quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Análise: Problemão do relator-alfaiate

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 31 de agosto de 2005 - O relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), tem um problemão para montar a relação de cassáveis. Se o critério para entrar na degola for a participação comprovada no esquema Valério-Delúbio, a lista vai ficar bem magrinha e ter principalmente gente do PT.
Se quiser ampliá-la, será necessário classificar caixa 2 como crime suficientemente grave para justificar a perda de mandato. Só que isso terá duas conseqüências: entra gente da oposição e fica aberta a possibilidade de novas denúncias de caixa 2 levarem a novas cassações, pelo "efeito jurisprudência".
Os parlamentares não se sentem confortáveis com essa última possibilidade.
Serraglio tem um comprador de manequim 42 para enfiar num terno 40. Um modelo 46 está na prateleira, mas o risco é quererem engordar o cliente.
Só que o relator é um sujeito de sorte. Seu colega de partido Renan Calheiros chamou uma conversa e decidiu que a responsabilidade ficará dividida entre as duas CPIs.
Vai ser exótico. Veremos a CPI do Mensalão votar uma lista de cassações feita por outra CPI, a dos Correios.
Mais uma prova de que somos únicos na nossa criatividade. O Brasil é o país onde tudo pode acontecer. Inclusive nada.

terça-feira, 30 de agosto de 2005

Mais que um plano B

Ciro Gomes deve disputar eleição presidencial pelo PSB para ajudar Lula num provável segundo turno

Alon Feuerwerker


Correio Braziliense, 29 de agosto de 2005 - Luiz Inácio Lula da Silva pode não ser o único nome da esquerda governista na corrida eleitoral de 2006. Ciro Gomes ainda resiste, mas políticos do PSB e PCdoB ensaiam o movimento para convencer o ministro da Integração Nacional a disputar a Presidência da República. Mesmo que Lula resolva, como parece que vai, tentar a reeleição.
Quem trabalha com a carta Ciro tem argumento simples e direto. A vitória de Lula no primeiro turno tornou-se hipótese remotíssima. Por isso, é preciso projetar imediatamente um sistema de alianças da esquerda para o segundo turno. A preocupação com as alianças tem estado presente nas conversas entre dirigentes socialistas e comunistas nas últimas semanas. Foi também exposta ao presidente Lula pelos presidentes dos dois partidos em conversa reservada no Palácio do Planalto.
Mantidas as atuais candidaturas, o presidente iria isolado para a eventual decisão. A tendência dos demais candidatos seria convergir entre si, ou a neutralidade. A prefeita Marta Suplicy, bem avaliada administrativamente, perdeu a reeleição em 2004 num cenário parecido. Essa comparação assusta os governistas.
Para qualquer lado que se olhe, faltam aliados a Lula. O P-Sol da senadora Heloísa Helena provavelmente ficará neutro em um segundo turno do qual não participe. No cenário José Serra (PSDB) contra Lula, a tendência do PFL e da esquerda não lulista (PPS, PDT e PV) seria migrar para uma aliança com o tucano. O mesmo aconteceria se o nome fosse Geraldo Alckmin ou Aécio Neves.
PTB, PP e PL sairão enfraquecidos da crise. Seu desempenho eleitoral é uma incógnita. Resta o PMDB. Os últimos movimentos da legenda, com a oficialização das prévias que vão escolher o nome peemedebista para 2006, mostram que ganha força a coalizão interna anti-Lula formada pelo ex-governador Anthony Garotinho e por aliados tradicionais do ex-presidente Fernando Henrique . Na última reunião da Executiva Nacional, o próprio Garotinho propôs que o partido desista de expulsar seus membros que ocupam cargos no governo Lula. O gesto foi interpretado como tentativa de conciliação com o oficialismo.
Até os aliados do Planalto, como os senadores José Sarney e Renan Calheiros, já se dobraram à evidência de que o PMDB deve ir de candidato próprio. Reunião recente dos senadores na casa do líder Ney Suassuna apontou o próprio Sarney como nome a ser estudado.
Na hipótese de um segundo turno Lula contra Garotinho, seria dificílimo o PSDB apoiar o atual presidente com eficácia. A temperatura atual da disputa entre tucanos e petistas permite imaginar o que vai ser a campanha. A radicalização, alimentada durante mais de um ano de guerra aberta, dará seus frutos. Os eleitores de ambos estarão convencidos de que o outro passou a ser o inimigo principal, o adversário a ser abatido a qualquer preço.

Chacoalhada
Ciro Gomes na disputa chacoalharia o cenário, acreditam dirigentes do PSB e PCdoB ouvidos pelo Correio. Ele partiria de um patamar mínimo de 10% dos votos, que teve em 2002 em condições muito desfavoráveis. Caso não fosse ao segundo turno, apoiaria Lula. A recíproca seria natural. Os votos de esquerda desconfortáveis com Lula desaguariam num nome não hostil ao presidente. Além de tudo, Lula não enfrentaria sozinho o debate com os demais candidatos no primeiro turno.
Outra variável é a cláusula de desempenho de 5% que os partidos precisarão atingir para manter pleno direito a ter bancada parlamentar, tempo de televisão e acesso ao fundo partidário. PSB e PCdoB já sabem que sozinhos dificilmente atingirão esse mínimo. Os dois partidos estudam alguma forma de fusão ou incorporação, pois a reforma política dá poucos sinais de que vá ser aprovada.
O ministro da Integração, recém-filiado ao PSB, não dá espaço para discutirem a candidatura com ele. Reafirmou a interlocutores nos últimos dias que tem compromisso com o projeto da reeleição de Lula. Após a reforma ministerial integra oficialmente o círculo de colaboradores mais próximos do chefe. É um dos conselheiros mais ouvidos pelo presidente desde a eclosão da crise política.
Lula e Ciro Gomes já foram adversários. Ultimamente, têm jogado em dobradinha. Mas os paradoxos da política podem levá-los em 2006 a caminhar separados para, como se dizia antigamente, golpearem juntos.

Disputa no ninho

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 29 de agosto de 2005 - Caciques do PSDB estudam adiar a convenção nacional do partido, prevista para novembro. O objetivo é evitar o acirramento de uma disputa interna que pode ameaçar a unidade da legenda, exatamente quando as pesquisas apontam crescimento da intenção de voto em candidatos tucanos à Presidência da República.
A escolha do novo presidente do PSDB divide os chefes da sigla em dois grupos: quem deseja colocar no cargo o senador Tasso Jereissati (CE) e os que buscam uma alternativa mais próxima do prefeito de São Paulo, José Serra.
Tasso e Serra afastaram-se em 2002, quando o senador cearense apoiou Ciro Gomes, do PPS, à Presidência da República. Serra foi ao segundo turno contra Lula, e só então recebeu o apoio oficial de Tasso. O problema político entre ambos nunca foi completamente resolvido.
Agora, Tasso tem a simpatia de tucanos como o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, para comandar o partido no lugar do senador Eduardo Azeredo (MG). Quinta-feira, Aécio foi jantar na casa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e disse ao anfitrião que a sucessão interna será a senha para saber se o partido vai caminhar unido ou esgarçado para a disputa presidencial.

