sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

O choro dos derrotados

No dia seguinte à absolvição de Romeu Queiroz, integrantes da oposição atacavam partidos da base aliada. Já os deputados que correm risco de perder o mandato estavam otimistas depois da decisão do plenário

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 16 de dezembro de 2005 - O dia seguinte à absolvição de Romeu Queiroz (PTB-MG) pela Câmara dos Deputados foi de choro e ranger de dentes entre os derrotados. Os vitoriosos preferiram, em geral, a discrição, esperançosos de que o precedente beneficie outros deputados na fila das cassações. A reação mais dura foi do PPS. Em nota oficial, chamou PT, PP, PTB e PL de “partidos do mensalão” e os acusou de terem fechado acordo para livrar seus deputados. “O PPS vem a público repudiar o conluio dos partidos do ‘mensalão’, que, sob a batuta do próprio governo Lula, mais uma vez, juntam-se para fraudar a vontade popular, ferir a democracia e desmoralizar as instituições republicanas”, diz a nota. O partido afirma também que a decisão de quarta-feira seria “claro sinal de que uma estratégia de abrir as portas para a passagem impune de outros acusados está em curso”.
Queiroz foi o primeiro caso julgado pelo plenário entre os parlamentares que comprovadamente operaram recursos do caixa 2 montado pela dupla Marcos Valério-Delúbio Soares. Faltaram 95 votos para a cassação. Foram 250 pela absolvição, contra 162. Votaram 443 deputados. Mesmo se todos os 70 que não compareceram tivessem votado contra Queiroz, o número teria chegado somente a 232. Faltariam ainda 25 para atingir os 257 necessários à cassação do deputado mineiro. Foi uma derrota política do Conselho de Ética, que aprovara o relatório pela cassação de Queiroz por 12 a 2.

Tradição quebrada
O presidente do conselho, Ricardo Izar (PTB-SP), mostrou desconforto com o resultado. “Quebraram uma tradição, ao não seguir o voto do conselho. Não posso dizer que abre um precedente, mas é ruim”, reclamou. O relator-substituto do caso Queiroz, Nelson Trad (PMDB-MS), afirmou estar preocupado com eventuais “acertos” para salvar o petebista. Trad teve que relatar o processo pois o relator original, Josias Quintal (PSB-RJ), teve um enfarte na véspera da votação em plenário e está internado.
A oposição também não perdeu a oportunidade de alfinetar. O líder da Minoria, José Carlos Aleluia (PFL-BA), reforçou a tese de que teria havido um acordo. “Os números sugerem”, afirmou. Ele disse que a Câmara cometeu um erro ao não referendar a posição do conselho, mas negou que o PFL tenha participado de qualquer acerto. Num gesto incomum, o senador Jorge Bornhausen (SC), presidente do PFL, fez duro ataque ao presidente da outra Casa, Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Disse considerar um “equívoco” Aldo ter colocado o tema em votação no final do período legislativo.
Apesar das críticas da oposição, o fato é que mesmo nas bancadas do PSDB e PFL houve quem articulasse a absolvição. Os parlamentares mais experientes apostavam ontem que Queiroz não teve nem um voto contra entre os 53 deputados de Minas Gerais. O líder do PTB, José Múcio (PE), admite o peso da bancada mineira na decisão. “A vida política do deputado, que é muito bem relacionado em Minas, foi fundamental. Eu diria que Minas inteira votou com ele”, afirmou.
O governo, mais uma vez lavou as mãos, como já fizera na cassação de José Dirceu. O único ministro que se envolveu diretamente na operação para salvar Queiroz foi Walfrido Mares Guia, do Turismo. Walfrido foi secretário do governo de Minas na mesma época em que Queiroz presidiu a Assembléia Legislativa. O réu teve ainda o apoio silencioso dos parlamentares da área de influência política do governador de Minas, Aécio Neves (PSDB).
Os deputados ameaçados de cassação negaram a existência de qualquer acordo. E mostraram algum otimismo, apesar de ressaltarem que a decisão de quarta-feira não será automaticamente repetida nos demais casos. “Algumas lições de ontem (quarta-feira) podem ser tiradas. A Câmara deu o recado de que a cassação, para ocorrer, precisa de fatos muito mais sérios”, afirmou José Mentor (PT-SP). Josias Gomes (PT-BA) disse estar otimista. “Ontem (quarta) se fez justiça. Cada votação tem seu momento, suas condições, e o que aconteceu me deixou bastante otimista”, afirmou.
O presidente do PP, deputado Pedro Corrêa (PE), avalia que a Câmara “sensibilizou-se” com os argumentos apresentados por Queiroz, e por isso acabou tomando a decisão de absolvê-lo. “O próprio parecer que saiu do Conselho de Ética dizia que o deputado Queiroz não teve envolvimento com atos de corrupção. A Câmara ouviu o argumento e analisou de maneira técnica, o que é algo muito favorável”, disse Corrêa. O deputado Pedro Henry (MT), afastou qualquer relação entre seu processo e o de Queiroz. “Prefiro nem comentar, para que não seja feita uma ligação que não existe”. Henry foi acusado por Roberto Jefferson de ser um dos operadores do suposto mensalão, mas ainda não há qualquer prova contra ele.
O deputado Mauro Passos (PT-SC) acusou seu colega Osvaldo Biolchi (PMDB-RS) de ter feito boca-de-urna a favor de Queiroz e distribuído cédulas marcadas com voto contra a cassação. “Ele estava distribuindo votos prontos para os demais deputados.” Passos disse que vai representar formalmente contra Biolchi na Corregedoria da Casa. O peemedebista disse que a acusação é “descabida”.

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