quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Dois destinos interligados (15/02)

Serra e Alckmin apostam em disputa dura contra Lula e sabem que precisam estar unidos em São Paulo para que um deles possa pensar em vencer

Alon Feuerwerker


Correio Braziliense, 16 de fevereiro de 2006 - Os quase 28 milhões de brasileiros que votam em São Paulo são o terreno da batalha final no PSDB para saber quem vai ser o candidato do partido à Presidência da República. Divididos em muitos assuntos, os tucanos coincidem no diagnóstico: uma larga vantagem em São Paulo sobre Luiz Inácio Lula da Silva será vital para as ambições do partido na corrida pelo Palácio do Planalto. O prefeito paulistano, José Serra, sabe que não pode sair do cargo e entrar na campanha sem o apoio firme do principal líder político do estado, o governador Geraldo Alckmin. Já Alckmin trabalha duro para mostrar à cúpula e às bases partidárias que é ele, e não Serra, quem pode abrir em São Paulo uma vantagem decisiva e, portanto, derrotar Lula.

Ao longo desta semana, o Correio esteve separadamente com o governador e o prefeito, por cerca de uma hora cada, e com outros líderes do PSDB. Naturalmente, todos acham que o segundo turno será disputado entre Lula e um tucano. Dessas conversas, é possível concluir que o partido trabalha com o cenário de uma corrida cabeça a cabeça até o final. Admitem que dificilmente conseguirão reverter por completo a vantagem de Lula no Nordeste, mas acreditam que ela será compensada no Sul. No resto do país, fora São Paulo, o cenário que desenham é de equilíbrio.

Dão como exemplo Minas Gerais, onde Lula teve dois terços dos votos em 2002 e hoje a situação é de empate, segundo as pesquisas. A imagem que usam é o Fla-Flu, de torcidas organizadas e polarização. Pensam que se conseguirem manter a diferença que têm hoje para Lula no eleitorado paulista, cerca de 20 pontos percentuais pelos levantamentos internos, poderão abrir algo como 5 milhões de votos e vencer a eleição. É uma massa de gente de dimensões semelhantes à que deu a George Bush a vitória contra John Kerry em 2004 nas eleições presidenciais dos Estados Unidos.

A equação paulista do PSDB se complica ainda mais pelo partido não ter, até agora, um candidato forte ao Palácio dos Bandeirantes. O cenário dos sonhos de José Serra é Geraldo Alckmin ficar no cargo até o final para tentar eleger o sucessor e desempenhar um papel decisivo na vitória dele, Serra. O cenário preferido de Geraldo Alckmin é José Serra ficar na Prefeitura, ser o comandante da campanha para manter o estado em mãos tucanas e garantir os votos necessários para colocá-lo, Alckmin, no Palácio do Planalto. Em comum, os dois nem pensam na hipótese de o partido deixar escapar a cadeira que um dia foi de Franco Montoro e Mário Covas.

Serra está preparado para dizer “sim” a um convite da cúpula partidária, mas quer ter a certeza de que vai contar com um Alckmin absolutamente engajado na campanha, como aconteceu na eleição que o levou à Prefeitura. Já os movimentos do governador indicam que ele fará o possível para não receber dos caciques tucanos uma intimação para apoiar a indicação de Serra. Um de seus principais argumentos, que as bases do partido o preferem, sofreu um baque ontem com a escolha do serrista Jutahy Magalhães (BA) para liderar a bancada na Câmara.

Num aspecto, pelo menos, a situação de Alckmin melhorou nos últimos dias, especialmente depois da pesquisa CNT-Sensus: já não há mais no PSDB a convicção de que Serra terá uma eleição tranqüila contra Lula e nenhum peessedebista arrisca dizer que o governador não tem chances de ganhar do presidente. Em pelo menos um ponto, Serra ganhou argumentos nas últimas horas: com o crescimento de Lula, não é razoável que os tucanos deixem de lançar o nome mais forte para a disputa.

Falta saber quem vai colocar o guizo no pescoço de um deles, Alckmin ou Serra. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso poderia desempenhar o papel, mas quem o conhece garante que ele fugirá dessa batida de martelo como o diabo foge da cruz, ainda que sua preferência pessoal penda para Serra. Neste momento do PSDB, entretanto, preferências pessoais contam pouco. O decisivo, avaliam os tucanos, é evitar uma divisão do partido que apareça como prenúncio da derrota. Uma candidatura extraída a fórceps nasceria praticamente morta, prevêem.

Há ainda o aspecto da desincompatibilização de Serra. Para concorrer, o prefeito precisaria renunciar ao cargo no começo de abril, dois anos e nove meses antes do fim do mandato. As mesmas pesquisas internas do PSDB mostram que cerca de um terço do eleitorado paulista desaprova essa possibilidade. Mas também revelam que, hoje, essa desaprovação não teria efeitos eleitorais. Ou seja, o eleitor de Serra, mesmo insatisfeito com a decisão, não se transformaria necessariamente num eleitor de Lula.