Pesquisas
Aécio, Tasso e outro presidenciável, o governador paulista Geraldo Alckmin, querem um sinal de que a disputa pela vaga para o Planalto em 2006 está em aberto. Querem na presidência do PSDB alguém distante de Serra. Já os aliados do prefeito de São Paulo desconfiam que Tasso na cabeça do partido pode representar a formação de uma frente anti-Serra, para impedir que o prefeito seja candidato à sucessão de Lula.
O potencial de cizânia estimula a busca de soluções, como o adiamento da convenção de novembro. A idéia dos negociadores é definir simultaneamente a sucessão interna e o adversário de Lula. Todos os interlocutores seriam contemplados ao mesmo tempo com sua fatia de poder. Não ficariam dívidas a serem saldadas. Não haveria “restos a pagar” entre os tucanos.
A última pesquisa do Ibope teve efeito imediato na aceleração da agenda tucana. Aliados de José Serra no Congresso Nacional previam que ele levaria alguns meses para passar Lula nas simulações de segundo turno. Mas a ultrapassagem de nove pontos (Serra 44% x Lula 35%) aguçou o apetite dos serristas e acendeu a luz vermelha nas hostes de Alckmin e Aécio.
Amigos do prefeito ficaram particularmente felizes com a vantagem entre os mais pobres (45% a 38% na faixa até um salário mínimo, 46% a 36% nas classes D e E). Em conversas reservadas, Serra tem afirmado que não deseja se candidatar, pois precisaria deixar a prefeitura com mais de dois anos e meio de mandato a cumprir. Ele tem pedido prudência e dito que a eleição ainda está indefinida. Os tucanos avaliam que o entendimento Serra-Alckmin é chave para enfrentar competitivamente a eleição do próximo ano. Feridas abertas em São Paulo seriam campo fértil para uma derrota eleitoral.

sábado, 27 de agosto de 2005

Entrevista: O prefeito, candidato e blogueiro

“Não sou jornalista, sou político opinando. Essa é a função do blog”

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 27 de agosto de 2005 - O prefeito do Rio, Cesar Maia, teve 15 minutos de fama como blogueiro no último domingo, ao questionar em tempo real o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, sobre as licitações do lixo em Ribeirão Preto. Palocci respondeu a Maia e deu, mais uma vez, visibilidade ao endereço cesarmaia.blogspot.com.

Desde o começo da crise, a imprensa faz referências a informações e opiniões postadas no blog do prefeito. O Correio decidiu mandar algumas perguntas por e-mail para o prefeito-blogueiro. Abaixo, as respostas. Elas são de um laconismo que impressiona. O prefeito economizou nas palavras como quem poupa caracteres em um programa de computador, para diminuir o gasto de memória da máquina que roda o software.

Numa das poucas respostas em que foi absolutamente afirmativo, o político Cesar Maia rejeitou a idéia de que esteja invadindo seara alheia. No caso, a dos jornalistas. “Sou um político opinando”, dispara. Não há como negar que Maia esteja anos-luz à frente dos concorrentes no uso das ferramentas da internet. Se isso vai dar resultado eleitoral? Nem ele se arrisca a prever.

CORREIO BRAZILIENSE - Há quanto tempo o senhor usa a internet?
CESAR MAIA —
Desde o primeiro governo.

CORREIO — Qual é sua rotina diária na internet? Quantas horas por dia o senhor gasta na rede?
CESAR —
Das 5h às 8h. E das 22h às 23h. No demais, são entradas pontuais.

CORREIO – Quais são os seus sites preferidos?
CESAR —
Sempre de notícias.

CORREIO — O tempo que o senhor gasta na internet não seria mais bem empregado no ofício de prefeito?
CESAR —
O e-mail multiplica por 100 a capacidade de decidir.

CORREIO — Quantos e-mails o senhor recebe por dia? A quantos responde? Quais são os principais assuntos tratados?
CESAR —
São 300, sendo que 100 são spam ou quase. Basicamente reclamações. Sou um ouvidor.

CORREIO — Qual é a ética em fundir o personagem da notícia, o prefeito e o blogueiro Cesar Maia no jornalista cibernético e prefeito Cesar Maia?
CESAR —
É o que eu sempre fiz e que só agora é aberto.

CORREIO — Como ter credibilidade jornalística quando o jornalista, no caso o senhor, é também pré-candidato à presidência da República?
CESAR —
Não sou jornalista, sou político opinando. Essa é a função do blog.

CORREIO — Quem opera manualmente o site, o senhor mesmo ou colaboradores?
CESAR —
Jovens voluntários.

CORREIO — Qual é a influência que a blogosfera terá na próxima eleição brasileira?
CESAR –
Não faço a menor idéia.

CORREIO — Quais as ações práticas do seu governo para ampliar o uso da internet entre os mais pobres?
CESAR —
Universalizar nas escolas e criar pólos nas favelas.

CORREIO — Se o senhor fosse presidente da República, aceitaria reduzir a zero as alíquotas de importação de PCs, para baixar o preço das máquinas e acelerar a inclusão digital?
CESAR —
Nunca pensei nisso.

CORREIO — O senhor não teme perseguições políticas por ser, ao mesmo tempo, prefeito de uma importante capital, pré-candidato a presidente e um guerrilheiro da blogosfera?
CESAR —
Sempre é assim.

terça-feira, 23 de agosto de 2005

Cautela com o acusador

Negativas de irregularidades na prefeitura de Ribeirão Preto não são acompanhadas de críticas ao ex-assessor

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 22 de agosto de 2005 - Antônio Palocci preferiu a política ao direito para enfrentar seu dia mais difícil desde que assumiu o Ministério da Fazenda do governo Lula, há dois anos, sete meses e 22 dias. Para responder às acusações de Rogério Buratti, recorreu a uma receita simples, composta de quatro ingredientes : encarou os jornalistas por mais de duas horas, negou peremptoriamente todas as acusações, procurou mostrar desapego ao cargo e aproveitou para discorrer sobre os resultados de seu trabalho à frente da economia.
Funcionou. Palocci chegou ao ministério pouco antes do meio dia e começou a entrevista com só dez minutos de atraso. De cara, foi ao coração do problema. Antes que alguém perguntasse sobre a relação entre sua permanência no cargo e a estabilidade, fez questão de apontar os avanços econômicos como uma conquista do país. A sociedade não aceitará medidas que abram a porta para a volta da inflação, disse. Citou as ameaças de explodir os gastos com a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) e o salário-mínimo. Ou seja, em meio a pressões do PT e aliados para afrouxar as políticas fiscal e monetária, Palocci pode até não ser totalmente indispensável. Mas, por via das dúvidas, talvez melhor mesmo seja mantê-lo no cargo.
Só que para chegar a terreno seguro era necessário atravessar o campo minado das denúncias desencadeadas por Buratti. Palocci não atacou o ex-assessor, que sexta-feira na saída do depoimento aos promotores disse ter percebido estar “isolado”. Só o próprio ministro sabe se enxergou ali um recado do ex-amigo.
Por quê, então, as acusações? Palocci lançou-as na conta das circunstâncias em que Buratti depôs: com uniforme laranja de preso, algemado e ameaçado com uma temporada atrás das grades. Era a senha para as críticas ao Ministério Público estadual e, indiretamente, ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Que ontem não recebeu ataques, mas vai receber uma carta nos próximos dias com reclamações do ministro.

