domingo, 18 de dezembro de 2005

O fantasma do isolamento

Sem reverter perda de apoio político e social entre os eleitores, Lula terá dificuldades caso concorra à reeleição. Se disputa fosse hoje, Serra teria a maioria dos votos que fizeram a diferença a favor do PT há três anos

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 18 de dezembro de 2005 - A divergência de interesses entre o PT e aliados ajuda a amarrar o braço político de Luiz Inácio Lula da Silva na batalha da reeleição. As pressões contra a austeridade fiscal limitam os movimentos do outro braço, o econômico. O resultado é a tendência ao isolamento, desenhado nas pesquisas mais recentes do Ibope e do Datafolha. Lula é um candidato forte, com cerca de um terço dos votos válidos no primeiro turno. Mas ele agrega muito pouco quando a eleição passa para o segundo turno.
Em 2002, o petista teve seis em cada dez votos contra o tucano José Serra no turno decisivo. O Datafolha e o Ibope, mesmo com resultados numericamente diferentes em termos absolutos, indicam que Serra atingiu o patamar de 58% dos votos válidos numa disputa direta com Lula. Ou seja, inverteu a situação de três anos atrás. Lula está sendo empurrado para o seu eleitorado tradicional e mais fiel, que lhe deu grandes votações em 1994 e 1998, mas não foi suficiente para evitar a derrota na polarização direta com o PSDB.
“Lula está perdendo, rapidamente, o que nos Estados Unidos se chama de ‘swing vote’, o voto flutuante. E sem isso ele não ganha, diagnostica o líder da oposição na Câmara, José Carlos Aleluia (PFL-BA). “E, quanto mais ele ceder à pressão por medidas populistas, mais rápida será a perda”, prevê. Nas últimas semanas, o estado-maior do PFL se debruçou sobre estudo encomendado a Antonio Lavareda, especialista em marketing político. Na discussão, os pefelistas concluíram que a estabilidade econômica é o ativo que pode manter ao lado de Lula parte dos que não o apoiavam antes de 2002 e lhe deram um voto de confiança naquele ano.
Outro problema de Lula é a solidão política. Se, na economia, PT e aliados estão juntos na pressão sobre o presidente por menos superávit primário, menos juros e mais gastos, quando o assunto passa para possíveis alianças, os partidos do campo “lulista” estão a anos-luz de um entendimento. O PT quer puxar ao máximo para si os bônus de ser governo. Os demais querem saber desde agora qual é a parte que lhes caberá do estoque eleitoral a ser mobilizado pelo presidente na campanha do ano que vem.
Aliados
Se os votos de Lula no primeiro turno forem dados esmagadoramente a candidatos do PT nas eleições proporcionais, o partido, em teoria, poderia até aumentar sua bancada na Câmara dos Deputados. Num cenário de crise e isolamento, o crescimento se daria às custas de aliados tradicionais, caso do PSB. “Precisamos saber se o PT nos quer como sócios ou se somos úteis só na hora da dificuldade”, diz o vice-líder do governo na Câmara, Beto Albuquerque (PSB-RS). “A posição do PT a favor da verticalização é péssimo sinal”, protesta.
O partido de Lula resiste a revogar a verticalização, que proíbe coligações estaduais entre siglas que tenham candidatos diferentes a presidente. Sem ela, o candidato Lula teria mais argumentos para impor ao PT, nos estados, alianças em que votos petistas ajudariam a eleger políticos de outras legendas. “O PT descobriu que com a verticalização fica mais fácil para rejeitar alianças. É só por isso que eles são contra derrubá-la. Arrumaram um argumento supostamente republicano para mascarar o exclusivismo”, reforça Renildo Calheiros (PE), líder do PCdoB na Câmara. PSB e PCdoB querem escapar da verticalização para fazer alianças estaduais mais amplas e, assim, tentar atingir a cláusula de barreira de 5%. Os partidos que não alcançarem esse mínimo de votos para deputado federal em 2006 terão direitos reduzidos em relação às demais siglas.
O PT concorda que está atrasado na discussão das alianças. “Precisamos fazer imediatamente o levantamento sobre a situação eleitoral nos estados”, diz o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP). “Feito isso, vamos sentar com todos os partidos da base aliada para saber quais são as reivindicações e os projetos de cada um.” Ele é otimista: “Penso que há grande chance de uma coligação ampla em torno do presidente”. Mas ressalva que “não pode haver imposições, nem de um lado nem de outro”.

Reunião
Amanhã, Lula reúne os ministros para dar a largada informal na campanha da reeleição. Há ainda algum tempo para o presidente e o PT resolverem suas equações, já que no outro lado do ringue a situação segue indefinida. O prefeito José Serra está dividido entre ser ou não candidato, ainda que a maior parte dos tucanos admita que a decisão está nas mãos dele. Com os últimos números, não haverá como o partido negar-lhe a legenda, se ele decidir concorrer. O governador Geraldo Alckmin, maior adversário do prefeito no PSDB, têm consciência disso, mas manifesta a interlocutores a esperança de que Serra decida cumprir até o final o mandato na Prefeitura, em vez de arriscar-se numa guerra de vida ou morte contra Lula.
Qualquer que seja o candidato tucano, a aposta do PSDB é arrancar de Lula o centro político e social que deu a ele os votos para chegar ao Palácio do Planalto. Trabalha para evitar divisões internas que ajudaram a vitimar Serra em 2002. E está de olho na esquerda não lulista, mesmo num eventual segundo turno. As conversas de Serra com o PDT e PPS caminham bem. Mesmo no PMDB governista, não se deve esquecer que o hoje presidente do Senado Renan Calheiros deu a Serra em Alagoas sua única vitória num estado brasileiro três anos atrás.

0 Comentários:

Postar um comentário

<< Home