domingo, 26 de fevereiro de 2006

Cúpula tucana escolhe Serra (26/02)

Este blogueiro está de folga no Carnaval. Excepcionalmente, reproduzo aqui reportagem deste jornalista publicada no Correio Braziliense domingo (26).

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Alon Feuerwerker

Publicado no Correio Braziliense, em 26 de fevereiro de 2006 - Depois do carnaval, enfim, o prefeito de São Paulo, José Serra, terá o que estabeleceu como a condição para ser candidato à Presidência da República. Vai receber do presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), a informação de que a consulta promovida entre os deputados, senadores e governadores tucanos chegou por ampla maioria ao nome dele, Serra, como o mais competitivo para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Tasso dirá também a Serra que mesmo os partidários do outro pré-candidato, o governador paulista Geraldo Alckmin, comprometeram-se a trabalhar pela vitória, se o prefeito for o escolhido. O senador também garantirá que o partido dará toda a sustentação a ele ao longo de uma campanha que promete ser duríssima.

Com base nessas premissas, Tasso fará então o “chamamento” que o prefeito tanto pediu, para que assuma a candidatura, comece a costurar as alianças e estanque a sangria que acomete o PSDB desde o começo do ano, quando alckministas e serristas entraram em guerra pela vaga de principal adversário de Lula na corrida presidencial.

Tasso e os outros dois membros do triunvirato tucano, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Aécio Neves (MG), acreditam que a resposta de Serra será “sim”. Já Alckmin tem a convicção de que o prefeito não abrirá mão de dois anos e nove meses de mandato no comando do terceiro cargo mais cobiçado da República para se aventurar numa empreitada de risco total — uma nova derrota para Lula nessas condições poderia representar, para Serra, o fim das esperanças de chegar um dia ao Palácio do Planalto.

Fôlego
De todo modo, os tucanos têm pressa. Acham que podem aproveitar a nova onda de notícias negativas para Lula — as acusações de uso da máquina pelo presidente, as relações duvidosas dele com a Telemar, o baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e os megalucros dos bancos — para retomar uma iniciativa política que perderam desde que a crise do chamado mensalão começou a dar sinais de pouco fôlego, no final de 2005. O PFL observa à distância e concorda. “Teremos uma caminhada difícil pela frente, mas todas as chances de concluí-la bem. Quanto mais cedo nos resolvermos internamente e nos organizarmos, melhor”, diz o líder da minoria na Câmara, José Carlos Aleluia (PFL-BA).

Foi para acelerar esse processo que, silenciosamente, os principais articuladores tucanos entraram em campo na semana pré-carnaval.

Deputados, senadores e governadores foram procurados para saber quem consideravam o melhor nome para enfrentar Lula e que atitude o consultado adotaria caso o escolhido não fosse o da sua preferência. Estiveram na linha de frente dessa operação os líderes no Congresso, deputado Jutahy Magalhães (BA) e senador Arthur Virgílio (AM), e os governadores Aécio Neves e Marconi Perillo (GO), com a participação de FHC nos bastidores. O resultado foi o previsto: deu Serra, apesar do intenso trabalho de Alckmin com as bases do PSDB.

Bom humor
A bola volta agora aos pés do prefeito de São Paulo. Os que convivem com ele relatam que nos últimos dias seu humor tem estado surpreendentemente bom, “como alguém que tivesse tirado um peso das costas”, diz um amigo de Serra. Em seu círculo mais íntimo de conhecidos e colaboradores, o Correio não conseguiu encontrar alguém que apostasse na desistência de Serra da corrida presidencial. “A história não registra a biografia do general que se recusou a cruzar o Rubicão”, diz reservadamente um secretário dele na prefeitura, fazendo referência ao famoso episódio com o romano Júlio César.

Mas os problemas do prefeito não são pequenos no cenário em que ele sai do cargo para entrar na corrida ao Palácio do Planalto. Na campanha de 2004 ele garantiu por mais de uma vez que, caso eleito, permaneceria na prefeitura até o fim. Além disso, a guerra em São Paulo com Alckmin pode prejudicar o desempenho tucano no estado-chave da eleição. Nas contas de especialistas do PT que analisam a situação eleitoral, se Lula perder no segundo turno em São Paulo por menos de 10 pontos de diferença estará eleito. Hoje, as pesquisas dão entre 15 e 20 pontos de vantagem a um tucano contra Lula num segundo turno no estado.

Além disso, o PSDB não tem nome forte para enfrentar Orestes Quércia (PMDB) e Marta Suplicy ou Aloizio Mercadante (PT) na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. E o vice de Serra na prefeitura é do PFL, Gilberto Kassab. Escolher mal agora pode ser ruinoso para os tucanos, especialmente os paulistas. Hoje, o partido tem o governo de São Paulo, a prefeitura da capital e chances reais de ganhar a Presidência da República. O PSDB pode terminar o ano no paraíso. Mas também pode ir ao inferno: pode acabar 2006 fora dessas três posições-chave de poder. Na prática, os tucanos seriam rebaixados a uma espécie de segunda divisão da política, voltariam a ser o partido médio e sem capacidade hegemônica que eram antes de o Plano Real levar FHC à glória em 1994.

1 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Do Blog do Cesar Maia no dia 1 de março, confirmando o que o Alon escreveu:

PSDB NA ENCRUZILHADA !

O PSDB vive uma perigosa encruzilhada. Ao tempo que se afirmou como partido nacional de opinião, não o fez ainda como partido nacional com amplitude espacial e capilaridade. A eleição municipal de 2004 mostrou isso. Excluindo o estado de SP, o PSDB amarga um longínquo quarto lugar.

A eleição de 2002 mostrou os riscos do PSDB se tornar um partido de segundo escalão, quando -com um candidato que foi para o segundo turno, mal superou 60 deputados federais. Como se sabe -e já se escreveu à exaustão - os partido no Brasil, se vertebram no poder. Com o binômio
SP-Ceará e com os riscos de derrota nos dois Estados, é provável que o PSDB mude de turma e vá para o patamar do PL, PTB, PP,...

Por isso é incompreensível que o processo de escolha de seu candidato a presidente, se estenda tanto. Se sua candidatura a presidente fracassar levará de roldão o partido. Não se trata de ganhar ou perder, mas de
fracassar ou não.

Se a candidatura do PSDB a governador em SP já está entrando na faixa de segurança limite -e ninguém desconfia qual dos cinco nomes virá,(dizem que se Alckmin não for candidato indicará o candidato do PSDB como
premio consolação), um fracasso presidencial será uma derrota certa no Estado onde estão concentradas todas as suas fichas e seus quadros nacionais. Esgarçar mais, atrasar mais, a decisão é grave erro, pois coloca em jogo a sobrevivência do partido. Há exemplos de sobra na história
eleitoral recente de tantos paises.

quarta-feira, 1 de março de 2006 12:58:00 BRT  

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