Pontes políticas
Na área criminal, Palocci foi firme. Negou a propina de R$ 50 mil mensais “para Ralf Barquete”, não para ele. Negou também que ela pudesse ter existido sem seu conhecimento. Quando perguntado, em seguida, se isso implicava admitir que também o presidente Lula deveria saber de tudo o que se passava em seu governo, Palocci preferiu responder “com o coração”: “Eu sei que o presidente Lula não tinha informações sobre essas coisas.”
Ainda no terreno movediço da política, esforçou-se para arquivar o discurso da “herança maldita”. Elogiou José Sarney pela criação do Tesouro Nacional e pelo fim da conta-movimento do Banco do Brasil, que dava à instituição poderes de autoridade monetária. Citou Itamar Franco e enalteceu Fernando Henrique Cardoso pela Lei de Responsabilidade Fiscal e pelo equacionamento das dívidas de Estados e municípios. Em tempos de crise, apoios são sempre bem-vindos. Abaixo, alguns dos trechos principais.

O fico
O ministro Antônio Palocci disse que telefonou ontem pela manhã ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o deixou “tranquilo” sobre uma possível substituição no Ministério da Fazenda. Evitou a expressão “à vontade”. O chefe, por definição, está sempre à vontade para afastar um subordinado. Lula rejeitou a saída de Palocci, mesmo que temporária.

Sem chantagem
O ministro disse que nunca vai utilizar a "sensibilidade" da área economia para se manter no cargo e que a economia não depende dele. Para Palocci, as políticas dos últimos anos produziram avanço institucional suficiente para o país suportar as turbulências trazidas pela crise. Disse que a lucratividade das empresas é a maior em 20 anos e a criação de empregos, a maior em 30 anos.

Ressentimentos
“Eu sei como funciona a política.” Afirmou que faz um grande esforço para não perder o humor, mas que não tem rancor, não carrega para casa ódios ou ressentimentos.

Desmentido
Negou “categoricamente”, “com veemência”, que houvesse recebimento sistemático de propina em sua gestão como prefeito de Ribeirão Preto. Perguntado se poderia ter havido, mesmo sem o conhecimento dele, negou. Não ocorreu, não ocorreria sem o conhecimento dele. “Nego em todos os aspectos”. A licitação do lixo não foi feita por ele.

Sem provas
O ministro afirmou que o Ministério Público não conseguirá provar algo que não houve. O ônus da prova cabe a quem apresenta a denúncia. Ainda analisa que providências jurídicas vai tomar contra Buratti.

Sobre Buratti
E por que Buratti disse o que disse? Palocci afirmou que não esperava, mas “compreende”. Pelas circunstâncias. Foi preso, depôs algemado. Falou talvez por alguma exigência da negociação com os promotores.

Amizade
Sobre Buratti, Palocci foi cauteloso. Buratti fez a primeira campanha dele para prefeito, em 1992, e se tornou o secretário de Governo. Foi afastado num episódio “ruidoso”. Investigado, nada se comprovou. Não são amigos, nem inimigos. As mulheres são amigas e os filhos se encontram.

Negócios
Jamais manteve com Buratti relações profissionais ou de negócios. “Eu não tenho negócios privados, Nunca tive atividade empresarial.”

Destemido
Não tem “medo do porvir”. Não veio a Brasília para “cometer atos de natureza duvidosa”. Disse que sabe o que fez e também o que não fez. “As coisas que ocorreram não me preocupam, me engrandecem.”

O caso Prosper
Gravação feita com autorização judicial em julho de 2004 mostra Buratti e outro ex-assessor de Palocci, Wladimir Poletto, negociando um encontro entre o ministro e o presidente do banco Prosper, Edson Menezes. Palocci diz que Menezes pediu o encontro a seu chefe de gabinete, Juscelino Dourado, e foi recebido na condição de presidente da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. O encontro se deu três meses depois da gravação

O grampo
Segundo a revista "Veja", Juscelino Dourado pediu por e-mail a ajuda de Buratti para a compra de um aparelho de escuta telefônica. Dourado teria feito o pedido em nome do “chefe”. Segundo Palocci, Dourado negou as acusações em resposta à revista e recebeu da repórter uma mensagem que afirmava não ser ele, Dourado, o remetente do e-mail a Buratti. Dourado diz que pediu uma cópia do e-mail, mas Veja não mandou. “O único aparelho de escuta que eu tenho é o estetoscópio”, rebateu Palocci.

Os telefonemas
A quebra do sigilo telefônico de Buratti mostrou ligações para Dourado, para Ralf Barquete (ex-assessor de Palocci em Ribeirão e assessor da presidência da Caixa Econômica Federal até morrer em junho de 2004) e para a casa de Palocci. O ministro diz que Buratti e Dourado são amigos e que pode ter recebido alguma ligação de Buratti em 2003.

Quebra de sigilos
Não vai fazer “panfletagem” com sua vida pessoal, mas vai colaborar com qualquer autoridade que deseje ter acesso a seus sigilos bancário e telefônico. O fiscal, pelo cargo que ocupa, já está aberto.

Críticas ao MP
Palocci diz que há “indiscrição” das autoridades. Para ele, pegar uma fita de depoimento e passá-la a órgãos de imprensa é ferir a lei. Vai mandar uma carta ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, sobre o comportamento do Ministério Público estadual e da polícia no caso.

