sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

Opinião: Só falta dizer como (30/12)

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 30 de dezembro de 2005 - Os dois candidatos que foram ao segundo turno em 2002 estavam comprometidos com os fundamentos da política econômica. Luiz Inácio Lula da Silva e José Serra tiveram 70% dos votos válidos e defendiam a responsabilidade fiscal, o câmbio flutuante e as metas de inflação. O atual modelo foi legitimado nas urnas. Quem deseja mudá-lo precisa esperar mais um pouco. Deve dizê-lo claramente na campanha, explicar o que pretende pôr no lugar e depois contar os votos. A democracia funciona assim. Ou deveria.
Claro que é razoável mudar políticas desastrosas sem esperar pelas eleições. Mas há pouca gente fora dos extremos do espectro político que avalie assim a gestão do ministro Antonio Palocci. Outro dia, vimos empresários que sempre reclamam das taxas de juros defenderem a reeleição de Lula. No Congresso, a mesma oposição que vocifera contra a condução da economia tem “blindado” o ministro da Fazenda na CPI dos Bingos.
Por causa da crise política, há pouca esperança de que o debate econômico nas próximas eleições tenha alguma racionalidade. Se essa utopia se realizar, seria interessante perguntar aos candidatos por que a inflação teima em estourar o centro da meta, mesmo com as altas taxas de juros e o superávit primário acima dos 4,25% do PIB. Os postulantes deveriam também explicar como os juros e o superávit podem ser simultaneamente cortados sem afetar a inflação. Outra curiosidade seria saber como o real pode ser desvalorizado para ajudar as exportações, sem pressionar os preços.
Nem toda a verdade vem sendo dita claramente ao público no debate econômico dos últimos anos, desde que entrou em vigor o regime de metas de inflação. A eleição é boa oportunidade para isso. Quem promete o paraíso deveria mostrar como pretende nos levar até lá.

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