser mais bem medidos se olharmos para a economia. Não a economia técnica, das coisas. A economia das pessoas. A “anatomia da sociedade civil”. Ao tornar disponíveis grandes quantidades de tempo a baixo custo, a internet se transforma em potente ferramenta de inclusão social. Sim, é verdade que as tentativas de “internetizar” (ou “intranetizar”) a vida das empresas têm resultado em certa frustração.

Supõe-se, erradamente, que internet e intranet são conceitos próximos. As palavras são parecidas. A tecnologia é comum. Mas as almas são bem diferentes. Estar aberto ou fechado ao mundo faz toda a diferença. A essência da internet é estar em expansão. O princípio da intranet é não estar. Desconfio que a internet, de aparência caótica e alma distribuída, se preste pouco a processos destinados a organizar hierarquicamente as coisas.

A situação muda quando substituímos os organogramas e planilhas de uma organização formal pela teia que une os pedaços de uma estrutura informal. Como, por exemplo, a sociedade humana, essa versão macroscópica da sopa primordial.

Caótica e distribuída, a vocação da internet é entrelaçar núcleos de informação. A novidade, como afirmamos, é que isso agora pode ser feito a um custo baixo, muito baixo. Esse baixo custo acelera a convergência entre o produtor e o consumidor de informação, sua síntese numa célula única. O resultado primeiro e mais visível dessa síntese é a queda exponencial da influência dos grandes veículos e sistemas de informação na construção das idéias coletivas.

A ideologia dominante numa sociedade é a ideologia da classe dominante. Com a internet, em termos. A “força dos fracos” é sinal dessa relativização. Interligados por e-mail e web, os grupos dominados conseguem afirmar sua identidade e já não podem ser simplesmente esmagados pela força bruta. Vale para os grupos e vale para as pessoas. Do mesmo modo que o computador ligado a uma rede é uma rede ele próprio, um indivíduo em rede é uma rede em si. Eis o sentido da célula de que falei. O menor pedaço em que um organismo vivo pode ser quebrado desde que mantidas as funcionalidades básicas. O trecho essencial de código que permitiria reconstruir todos os códigos. O homem em rede pode reconstruí-la a cada momento.

Quanto menor a distância entre esse pedaço básico, esse código fundamental e o indivíduo, mais perto estaremos da liberdade. Fala-se que a rede estimula o individualismo. Não. Ela estimula a individualidade, ao fazer convergir o produtor e o consumidor da informação em um único pólo. Não saberia dizer quanto tempo vamos levar até a generalização desse cenário, cujos embriões se vêem aqui e ali. Mas sei que no jornalismo do novo tempo, de um mundo em que convergem a produção e o consumo de informação (e que, portanto, pulveriza a distribuição dela) duas palavras serão cada vez mais fundamentais. Técnica e ética.

A interligação da sociedade e a superposição dos conceitos de indivíduo e rede permitem explorar ao máximo a individualidade, mas pedem padrões. Os computadores encontraram o seu padrão no Protocolo TCP/IP, a “língua comum” das redes da rede. O jornalismo precisará encontrar seu protocolo técnico e também seu protocolo ético. O poder democrático exige um exercício mais sutil e inteligível do que o autocrático. Inteligibilidade pede técnica. Todo jornalista sabe que é mais difícil escrever de um jeito que torne a leitura mais fácil. Sutileza pede ética. Todo jornalista sabe que é mais eficaz, ainda que mais trabalhoso, sustentar uma opinião com substantivos e verbos do que com adjetivos e advérbios.

Protocolo técnico e protocolo ético. Estamos mais avançados na busca do primeiro, mas precisaremos de ambos."

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