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Algumas Frases

“O presidente Lula pediu para que eu transmitisse a vocês a sua decisão. Ele não deseja que eu saia do Ministério da Fazenda. Ele disse que não autorizará o meu afastamento, mesmo temporário”

“Quero negar categoricamente e com veemência essas denúncias. Eu não recebi e não autorizei que recebessem recursos para o Diretório Nacional do PT ou para outras instâncias do PT durante esse período ou qualquer outro período”

“Se alguém liga para o meu chefe de gabinete e pede audiência, não posso ser responsabilizado por isso”

“Não temo o porvir, nem o que está colocado sobre a mesa. Estou tranqüilo, porque sei do que fiz e do que não fiz. As coisas que ocorreram não me preocupam”

Palocci fica e reage

Ministro da Fazenda assume a defesa dele mesmo e do governo. Expectativa agora é com novo depoimento de Buratti no Congresso

Alon Feuerwerker e Ricardo Allan

Correio Braziliense, 22 de agosto de 2005 - O ministro Antônio Palocci negou todas as acusações contra ele desencadeadas pelo ex-assessor Rogério Buratti, disse que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai mantê-lo no governo e que a política econômica não muda, pois combater duramente a inflação é uma exigência da sociedade. Além do mais, lembrou, as empresas estão lucrando como não lucraram nos últimos 20 anos, e a criação de empregos é a maior dos últimos 30 anos.
“Palocci marcou um gol”, resumiu Lula em seu apartamento em São Bernardo do Campo (SP). Para um time (o governo) que vinha sofrendo revezes diários, a fala do ministro representou alívio. Mas o jogo está longe de acabar, e a desvantagem no placar ainda é grande. Rogério Buratti deve ir à CPI dos Bingos na quarta-feira. Vai dizer se reafirma ou não o que declarou aos promotores de Ribeirão Preto (SP).
O ministro da Fazenda falou aos jornalistas durante mais de duas horas e respondeu a quase todas as perguntas. Rejeitou qualquer possibilidade de ter havido pagamento de uma propina de R$ 50 mil de empreiteira ao PT quando foi prefeito de segundo mandato na cidade do interior paulista (2001-2002). Rechaçou qualquer influência de Buratti na elaboração de sua agenda de ministro. Rejeitou a acusação de que seu chefe de gabinete, Juscelino Dourado, tenha consultado Buratti sobre a compra de um aparelho de escuta telefônica.
O presidente Lula reuniu o gabinete da crise à noite na Granja do Torto. O PT, finalmente, teve um dia de folga. A oposição gostou de Palocci ter falado, mas prefere esperar pela ida de Buratti à CPI. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, defendeu o Ministério Público, que Palocci responsabilizou indiretamente pelas acusações de Buratti. A expectativa geral é que o mercado abra hoje em calma, depois da tempestade de sexta-feira.

sábado, 13 de agosto de 2005

Sarney na disputa

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 12 de agosto de 2005 - Um jantar de senadores do PMDB na noite de terça-feira, na casa do líder Ney Suassuna (PB), foi o marco zero das articulações para tentar fazer do senador pelo Amapá e ex-presidente José Sarney o candidato do partido à presidência da República.
Por cerca de três horas, a maioria da bancada discutiu o quadro político e a gravidade da crise. Avaliaram que o lançamento de um candidato próprio pelo PMDB é irreversível. Pensam não mais haver condições para reverter essa decisão, adotada pela convenção nacional . E consideraram que o melhor caminho seria buscar um nome competitivo que mobilizasse o partido, mas que não levasse a legenda para a oposição.
Para surpresa geral, Sarney não reagiu negativamente ao assunto, ao contrário. Fez questão de dizer que os números de seu governo são melhores que os do governo Lula. E mostrou animação com a possibilidade de ter seu nome colocado na disputa.

Segundo turno
Os senadores ressaltaram várias vezes que consideram Sarney o nome mais forte. Disseram ainda que sua candidatura pelo PMDB poderia impedir que o partido se aliasse automaticamente aos tucanos num eventual segundo turno das eleições presidenciais.
Os governistas consideram que tiveram uma vitória na quarta-feira, quando evitaram que a ala oposicionista destituísse o líder em exercício na Câmara dos Deputados, Wilson Santiago (PB). A oposição queria colocar no cargo o deputado gaúcho Mendes Ribeiro. Dizem ter sido um sinal de que o ex-governador Anthony Garotinho não conseguirá maioria para sua candidatura presidencial pelo PMDB.
Num certo momento, alguém lembrou a idade de Sarney, 74 anos. Foi imediatamente contraditado por mais de um senador. A hora exige experiência, disseram.

Pacto para as prévias

Após duas reuniões, Anthony Garotinho e cúpula do PMDB selam acordo para candidatura própria, com apresentação dos nomes até 1° de dezembro. O partido quer ouvir 15 mil filiados

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 12 de agosto de 2005 - A cúpula do PMDB e o ex-governador Anthony Garotinho chegaram a um acordo para fazer a prévia que vai indicar o candidato do partido à presidência da República no ano que vem. O pacto foi selado após duas reuniões ontem e deve ser referendado em reunião da Executiva Nacional na próxima semana. O prazo limite para a apresentação das candidaturas é 1º de dezembro e a consulta deve ser feita até 1° de março de 2006. Poderão participar todos os filiados com mandato eletivo ou partidário. É um colégio eleitoral de cerca de 15 mil peemedebistas.
Já pela manhã, antes mesmo de o acordo ser fechado, Garotinho dizia ser “um político disciplinado”. “Vou dar tudo de mim para ser o candidato do partido e acredito que vou ganhar a prévia”, afirmou. “Mas, se perder, apoiarei quem for o escolhido.”
Antes da definição de ontem, Garotinho vinha pressionando o comando do partido. Dizia temer que o PMDB pudesse recuar da decisão, tomada em convenção nacional, de ter candidato próprio à sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva. O prazo para os candidatos em 2006 trocarem de partido é outubro deste ano.
O acordo praticamente elimina a possibilidade de o ex-governador tentar a presidência por outra legenda. E lhe garante tempo hábil para tomar as providências legais caso perca a prévia e decida disputar, por exemplo, o Senado pelo Rio de Janeiro. Neste caso, a governadora Rosinha Garotinho teria de renunciar ao mandato até abril, para não tornar o marido inelegível.
Pelo menos mais um peemedebista, o governador gaúcho Germano Rigotto, já manifestou oficialmente o desejo de ir à prévia. Outros nomes cogitados no partido são o presidente do Supremo Tribunal Federal, Nélson Jobim, e o senador José Sarney (AP). Freqüentemente citado, o governador paranaense Roberto Requião disse ontem aos colegas que não é candidato.
O PMDB ganhou três ministros na última reforma ministerial do governo Lula: Saraiva Felipe, da Saúde; Silas Rondeau, de Minas e Energia; e Hélio Costa, das Comunicações. Mas não assumiu compromissos com uma eventual candidatura do presidente Lula à reeleição.

Pré-programa
Na primeira reunião do dia, pela manhã, membros da Executiva, governadores e deputados reuniram-se na presidência do PMDB para receber o pré-projeto de programa de governo elaborado sob a coordenação de Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES no governo Lula. O projeto, que vai ser debatido pela sigla até o final do ano, propõe mudanças profundas na política econômica atual, caracterizada pelo tripé metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário.
Lessa sugere a redução simultânea dos juros e do superávit primário, inclusive a “eventual eliminação” dele. Pede também o controle do fluxo externo de capitais e a “administração do câmbio em um patamar favorável ao equilíbrio das contas externas”. Propõe ainda alguma forma de controle de preços, descrita como “pactuação em torno da estabilidade dos preços”.
O segundo encontro, que bateu o martelo das prévias, foi um almoço na residência oficial do governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz.

