quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Constrangimento à cúpula (23/02)

O governador de São Paulo vai se voltar às bases do PSDB e tentar impedir que FHC, Tasso e Aécio construam um consenso em torno do nome de José Serra como candidato tucano ao Planalto

Alon Feuerwerker (em São Paulo)


Publicado no Correio Braziliense em 23 de fevereiro de 2006 - O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, aposta no ataque às bases do PSDB como estratégia para impedir que o triunvirato dos cardeais do partido costure o consenso em torno do nome do prefeito de São Paulo, José Serra, como o concorrente tucano à vaga de candidato à Presidência da República. Ontem, em Sorocaba (SP), Alckmin defendeu publicamente o trio, ao dizer que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o presidente da legenda, Tasso Jereissati, e o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, “não estão centralizando a decisão, mas ouvindo o partido”. Nos bastidores, porém, Alckmin aumenta a pressão sobre os três, enquanto faz o possível para que a resposta partidária aos cardeais seja o nome dele próprio. Na pior das hipóteses, trabalha para que o equilíbrio de forças dentro da legenda deixe a cúpula de mãos amarradas e a impeça de construir o consenso em torno de Serra.
Depois de jantar na terça-feira com a bancada federal em Brasília, Alckmin agendou para 7 de março uma reunião na Paraíba com os deputados estaduais do Nordeste. O anfitrião, governador Cássio Cunha Lima, é seu cabo eleitoral. Ontem à noite, Alckmin viajou para Washington, onde assina dois convênios no total de US$ 25 milhões com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, para estimular o ecoturismo e a economia. Deixou orientação para que o núcleo operacional de sua pré-campanha continue o trabalho de mapeamento do colégio eleitoral a ser consultado pela cúpula para decisão sobre o nome. Devem ser ouvidos os governadores, as bancadas de deputados e senadores e a direção partidária. Os alckministas querem incluir na consulta lideranças locais “sem mandato, mas com expressão política”, nas palavras do deputado federal Júlio Semeghini (SP). Ou seja, quanto mais gente, melhor.

Decisão coletiva
Antes de viajar, Alckmin insistiu nessa ampliação, ainda que sutilmente. Em Sorocaba, onde foi lançar mais um de seus restaurantes populares e comeu até chuchu, para mais uma vez brincar com o apelido de Picolé de Chuchu, disse que “candidatura majoritária deve ser resultado de decisão coletiva”, além de repetir que “política é conversa, não tem correria”. Reunidos com o governador na terça-feira em almoço no Palácio dos Bandeirantes, FHC, Tasso e Aécio decidiram que o martelo estará batido até 12 de março, um domingo. A pesquisa Datafolha divulgada ontem, que confirmou a tendência do levantamento CNT-Sensus da semana anterior e mostrou vantagem de cinco pontos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre Serra num hipotético segundo turno, aumentou o sentimento de urgência entre os tucanos.

Na prática, o senador Tasso Jereissati (CE) tem menos de três semanas — com o carnaval no meio — para construir um “chamamento partidário” a Serra. O prefeito precisa dessa quase convocação para aliviar o ônus político que terá se decidir deixar o cargo com dois anos e nove meses de mandato a cumprir. Alckmin minimizou os resultados do Datafolha, que apontou uma oscilação negativa de três pontos do governador (20% para 17%). “Ao que estamos assistindo agora é um monólogo”, afirmou. “O presidente Lula está tendo uma grande exposição na mídia, sozinho. Quando a campanha começar, isso muda.”

Os alckministas receberam a pesquisa sem espanto. Consideram que entrar no horário eleitoral com uma intenção de voto no patamar de 20% é bom ponto de partida. Em todos os cenários em que é colocado no Datafolha, Alckmin aparece isolado no segundo lugar. Seus aliados acreditam que, se for ao segundo turno, irá disputar a rodada decisiva com Lula enfraquecido por uma campanha em que o presidente será o alvo de todos os demais candidatos. É isso que Alckmin quer: chegar ao segundo turno como o anti-Lula. Nessa condição, pensa, pode ganhar a eleição atraindo os eleitores que não querem dar mais quatro anos ao petista. Um contingente que Alckmin imagina vá ser a maioria em outubro. “Eu acho muito difícil o PT ter mais um mandato”, disse ele ontem.

1 Comentários:

Blogger Márcio disse...

Nesta quarta-feira, 22/02/2006, deputados alinhados a Alckmin manuseavam no Congresso cópias xerográficas de um termo de compromisso que Serra assinou em 14 de setembro de 2004, em sabatina promovida pela Folha, comprometendo-se a cumprir o seu mandato na prefeitura até o último dia. O simples trânsito do papel (veja cópia abaixo) prenuncia que o entendimento pretendido por Tasso está longe de ser obtido. Enquanto isso, Lula, candidato não-declarado à reeleição, faz campanha.
Veja cópia do original em:
http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/
Texto do compromisso:
( em impresso da Folha de São Paulo )

" São Paulo, 14 de setembro de 2004

Eu, José Serra, comprometo-me a, se eleito prefeito do município de São Paulo no pleito de 2004, cumprir os quatro anos de mandato na íntegra, sem renunciar à prefeitura para me candidatar a nenhum outro cargo eletivo."

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006 20:25:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home