domingo, 1 de janeiro de 2006

Lula ainda vai ter de provar capacidade (01/01)


Especialistas acreditam que o presidente mantém intacta a imagem de honestidade pessoal e a identidade com os pobres, porém é cada vez mais crítica a visão do eleitorado sobre sua competência

Alon Feuerwerker e Luciene Soares

Correio Braziliense, 1 de janeiro de 2006 - A percepção popular sobre os atributos pessoais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é crescentemente crítica. A avaliação sobre suas qualidades está em declínio. Pouco adiantou o presidente ter procurado permanecer à margem da crise política desencadeada pela propina nos Correios, em maio, e pelas acusações de Roberto Jefferson sobre o suposto mensalão, em junho. A honestidade de Lula não chega a ser posta em xeque pelos eleitores. Cada vez mais, porém, eles consideram-no pouco preparado para o cargo.
O Correio teve acesso a uma pesquisa reservada do instituto Ipsos, que faz levantamentos mensais quantitativos e qualitativos para políticos e empresas. O instituto aplica todo mês um extenso questionário a mil eleitores. Na evolução entre o começo e o fim de 2005, uma das poucas qualidades de Lula que permaneceu razoavelmente intocada foi a identificação com os mais pobres. A frase "tem um passado limpo" está em queda, assim como o simbólico "é gente como a gente".
A progressão nos pontos fracos de Lula também é preocupante, para o presidente e aliados. Seus defeitos, reais ou imaginários, passaram a ser menos tolerados pelas pessoas. Entre eles, não "cumprir o que promete", não ter "preparo para o cargo", nem "pulso forte". No período entre o início e o fim de 2005, as principais qualidades do governo também se diluíram. A luta contra a inflação perdeu importância na percepção dos entrevistados, assim como as ações de apoio à população mais pobre. Pior, o eleitorado acredita que o governo combate menos a corrupção do que deveria.
Essas constatações ajudam a explicar por que o presidente da República cai nas pesquisas de intenção de voto para outubro. Os mais recentes levantamentos do Datafolha e do Ibope apontam vantagem do prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), no primeiro e segundo turnos contra Lula. O governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), está em empate técnico com o presidente no segundo turno. O governador tucano de Minas Gerais, Aécio Neves, e o ex-governador do Rio Anthony Garotinho (PMDB) aparecem em posição mais competitiva a cada nova pesquisa.
Os cientistas políticos convergem nas opiniões ao avaliar o quadro. Ou Lula toma medidas imediatamente, ou corre o risco de caminhar para a condenação eleitoral. "O presidente precisa demonstrar mais cooperação com as investigações no Congresso sobre os escândalos e mais agilidade no processo decisório", opina Carlos Pio, professor de ciência política da Universidade de Brasília. Precisa também adotar com urgência alguma linha definida de comunicação.
De acordo com Pio, uma das maiores fragilidades do governo é não fornecer argumentos para quem deseja defendê-lo. Pio acredita ainda que as ações administrativas emergenciais que defende deveriam concentrar-se na área de infra-estrutura, como estradas e energia.
Christopher Garman, diretor do Eurasia Group, consultoria com sede em Nova York, aponta outra característica que mina a confiança em Lula e no governo. "A incapacidade de apresentar alguma coesão e de ter voz única sobre qualquer assunto é exasperante", afirma, referindo-se ao "fogo amigo". "O noticiário sobre o governo, invariavelmente, ou é sobre acusações de irregularidades ou é sobre algum bate-boca entre ministros." Garman diz que é comum o Planalto transmitir a impressão de total descoordenação, de perda de rumo. "A mídia só fala disso e o governo não reage", afirma.
Rogério Schmitt, da consultoria Tendências, também sugere uma chacoalhada nas ações de governo. "O presidente precisa dizer qual é o Lula verdadeiro, o de 2005, ou o de 2003 e 2004", argumenta. Schmitt acredita que o presidente vai deixando consolidar a impressão de que seria um bom chefe de Estado, mas um mau chefe de governo. "Uma rainha da Inglaterra."
Murillo de Aragão, da Arko Advice, também pede ação a Lula. Ele recomenda que o presidente aja de forma pragmática e eficiente. Faz coro aos demais ao aconselhar a supressão do "fogo amigo". E quer que Lula agrupe o governo em torno da política econômica, ainda que considere essa possibilidade pequena.

Cegueira econômica
"O governo não consegue ter um discurso único porque não aceita a sua própria política econômica", atira Aragão. "Por radicalismo ideológico ou cegueira, eles não conseguem se orgulhar do que fizeram." Ele dá como exemplo o risco Brasil, que mergulha para baixo do patamar de 300. "Às vezes dá a impressão de que o PT e o governo não têm idéia do que isso significa, em termos de possibilidade de investimentos, de geração de empregos, de impulso ao desenvolvimento. "
Todos acreditam que as eleições vão girar em torno de três temas centrais: o combate à corrupção e à violência e a geração de empregos. Apontam a comparação com o governo de Fernando Henrique Cardoso como uma vantagem de Lula, pois pensam que quase todos os números lhe serão favoráveis. Mas advertem que a deterioração da confiança na pessoa de Lula pode inviabilizá-lo, mesmo com essa aparente vantagem. Lembram que Serra, Alckmin e Aécio têm boa imagem como administradores. E que mesmo Garotinho pode fazer desse atributo uma arma contra o presidente.

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