"Eu me sinto traído"

Em menos de 12 minutos, um Lula pouco convicto disse que, se pudesse, puniria responsáveis pela corrupção — oposição e governistas queriam mais

Alon Feuerwerker, Sandro Lima e Mariana Mazza

Correio Braziliense, 13 de agosto de 2005 - Na abertura da reunião ministerial de ontem, na Granja do Torto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ao Brasil que se sente traído, que está consciente da gravidade da crise política e indignado “pelas revelações que aparecem a cada dia e chocam o país”. Foi um discurso de pouco menos de 12 minutos, lido em tom contido, sem aparentar muita convicção, com um pequeno improviso no final. O olhar do presidente vagueava.
Lula não foi direto ao ponto. Preferiu, antes, discorrer sobre os resultados positivos de seu governo na economia. Afirmou novamente que o país voltou a crescer e que a inflação está contida. “É a menor dos últimos cinco anos.” Falou de novo dos mais de três milhões de empregos criados desde janeiro de 2003, “12 vezes mais que a média dos anos 1990”. Celebrou os programas sociais. “Sete milhões e quinhentas mil famílias de brasileiros mais humildes têm garantido o acesso a uma renda mínima através do programa Bolsa Família.”
Mas o objetivo era abordar a crise. Começou sacando no cheque especial de sua história. “Em 1980, no início da redemocratização, decidi criar um partido novo que viesse para mudar as práticas políticas, moralizá-las e tornar cada vez mais limpa a disputa eleitoral no nosso país.”
Foi o prefácio para dizer que se sente traído. “Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento.” E se defendeu: “Eu não mudei”. Citou as limitações de seu poder. “Se estivesse ao meu alcance, já teria punido exemplarmente os responsáveis por essa situação.”
Falou da reforma política “tão sonhada”, antes de dizer que o PT e o governo, “onde errou”, têm que pedir desculpas. Pediu que as pessoas “não percam a esperança”, e que tem certeza de poder contar com o povo brasileiro.
A oposição atacou a fala presidencial. “Foi a peça mais pífia e indigna da história”, criticou o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM). O presidente do PT, Tarso Genro, classificou o discurso de “insuficiente” e pediu novos pronunciamentos com ações capazes de debelar a crise.
O dia do presidente começou com um café-da-manhã com o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Luiz Dulci, e com o porta-voz André Singer. Foi quando soube da entrevista do presidente do PL e ex-deputado Valdemar Costa Neto à revista Época, com a revelação de que o PT prometeu R$ 10 milhões ao PL para fechar a coligação presidencial de 2002. Estavam os líderes do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), e no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP).
A reunião ministerial estava marcada para 9h, mas só começou perto do meio-dia. Por mais de duas horas, o presidente ficou reunido com Dulci e os ministros da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, da Casa Civil, Dilma Rousseff, da Fazenda, Antonio Palocci e das Relações Institucionais, Jacques Wagner, para acertar os últimos detalhes do pronunciamento. Os demais ministros, que desde cedo estavam na Granja do Torto, aguardavam em outra sala.
Após o discurso do presidente, a palavra foi transferida a Bastos, Wagner e Dulci. O tema foi a crise política. Em seguida, veio o intervalo para almoço. Foram servidos arroz, feijão, salada, frango ensopado e carne assada. No retorno, houve mais debate sobre a crise política e, na seqüência, passaram a avaliar as propostas prioritárias para o governo.
Palocci e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, fizeram uma exposição sobre os rumos da economia, nos mesmos moldes do que foi apresentado a um grupo de empresários na semana passada. Assim como Lula, eles ressaltaram a importância de impedir que a crise política interfira no “bom momento” econômico do país.
Na mesma linha, Jacques Wagner pediu empenho dos presentes para a aprovação de uma agenda mínima no Congresso. Defendeu três pontos: o Fundo de Educação Básica (Fundeb), a Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas e a Reforma Política. Depois, Thomaz Bastos anunciou as ações de combate à corrupção no âmbito do governo e disse que o principal foco das investigações é a caça à lavagem de dinheiro.
A área social foi tema da exposição do ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias. Ele garantiu que será cumprida a meta do programa Bolsa Família até o fim de 2006, de contemplar nove milhões de famílias. Dilma Rousseff organizou e coordenou a última parte do encontro, dedicada a um balanço das ações de governo e metas a serem cumpridas.
Depois de quase nove horas, a reunião terminou oficialmente às 20h40. Como o início foi atrasado em quase três horas, não houve tempo para que Dilma fizesse toda a sua exposição.
Um dos primeiros a deixar a Granja do Torto foi Mercadante, para quem o discurso do presidente Lula foi “corajoso pela humildade, pela capacidade de reconhecer erros do governo e, sobretudo, do nosso partido, o PT”. Ainda de acordo com o senador, “o presidente Lula falou de forma aberta e franca o que sentia e motivado a continuar trabalhando”. Apesar de defender a punição dos culpados, Mercadante evitou citar nomes e disse que não se podem fazer prejulgamentos.

36 horas de tensão

Lula optou por discurso na noite de quarta-feira, depois de ser avisado sobre ida de Duda Mendonça à PF

Oswaldo Buarim e Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 13 de agosto de 2005 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva soube desde a noite de quarta-feira que tinha chegado a hora de dizer algo mais consistente sobre a crise que envolve o governo. Foi quando recebeu um telefonema do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. Ali, Lula tomou conhecimento do teor das declarações do publicitário Duda Mendonça, que depunha na Polícia Federal. Soube que Duda havia revelado todos os detalhes: caixa 2 na campanha de 2002, pagamento em paraísos fiscais e participação de Marcos Valério.
Foi informado, ainda, que seu marqueteiro iria espontaneamente no dia seguinte à Comissão Mista Parlamentar de Inquérito dos Correios para depor junto com sua sócia Zilmar da Silveira, convocada pela CPMI. Esta informação foi imediatamente retransmitida por Bastos ao presidente da comissão, o senador Delcídio Amaral (PT-MS).
O texto final foi escrito a quatro mãos pelo ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Luiz Dulci, e pelo porta-voz e secretário de Imprensa, André Singer. Foram também consultados os ministros da Fazenda, Antonio Palocci, das Relações Institucionais, Jaques Wagner, e da Casa Civil, Dilma Roussef. Os auxiliares do presidente insistiram para que ele fizesse críticas diretas a acusados, dissesse que foi traído e pedisse desculpas. “Eu me sinto traído” e “nós temos que pedir desculpas” foi o máximo que arrancaram.
Ontem, a entrevista do presidente do Partido Liberal, Valdemar da Costa Neto, à revista Época fez acrescentar mais um detalhe ao discurso. Valdemar disse à revista que a aliança entre o PT e o PL em 2002 foi fechada sob o compromisso de o PT dar ao PL R$ 10 milhões para ajudar nas campanhas dos deputados liberais. Entrou no texto: “Perdi três eleições e ganhei a quarta, mantendo-me sempre fiel” ao ideal de “mudar as práticas políticas, moralizá-las e tornar cada vez mais limpa a disputa eleitoral no nosso país”.