O problema é que o prefeito assumiu em 2004 o compromisso público de ficar na Prefeitura até 2008. Aliados do governador argumentam que, nessa condição, não haverá como os tucanos cobrarem as promessas não cumpridas de Lula. Dizem ainda que o martelar permanente do tema na campanha certamente produzirá resultados eleitorais, que hoje não aparecem nas pesquisas. Um Alckmin totalmente mobilizado a favor de Serra seria indispensável para neutralizar, ainda que parcialmente, esse potencial prejuízo.

O palpite mais comum no PSDB é que essa parada só será decidida por um dos dois, Serra ou Alckmin, o que piscar primeiro. Hoje, ambos são como irmãos siameses, o destino de um está ligado ao do outro. O prefeito é conhecido pela tenacidade, está convencido de que pode ganhar, mas tem mais a perder: uma eleição e um mandato já conseguido. O governador diz a todos que a política é destino e que a hora é dele, mas sabe que não pode correr o risco de conduzir os tucanos e a si próprio a um naufrágio eleitoral em São Paulo e no Brasil.

2 Comentários:

Anonymous Priscila Shneider disse...

Cara! A Tereza Cruvinel escreveu a mesma coisa hoje! Copiei aqui em baixo.

^^^^^^^^^^

A costura tucana

Desde que foi divulgada a última pesquisa CNT/Sensus corre o boato de que o prefeito José Serra “amarelou”, desistindo da pré-candidatura presidencial. Vai, porém, além das cores e de valentias pessoais o drama dos tucanos. Apesar do crescimento de Lula, Serra continua sendo o tucano mais competitivo. Mas o escolhido, seja ele ou o governador Geraldo Alckmin, começará mal e fadado ao fracasso se não tiver de saída o apoio decidido do outro.

No Estado de São Paulo, que reúne o maior colégio de votos do país, o PSDB precisa e tem chances de levar uma boa vantagem sobre o presidente Lula, que segundo as pesquisas está bastante consolidado no Nordeste e no Norte. O Rio será campo relativamente neutro na disputa PT-PSDB se Garotinho for mesmo candidato pelo PMDB. Em Minas, o segundo maior colégio, o governador Aécio Neves, ao contrário do que sonham alguns petistas, não fará corpo mole. Está disposto a jogar todo o seu prestígio para garantir uma boa votação ao candidato de seu partido. Para se credenciar como candidato em 2010, está somando créditos. Aceitou a escalação dos dois paulistas, vem tendo comportamento irrepreensível e planeja ser um cabo eleitoral valioso, valendo-se da forte liderança em Minas, que chega a afugentar concorrentes ao governo do estado.

Mas em São Paulo, a candidatura de Serra, que já enfrenta a dificuldade da renúncia à prefeitura, sairá manca se um Alckmin amuado deixar o governo e fizer corpo mole. Melhor seria que ficasse até o fim do mandato. Ou que, saindo, disputasse o Senado. Nas duas condições (como governador ou candidato), teria que colocar a serviço de Serra todo o prestígio de que dispõe em São Paulo — tanto popular como junto às elites. O mesmo valeria para Serra se fosse Alckmin o candidato. A costura interna tucana se tornou portanto delicadíssima, tão relevante quanto a escolha do nome certo. Neste momento, com Lula forte, tudo recomenda o nome mais forte, o de Serra, com todas as dificuldades que o cercam. Mas como descartar um Alckmin que continua falando em escolha “mais democrática” sem abrir feridas?

O fato de não ter prosperado a articulação para dar fim ao instituto da reeleição a partir de 2010 ainda piora as coisas: os que estão na fila poderão sempre achar que a vitória do escolhido este ano lhes servirá de barreira em 2010. Também sobre isso deve haver um pacto interno.

Houve ainda, reconhecem agora alguns tucanos, um erro de tempo no processo de escolha do candidato. Seu nome deveria ter sido apresentado ao eleitorado, juntamente com um programa de governo, quando Lula ainda estava em baixa, sofrendo os efeitos do escândalo que abalou seu governo e o PT. Serra era alternativa indiscutível. Mas neste tempo, acreditando que ele já estava morto, os tucanos se dedicaram a espezinhar o PT, a gastar eloqüência nas CPIs e a esquentar o noticiário da crise, ao invés de se apresentarem com alternativa. Deixando o tempo correr, Lula se recuperou, surgiram denúncias de caixa dois contra o PSDB e a disputa interna se acirrou.

sábado, 18 de fevereiro de 2006 02:56:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Esse blog é animaaaal!

sábado, 18 de fevereiro de 2006 10:48:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home