quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Meu amigo Rui e o Marechal Tito (16/02)

O jornalista Rui Nogueira, de quem gosto desde que trabalhamos juntos na Folha de S.Paulo, critica no site Primeira Leitura texto meu publicado no Correio Braziliense e reproduzido aqui neste blog com o título "O ano das trapalhadas tucanas". Vamos aos argumentos:


Diz o Rui: "a pesquisa Sensus, para além de confirmar a tendência detectada por Ibope e Datafolha, serviu para tirar do armário um bocado de gente que andava entre desnorteada e acabrunhada".

Nesse trecho, ele deve estar se referindo a alguém que não conheço.

Diz o Rui: "Que é isso, Alon?! O sal é para salgar e o doce é para adoçar. Em jornalismo, dá indigestão essa moda de juntar pedaços de melancia no prato do arroz com feijão. Só não é mais indigesto do que transformar, de maneira voraz, as incertezas em certezas. Ou, se preferir, as certezas de ocasião em certezas permanentes".

É verdade. No jornalismo, toda a pressão é para dividir o mundo em "bons" e "maus" e contar uma historinha que se encaixe com facilidade num quebra-cabeças maniqueísta. Claro que sempre de acordo com as necessidades e conveniências da ocasião.

Diz o Rui: "Quem achou Lula agonizante? Os tucanos tolos, quero crer! Tolos, não importa onde eles se aninhem, nunca são mais do que isso".

Em dezembro, as pesquisas mostraram que o PSDB tinha um candidato favorito na corrida presidencial, José Serra. Em vez de engordar esse capital, os tucanos preferiram dilapidá-lo. A tese ouvida em Brasília, e que depois se espalhou pelo país, era que estaria na hora de Serra se recolher e Alckmin tentar viabilizar a candidatura. Para que o PSDB, além de conquistar a Presidência, mantivesse também a prefeitura de São Paulo. O cenário resultante dessa estratégia está aí à vista de todos e é auto-explicativo.

Diz o Rui: "Não é menos tolice achar e dizer que Lula não comanda um governo desastroso. É só qualificar o desastre, claro! Lula manteve a base de gestão econômica – ajuste fiscal –, herdada dos tucanos, e fez mais o quê? É um desastre completo, sim, em matéria de gestão do Estado. Podemos concordar que tudo podia ter sido muito pior, mas não me diga que o debate eleitoral deve se pautar por essa mediocridade! Ou que essa é a régua dos nossos escritos!".

Quem acha que Lula comanda um governo desastroso deve prová-lo com números. Os únicos disponíveis até agora não autorizam essa conclusão. Proponho um método para resolver a polêmica no terreno da racionalidade. Há uma apresentação no site da Fazenda sobre os dados recentes da economia brasileira (O Brasil virando Onça). Vamos esperar que alguém produza um contra-documento, contestanto as informações que ali estão. Preferências políticas, cada um tem a sua. Mas em governos, como nas empresas, a gestão só pode ser medida objetivamente pelos resultados. Claro que petistas sempre tenderão a achar governos tucanos "um desastre" e os tucanos acharão o mesmo de governos do PT. Mas aí é torcida, não informação. Não penso ser pouca coisa Lula ter mantido, aprofundado e tornado estrutural o ajuste fiscal. Se o país mantiver superávits primários suficientes por um tempo também suficiente, os juros vão cair mais e vamos crescer mais. E o crescimento é o único caminho consistente para promover justiça social. Países que dão certo sustentam-se em 99% de consensos e 1% de dissensos. Se o governo Lula abandonou sua cartilha anterior e contribuiu para aumentar nossa taxa de consenso em torno de algo razoável e essencial, parabéns para ele. Não vejo sentido, como jornalista, em cobrar de Lula e do PT que persistam no erro.


Diz o Rui: "Que mixórdia de debate é esse que estamos a propor à sociedade? Eu proponho que não fique impune o uso do caixa dois, e não posso, nem como jornalista nem como cidadão, achar irrelevante que Lula diga ao país que “nada está provado” sobre mensalão e corrupção das instituições do Estado. FHC a preservar a biografia? Ora, só ele está liberado para dizer o óbvio: o PT, como você bem sabe, montou uma estrutura de assalto ao Estado. Não posa de santo e moralista político, apresenta-se como denunciante credenciado para fazê-lo."