Análise: No fio da navalha

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 13 de agosto de 2005 - Dizer “eu me sinto traído” é diferente de admitir que “eu fui traído”. De um presidente que foi traído, espera-se que diga quem o traiu e por quê. Já sentir-se traído é algo que permanece nos limites da subjetividade, da sensação pessoal. Tanto faz quem carregue o sentimento, as conseqüências serão apenas emocionais.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva andou no fio da navalha em seu discurso de ontem aos ministros. Ao longo da semana, foram gigantescas as pressões para que viesse a público dar resposta às acusações que mergulharam seu governo na crise política. Lula cedeu, mas não atravessou a fronteira.
Não admitiu erros próprios. Disse ter perdido três eleições e ganhado a quarta mantendo-se sempre fiel aos ideais políticos que orientaram a fundação do PT. Não criticou duramente o partido ou sua antiga direção. Não apontou culpados. Disse apenas que afastou acusados e que as instituições vão indicar quem merece condenação.
O passeio de Lula pelo fio da navalha tem razão de ser. O presidente sabe que precisa dar satisfações à população brasileira. Sabe também que não pode errar com o PT ou com o Congresso Nacional. O primeiro é obra sua. O segundo é onde poderá ser decidido o futuro de seu mandato.
Seria autismo político do presidente ignorar a sede da sociedade por explicações. Seria estupidez ele supor que poderia lançar o opróbrio a custo zero sobre a sigla que dirigiu com mão de ferro nos últimos 25 anos. Lula, cuidadosamente, fez questão de dizer que a crise compromete “todo o sistema partidário brasileiro”, e não apenas o PT. Seria também ingenuidade, inadmissível nesta altura do campeonato, supor que o parlamento, em particular a base governista, vai aceitar passivamente ataques presidenciais.
Lula tomou ainda o cuidado de insinuar que a crise política pode trazer problemas para a economia, “para o crescimento deste país, para a geração de empregos” e, novidade, “para a continuidade dos programas sociais”.
Antes, o presidente já vinha dizendo a empresários e trabalhadores que seu governo prosseguir é bom para eles. Agora, introduziu no discurso a sutil insinuação de que abreviar o mandato dele pode ser uma ameaça aos programas sociais. A pesquisa Datafolha de ontem mostrou que os programas dirigidos aos mais pobres são o pilar mais forte que resta ao presidente.
Luiz Inácio Lula da Silva não pediu desculpas. Disse “nós temos que pedir desculpas”. E quem é “nós”? O PT e o governo, “onde errou”. Ele, Lula, não.
Lula é um político cujo instinto de sobrevivência não se deve subestimar. Ontem, funcionou mais uma vez.

sexta-feira, 12 de agosto de 2005

Entrevista: "Nem pizza, nem linchamento"

Parlamentar do PSB mineiro foi escolhido para relatar o processo de cassação de José Dirceu

ALON FEUERWERKER

Correio Braziliense, 12 de agosto de 2005 - O deputado federal Júlio Delgado (PSB-MG) tem uma tarefa espinhosa nas próximas semanas. Vai relatar o processo contra seu colega José Dirceu (PT-SP) no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Delgado apóia o governo Lula desde o início e se afastou do PPS quando o partido caminhou para a oposição. “Não vai haver nem pizza nem linchamento. Não serei Pilatos nem Torquemada”, diz ele. Ou seja, não lavará as mãos como Pôncio Pilatos, nem assumirá o papel de feroz inquisidor exercido por Tomás de Torquemada na Espanha do Século XV. “Minha posição vai ser definida a partir das provas.” Segundo ele, estas podem ser materiais ou testemunhais. “Mas precisam ser consistentes.”

CORREIO BRAZILIENSE – O senhor sabe que, como governista, será visto com desconfiança pela oposição.
JÚLIO DELGADO– Se o relator fosse da oposição, seria visto com desconfiança pela base do governo. Então, estamos empatados. O melhor caminho não é discutir o relator, mas o trabalho dele.

CORREIO– E como vai ser o seu trabalho?
DELGADO – Vou ser isento. A cassação do mandato é quase uma pena de morte para o parlamentar. Essa pena máxima precisa ser precedida por um julgamento absolutamente justo, com a plena garantia do direito de defesa.

CORREIO– O que isso significa, na prática?
DELGADO– No julgamento do ex-ministro José Dirceu, assim como nos demais casos que estão no Conselho de Ética, não vai haver nem pizza, nem linchamento. Há uma pressão legítima da sociedade contra possíveis conchavos que possam salvar culpados. Excelente. Mas estamos em plena vigência do Estado de Direito, uma conquista da sociedade brasileira. Não vamos atropelar os direitos fundamentais, consagrados na Constituição.

CORREIO– Há uma pressão grande na Câmara, entre os próprios parlamentares, por cassações que aliviem a pressão sobre a Casa.
DELGADO– Não serei um Pôncio Pilatos, não vou “lavar as mãos”. Mas também não esperem que eu seja umTomás de Torquemada. Aqui os culpados serão punidos. Ninguém deve ter dúvidas sobre isso. Mas, no que depender de mim, ninguém vai arder na fogueira injustamente apenas para purgaros pecados do sistema político brasileiro e satisfazer a “sede de sangue” de alguns.

CORREIO– Do que vai depender o parecer que o senhor irá apresentar ao Conselho?
DELGADO – Vai depender das provas. Elas podem ser materiais ou testemunhais. Mas precisam ser consistentes.

terça-feira, 9 de agosto de 2005

Garotinho força acordo

Ex-governador do Rio tenta definir com o comando peemedebista data da prévia partidária para escolha do candidato do partido à Presidência — até lá, ele percorreria o país em busca de apoio

