sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

Opinião: Passividade surpreendente

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 2 de dezembro de 2005 - Se houve algo surpreendente na agonia e cassação de José Dirceu, foi a pouca resistência oposta pelo Partido dos Trabalhadores e pelo governo a um processo evidentemente conduzido para impor uma derrota exemplar aos dois. Ao Palácio do Planalto resta sempre o argumento confortável de que o “problema Dirceu” não era assunto seu, mas da Câmara dos Deputados e do partido. O PT não tem essa desculpa. Ficará para sempre a sensação de que entregou numa bandeja aos adversários a cabeça de seu principal comandante político.
Foi visível nos últimos meses que as correntes petistas minoritárias aproveitaram a crise deflagrada pelas acusações de Roberto Jefferson para promover um ajuste de contas com o Campo Majoritário. Mesmo dentro do Campo, as denúncias foram utilizadas para implodir o núcleo dirigente anterior e promover uma troca nos quadros de comando. Reis mortos, reis postos. Só que não existe almoço grátis. Assumir que o partido errou foi útil na luta interna, mas cobrou seu preço quando se tornou necessário mudar o discurso e apresentar o PT e o governo como vítimas de um golpe político da direita.
José Dirceu foi cassado sem que os movimentos sociais tenham dado as caras. É um fato que lança sérias dúvidas sobre a real capacidade que teriam o governo e o PT de mobilizar essas forças, se escolhessem o caminho do confronto aberto com a oposição, como fez na Venezuela o presidente Hugo Chávez. Há duas conclusões possíveis: ou a relação das massas é com Luiz Inácio Lula da Silva e não com o PT, ou há algum exagero na avaliação que se faz sobre a organicidade das ligações entre o petismo e as massas. Lembra um pouco o “dispositivo militar” de que João Goulart supostamente dispunha para resistir em 64. Mais fantasia que realidade.
Há ainda outra observação. O discurso de defesa de José Dirceu na sessão em que foi cassado ficará na história da Câmara dos Deputados como uma peça grandiosa em defesa do Estado de Direito, da democracia e da justiça. Ousaria dizer que foi o melhor discurso de seus 40 anos de vida política. Ninguém faz um discurso daqueles sem estar convicto do que diz. O PT, porém, ainda deve à sociedade brasileira a prova de que é tão radicalmente democrático no poder quanto consegue ser na hora da dificuldade.

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