sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

Fim de linha: Dirceu cassado

Por 293 votos, contra 192, o plenário da Câmara tirou o mandato do deputado e ex-ministro da Casa Civil. Acusado de comandar o esquema do mensalão, o petista só disputará uma eleição em 2015

Alon Feuerwerker, Eumano Silva, Helayne Boaventura e Rudolfo Lago

Correio Braziliense, 1º de dezembro de 2005 - O sonho de preservar o mandato de deputado federal acabou ontem para José Dirceu. O plenário da Câmara aprovou por 293 votos a favor e 192 contra a cassação do ex-ministro da Casa Civil. A decisão interrompeu uma das mais conhecidas e bem-sucedidas carreiras políticas construídas nas últimas décadas. A trajetória iniciada como líder estudantil nos anos 60 chegou ao auge nos primeiros meses do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Começou a entrar em decadência há seis meses, depois que o então deputado Roberto Jefferson o acusou de comandar pagamento de parlamentares em troca de apoio ao governo. O ex-homem forte de Lula não poderá disputar eleições até 2015.
A batalha de Dirceu para evitar a perda do mandato foi intensa a ponto de pôr em dúvida parte dos parlamentares sobre o resultado. Mas após a votação secreta, o ex-chefe da Casa Civil teve 20 votos a menos por sua cassação e apenas 36 votos de apoio a mais do que seu algoz, Jefferson, cassado em setembro.
De nada adiantou a mobilização montada nos últimos meses. Ao longo do dia, o deputado José Dirceu contou com a ajuda maciça dos parlamentares do PT e de alguns ministros, como Walfrido Mares Guia (PTB), do Turismo. O Palácio do Planalto, porém, lavou as mãos. A reportagem do Correio falou com pelo menos cinco deputados que estiveram com o ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner, e todos afirmaram que as conversas não tocaram no assunto da cassação de Dirceu.
Chefe da estratégia para tentar salvar o mandato, o ex-chefe da Casa Civil optou por falar sozinho em sua defesa. Falou no total durante 42 minutos. Disse que sua eventual cassação representaria uma “degola política”. Em seu pronunciamento, negou a existência do mensalão. Reafirmou a versão de que o PT havia destinado recursos para partidos aliados pagarem dívidas de campanha e eximiu-se de qualquer responsabilidade pela condução dos negócios partidários no período em que comandou a Casa Civil, de janeiro de 2003 a junho de 2005. “Os deputados e o Brasil me conhecem: fui líder estudantil, vivi na clandestinidade durante a ditadura e nunca fui processado; a Câmara sabe que eu não fui o chefe do mensalão”, atirou.
Durante todo o tempo, o ex-ministro bateu na tecla da falta de provas. Procurou também demonstrar suas convicções democráticas. Negou que tivesse apoiado a tese do “Fora FHC” quando parte do PT queria o impeachment do então presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1999. No momento mais emocional de sua fala, lembrou que, se fosse cassado, só poderia voltar a disputar uma eleição daqui a 11 anos, quando terá 70 anos de idade.
Defendeu ainda o PT tem “mais crédito que débitos” e mostrou confiança no futuro do partido que ajudou a construir. O discurso de defesa em que Dirceu se definiu como um “sobrevivente”, lembrando sua luta contra a ditadura, foi ouvido em absoluto silenciou por um plenário lotado. Ao contrário do relator, que não recebeu palmas, Dirceu foi aplaudido no final por cerca de 60 militantes do PT que receberam senhas do partido para acompanhar da galeria do plenário do dia decisivo. Seu discurso foi bom, mas não o suficiente para salvá-lo.

Suplente
Ele ainda tentou conquistar adesões durante a sessão. Por mais de uma hora, cumprimentou e conversou com colegas na fila da cabine de votação. Às 23h06, deixou a Câmara, pouco depois de votar. Acompanhou do apartamento funcional na Asa Sul a apuração dos votos ao lado da mulher, Maria Rita, e recebeu a visita de petistas. A suplente Mariângela Duarte assume agora o mandato. O último dia de Dirceu como parlamentar começou a ser resolvido depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) permitiu a realização da votação na Câmara.
Ao decidir recurso apresentado pelo ex-chefe da Casa Civil, o tribunal ordenou a retirada do depoimento da presidente do Banco Rural, Kátia Rabelo, única testemunha de acusação contra o petista no processo. Quando a decisão foi proferida, no meio da tarde, o relator do caso, Júlio Delgado (PSB-MG), já havia feito nova versão do parecer. A Secretaria Geral da Câmara também tinha mandado fazer 200 cópias do relatório, cada uma com 17 mil páginas.
Os advogados de Dirceu ainda tentaram, após a decisão do STF, adiar a votação para a próxima semana. Pediram ao presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), nova publicação do parecer. Pressionado pelos colegas a votar ainda ontem o pedido de cassação, e respaldado pelo Supremo, em menos de uma hora Aldo descartou o recurso.
Entre os aliados de Dirceu, apenas o vice-líder do PT, Paulo Pimenta (RS), acompanhou a apuração. “O fato de não ter havido nenhum tipo de comemoração mostra que a Casa tem consciência de que foi um julgamento político”, avaliou. “A única maneira dele não ser responsável por tudo eram os fatos não terem ocorrido”, atacou o deputado Jutahy Júnior (PSDB-BA). “A cassação representa o instinto de preservação da Câmara”, analisou o líder do PSB, Renato Casagrande (ES).

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