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 9 de agosto de 2005 - O comando do PMDB e Anthony Garotinho estão perto de um acordo para convocar a prévia que vai definir o candidato do partido à Presidência da República em 2006. O martelo deve ser batido no almoço que o governador Joaquim Roriz (DF) oferece à Executiva Nacional nesta quinta-feira, na residência oficial de Águas Claras. O mais provável é que a consulta seja oficialmente convocada, mas para o começo do próximo ano.
Os governistas do PMDB resistem à formalização da prévia, enquanto Garotinho gostaria de realizá-la ainda neste ano. O meio-termo de fazê-la no início de 2006 poderia ser aceitável para o ex-governador fluminense, desde que a Executiva abrisse oficialmente o debate interno no partido. Isso lhe permitiria percorrer imediatamente todo o país já como pré-candidato e buscar apoio nas bases para a disputa. O outro postulante já lançado é o governador gaúcho Germano Rigotto.
Nas últimas semanas, Garotinho tem pressionado o PMDB por uma definição. Outubro é a data-limite para troca de partido de quem pretende concorrer a qualquer cargo em 2006. Garotinho tem dito que não pretende cair na armadilha que vitimou Itamar Franco em 1998. Naquele ano, uma tumultuada convenção nacional decidiu, na última hora, não lançar ninguém para enfrentar Fernando Henrique Cardoso. Itamar ficou sem legenda e precisou contentar-se com o governo de Minas Gerais.
“O Garotinho quer começar o processo de escolha, quer deflagrar o debate. É justo que o partido dê essa oportunidade a ele”, afirma o deputado federal Geddel Vieira Lima (BA), um dos líderes da ala oposicionista e membro da Executiva.
As pesquisas têm mostrado o ex-governador empatado tecnicamente em segundo lugar quando o candidato do PSDB não é José Serra. Os aliados de Garotinho apostam que um palanque presidencial competitivo é atração quase irresistível para candidatos a deputado, senador e governador. “Ninguém em sã consciência abre mão de um grande puxador de votos”, diz um peemedebista do Rio.
O agravamento da crise política tem afetado negativamente a resistência da ala governista do PMDB à candidatura própria. Reservadamente, expoentes do grupo mais alinhado com o Palácio do Planalto reconhecem que ficaram “sem discurso”, e que o mais adequado neste momento seria ganhar tempo. O partido tem três ministros: Saraiva Felipe, na Saúde; Hélio Costa, nas Comunicações; e Silas Rondeau, nas Minas e Energia. Mas não assumiu na última reforma ministerial qualquer compromisso de apoiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006.

Briga pela liderança
Um dia antes da reunião da Executiva, ocorre amanhã o encontro da bancada peemedebista na Câmara dos Deputados para escolher o novo líder. O favorito é o atual interino, Wilson Santiago (PB), que substituiu José Borba (PR) quando ele deixou o cargo, após acusações de que teria recebido recursos do esquema operado por Marcos Valério e Delúbio Soares.
Os oposicionistas ainda tentam unificar-se em torno de um nome alternativo. O grupo de Garotinho gostaria de lançar Geddel, mas ele diz que só aceitaria se fosse para unificar o partido. Outros possíveis candidatos são o ex-governador Paulo Afonso (SC) e o deputado Mendes Ribeiro (RS).
Santiago conta com o esforço discreto do Palácio do Planalto. A escolha do novo líder do PMDB é o primeiro grande teste do ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner. Já o presidente do Senado, Renan Calheiros, tem-se mantido distante da disputa.

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

Fogo cruzado

Correio Braziliense, 5 de agosto de 2005 - No fogo cruzado das representações ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, um “cochilo” do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) acabou empurrando seis de seus próprios parlamentarespara o começo da fila de processos.
Na última terça-feira, o PTB representou diretamente ao conselho contra os deputados José Dirceu (PT-SP) e Sandro Mabel(PL-GO) por suposta quebra de decoro. Segundo a norma, deveria tê-lo feito à Mesa da Câmara, que mandaria automaticamente a papelada ao conselho.
Antes que a ação do PTB pudesse percorrer o caminho burocrático até a presidência,chegou ali a representação contra seis parlamentares petebistas para quem o Partido Liberal pede punição por razões diversas. O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, já decidiu que a ações vão ser mandadas ao conselho na ordem cronológica de entrada. Por isso, os seis do PTB devem ter seus casos analisados antes que o órgão discuta a instalação de qualquer procedimento contra Dirceu, Mabel e outros.
Dos seis petebistas, quatro supostamente usaram recursos de origem ilegal na campanha municipal de 2004, os R$ 4 milhões que Jefferson diz ter recebido do PT “por fora” como ajuda eleitoral. São eles: Sandro Matos (RJ), Neuton Lima (SP), Joaquim Francisco (PE) e Alex Canziani (PR). Francisco Gonçalves (MG), que disse ter visto uma mala de dinheiro no plenário, é acusado de não ter feito a denúncia imediatamente.
Romeu Queiroz (MG) é acusado de ter recebido recursos do empresário Marcos Valério.

Esquema
Na quarta-feira, o advogado de Jefferson, Irapuã Messias, afirmou à Agência Câmara que o PTB vai representar contra mais três deputados: José Janene (PP-PR), Pedro Henry (PP-MT) e Carlos Rodrigues (PL-RJ), todos suspeitos de envolvimento no esquema de Marcos Valério.
Severino tem dito que a avalanche de ações vai acabar inviabilizando os trabalhos. O Código de Ética estabelece 90 dias de prazo máximo para o conselho dar parecer sobre um processo de cassação.
Depois, disso, o assunto passa a trancar a pauta do plenário. O presidente da Câmara teme que a análise simultânea de representações acabe levando o conselho a decidir por “decurso de prazo”, sem cumprir os caminhos legais. Neste caso, avalia, eventuais cassados teriam chances de saírem vitoriosos no STF.
O presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PTB-SP), vai agrupar representações e entregá-las a um único relator. Tem pouco efeito prático a petição do senador Luiz Soares (sem partido-MT) contra outros deputados supostamente envolvidos nos saques e transferências de dinheiro proveniente de contas controladas pelo empresário Marcos Valério. São eles: Paulo Rocha (PT-PA), Pedro Corrêa (PP-PE), Vadão Gomes (PPSP), João Paulo Cunha (PT-SP), Josias Gomes (PTBA), José Mentor (PT-SP), Wanderval Santos (PL-SP), João Magno (PT-MG) e Professor Luizinho (PT-SP), além do próprio Borba. (Alon Feuerwerker)

domingo, 7 de agosto de 2005

Rigotto lança candidatura

Executiva Nacional do PMDB vai se reunir na próxima semana em Brasília para marcar a data das prévias que definirão quem concorrerá pelo partido ao Palácio do Planalto nas eleições do ano que vem