Ao que assistimos hoje em dia? Quando a acusação é contra os inimigos, ela é verdadeira por definição. Quando é contra os amigos, é denuncismo. Escrevi sobre isso em Para os amigos, a lei; para os inimigos o vale-tudo. Estou fora dessa. Prefiro confiar nas instituições. Não subscrevo teorias medievais sobre a necessidade de "punições exemplares" a pessoas contra as quais não há provas. Pagarei o preço que tiver que pagar por essa posição, pois acredito no Estado de Direito. Há pelo menos um quarto de século, estou convencido de que a democracia é um valor universal e que não se deve transigir nesse ponto. Não há Civilização onde não há Justiça. Isso vale para uma delegacia de polícia e para o Congresso Nacional. Sobre Fernando Henrique Cardoso, caro Rui, tenho argumentado a favor do governo dele mais do que o faz a maioria dos tucanos. Veja um trecho que escrevi dias atrás em Estratégias frágeis de petistas e tucanos: "Os petistas sabem que tentam iludir o povo quando falam mal do governo FHC. Tanto sabem que não revogaram uma sequer das políticas do tucano. Em oito anos, a administração do PSDB matou uma inflação de meio século, institucionalizou a responsabilidade fiscal e os programas sociais de apoio à população mais pobre e consolidou a convivência democrática num país de história marcadamente golpista". Quem discordar, que conteste.

Diz o Rui: "Balcanização tucana para escolher o candidato? Ora, quanto apego a exageros verbais para descrever o inexistente."

Inexistente? Fala sério, Rui. Balcanização é isso mesmo, uma guerra fratricida. Pode terminar em fragmentação, como aconteceu com a ex-Iugoslávia, mas também pode resultar no diktat de algum Josip Broz (foto). Se o PSDB tiver juízo, une-se logo em torno de um Marechal Tito.

E completa o Rui: "Qual é, afinal de contas, o erro de avaliação? O governo Lula está reeleito? Está absolvido? Não há mesmo nada provado? É um bom governo? Bem, ainda que os tucanos achassem isso tudo do governo Lula, eu continuaria, como jornalista, a ter milhares de provas de que a gestão federal petista, estando à frente ou atrás nas pesquisas, é um governo desastroso. O que não quer dizer que não possa vir a ser reeleito! A competência ou incompetência dos adversários são variáveis poderosas, muito além da avaliação objetiva que eu faça do governo. O que não posso é torcer e distorcer. Quanta euforia represada!".

É verdade, mesmo um governante desastroso pode se manter no poder se a oposição for suficientemente incompetente. E bons governantes podem não se reeleger se a oposição for suficientemente competente. Não há um parâmetro universal para medir a competência política. O PT foi competente ao atacar durante anos o governo FHC por causa de diretrizes que ele, PT, felizmente manteve quando chegou ao poder. José Serra foi competente ao não bater de frente com a boa administração de Marta Suplicy e virou prefeito de São Paulo. O petista João Paulo foi competente para tirar do poder o bom prefeito do Recife Roberto Magalhães. Que tipo de competência pode prevalecer na eleição de agora, só Deus sabe. Mas isso é problema dos marqueteiros, não meu.

5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Só estando em Brasília para achar que Marta Suplicy fez uma "boa administração". Cometeu crimes ao largar a prefeitura, "inventou" túneis inúteis, jogou na conta da Educação o tal do CEU (que não deveria ser toda paga pela Educação), superfaturou tudo que pode (Leve-Leite por exemplo), criou uma Lei de Anistia que liberou geral na cidade, em troca de uma "graninha" para a prefeitura, criou a Tattolândia, isolou a banda boa do PT (Nabil Bonduki, Odilon Guedes)...
É, "ótima" administração da Marta. Por isso que ela ganhou.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006 14:29:00 BRST  
Anonymous José Carlos disse...

Salve Alon,
1ªLeitura, do mendonça de barros ??? Revista que deve viver no limite da irresponsabilidade,alimentada ($$) pela casa das garças ???
Sei não, prefiro e muito sua (Alon)independência.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006 18:24:00 BRST  
Blogger Fernando disse...

O Primeira Leitura é só torcida. Reduto do neo-conservadorismo, tenta com verbarrogias distorcer os fatos. Tantos os 8 anos de Tucanato como os 4 da saga Lulista serão manchadas por denuncias graves de corrupção, mas quem vai julgar isso é a historia. Aos jornalistas, se isentos, não deveriam ignorar fatos, que mesmo sem que tivessem sidos investigados por uma CPI (enterrada a que custo ??), são verdadeiros, reais e comprovados. Jornalistas de memoria curta e seletiva. Depois querem se comparar ao Jornalismo Americano !!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006 19:04:00 BRST  
Anonymous Marcelo Passos disse...

Excelente resposta, Alon.

Mas, você há de concordar, não deixa de ser interessante ler jornalistas engajados. Eu, pelo menos, me divirto muito, ainda que me informe menos.
Mas, ironias à parte, prefiro a isenção de alguns blogs como o seu.

Abraço,

Marcelo Passos.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006 01:57:00 BRST  
Anonymous Marcus Pessoa disse...

Entendo que você queira responder a alguém que é do seu círculo de relações pessoais. Mas essa gente partidária é muito chata. Basta ver o tom do comment do raivoso aí em cima.

Ao contrário do Marcelo, eu já não me divirto mais. Já me diverti muito antigamente, mas hoje é só dejá-vu.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006 20:34:00 BRST  

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