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 4 de agosto de 2005 - A Executiva Nacional do PMDB reúne-se na próxima semana em Brasília para marcar as prévias que vão definir seu candidato à Presidência da República no ano que vem. A decisão foi tomada ontem numa reunião entre quatro governadores e o presidente nacional do partido, deputado federal Michel Temer (SP).O governador gaúcho Germano Rigotto informou oficialmente no encontro que vai disputar a vaga. Além dele, já está lançado dentro do partido o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho.A decisão de marcar as prévias atende principalmente às pressões de Garotinho. Ele tem pedido ao PMDB sinais claros de que manterá a decisão da última convenção nacional, de disputar a eleição para presidente como candidato próprio. Depois de outubro, os candidatos em 2006 não poderão mais trocar de legenda.A reunião foi realizada na residência oficial do governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz. Além de Temer, Rigotto e Roriz, participaram os governadores de Santa Catarina, Luiz Henrique, do Paraná, Roberto Requião, e os deputados federais, Eliseu Padilha (RS), Geddel Vieira Lima (BA), Moreira Franco (RJ) e Tadeu Filipelli, este licenciado para exercer o cargo de secretário do Governo do Distrito Federal.A prévia será na forma de uma eleição direta interna, em que poderão votar todos os filiados. Há duas datas mais prováveis: novembro ou março.ResistênciaA tentativa de marcar a consulta deverá enfrentar resistência na ala governista, comandada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (AL), e pelo senador José Sarney (AP). O PMDB tem três ministros no governo Lula: o senador Hélio Costa MG) nas Comunicações, o deputado federal Saraiva Felipe (MG) na Saúde e Silas Rondeau no Ministério de Minas e Energia.A Executiva está dividida. Saraiva é secretário-geral do PMDB, mas não poderá votar, pois o estatuto impede que ocupantes de cargos no governo continuem na direção do partido. Filipelli, alinhado a Roriz, poderá ocupar seu lugar, se deixar o GDF antes da reunião. Sobre a atual crise política, o governador gaúcho defendeu a necessidade de uma investigação completa e profunda, que resulte em punição para todos os envolvidos. “O país espera que o Congresso cumpra sua obrigação, aprofunde as investigações e puna os culpados”, afirmou.

Lei Kandir
Os governadores do Sul vieram a Brasília para protocolar no Supremo Tribunal Federal uma ação direta de inconstitucionalidade contra a Lei Kandir, que desonerou as exportações. Os três governadores peemedebistas da Região Sul mantiveram reunião, ontem pela manhã, com o ministro Nelson Jobim, presidente do STF, para anunciar a decisão de recorrer à mais alta Corte do Judiciário contra a Lei Kandir. Rigotto informou ainda que nos próximos dias os governadores vão entrar com outra ação no STF para mudar o indexador das dívidas dos governos estaduais.“É um absurdo o que está acontecendo em relação às perdas que os estados estão tendo devido a Lei Kandir”, disse Rigotto. Segundo ele, Os estados perdem com a chamada Lei Kandir cerca de R$ 18 bilhões por ano, enquanto a União só cobre R$ 5,2 bilhões e, mesmo assim, desse total, R$ 900 milhões foram contingenciados pelo Ministério da Fazenda.

Tensão em ninho tucano

Onda de acusações contra o PT acirra a disputa no PSDB sobre o nome que concorrerá ao Planalto em 2006

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 7 de agosto de 2005 - Os governadores de São Paulo, Geraldo Alckmin, e de Minas Gerais, Aécio Neves, ensaiam uma aproximação para ampliar sua influência no processo que definirá o candidato do PSDB a presidente da República em 2006. Há seis meses, Alckmin era o franco favorito para a vaga, vitaminado pelos sucessos dos tucanos nas eleições municipais paulistas. Já Aécio caminhava para uma reeleição quase “natural”. O prefeito recém-eleito de São Paulo, José Serra, mirava em 2010. Os cálculos de então previam um Luiz Inácio Lula da Silva muito forte na reta final de seu governo. A volta ao poder não era uma imagem nítida no horizonte tucano. A crise mudou tudo. Não foi só no PT ou na base aliada que a onda serial de acusações trouxe consigo turbulência política e o acirramento das disputas entre caciques. Nada garante que Lula estará fraco em 2006, mas a possibilidade real de subir a rampa do Planalto desarranjou o ninho tucano.Em suas avaliações mais recentes, os chefes políticos do partido afastam cada vez mais a hipótese de o mandato de Lula ser encurtado. E trabalham com o cenário principal de que a crise será resolvida na própria eleição, quando esperam ter o PFL como aliado já no primeiro turno.Para se encaixar no papel de candidato, Aécio esboça disposição de extrapolar as fronteiras do estado. Tem repetido a interlocutores nos últimos dias que o importante é “Minas estar unida”. Uma das maneiras de unir Minas seria com Aécio candidato a presidente, o atual vice-presidente José de Alencar para governador e o ex-presidente Itamar Franco no Senado.Já Alckmin parece ter sentido o golpe da crescente movimentação dos aliados de José Serra. Acelera as viagens pelo país para neutralizar críticas de que seria um político excessivamente “paulista”, e busca a companhia de Aécio. Já foi visto fazendo comentários sobre uma hipotética disputa com Eduardo Suplicy pelo Senado.Os serristas saíram da toca depois do quase empate técnico entre Lula e o prefeito paulistano na simulação de segundo turno do último Datafolha (45 a 41%, com margem de erro de dois pontos percentuais). Serra resiste a abrir mão de dois anos e meio de mandato, mas basta conversar com alguns deputados tucanos, inclusive de Minas, para perceber a animação com a possibilidade de tê-lo como “puxador” de votos no ano que vem.“No máximo em seis meses ele passa o Lula nas simulações de segundo turno”, diz um aliado no Salão Verde da Câmara dos Deputados. Um assalto preliminar na luta interna do PSDB será disputado em novembro, com a sucessão no comando partidário. O atual presidente é o senador mineiro Eduardo Azeredo, atingido pelas denúncias sobre o caixa 2 do empresário Marcos Valério. Os tucanos consideram que o envolvimento dele foi lateral, mas quem o conhece diz que Azeredo está pessoalmente abalado. “Ele teve a reação esperada de um homem íntegro quando é ferido por uma história dessas”, comenta um amigo. Aécio trabalha para emplacar o senador Tasso Jereissati (CE) na presidência do PSDB. A dobradinha Tasso-Aécio é forte, mas enfrenta resistências. Parte do PSDB desconfia de Tasso desde que ele apoiou Ciro Gomes, então no PPS, na eleição de 2002. O problema dos opositores do senador cearense é não ter até o momento um nome à altura para enfrentá-lo.

FHC em São Paulo
Num detalhe, pelo menos, não há novidade alguma. O martelo que vai bater para definir o candidato presidencial está de novo nas mãos de Fernando Henrique Cardoso. Volta e meia aparece o boato de que ele será candidato a governador de São Paulo. Poucos tucanos do primeiro time acreditam nessa possibilidade.O PSDB não tem até agora uma candidatura forte para o Palácio dos Bandeirantes. Mas acredita que o desgaste petista, em conseqüência da crise política, abre espaço para um nome novo disputar a eleição estadual.A definição sobre quem vai enfrentar Lula deve ficar para o começo de 2006, a não ser que a crise se agrave e a situação política fuja ao controle. Eles não consideram isso provável. Esperam ter tempo suficiente para costurar sua própria unidade interna e as relações com segmentos empresariais que tradicionalmente os apoiavam, mas que migraram para Lula em 2002. Fernando Henrique está particularmente ativo nesse nicho específico.