segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

A encruzilhada econômica do PSDB

Dividido entre a continuidade e a mudança na política que ele mesmo criou, o partido do Plano Real e da estabilidade procura um caminho para empolgar o eleitorado e retomar a cadeira presidencial em 2006

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 11 de dezembro de 2005 - O PSDB está diante de um dilema hamletiano na sucessão presidencial. A legenda vem sendo responsável por fundamentar, teoricamente, e sustentar, política e ideologicamente, os dois principais vetores da economia brasileira na última década: a âncora cambial e o superávit fiscal. São os dois pedestais em que se apóiam o combate à inflação e a estabilidade, sem dúvida os mais importantes troféus da galeria tucana. Mas, ao olhar para o futuro, o PSDB divide-se entre ser ou não ser. Entre defender a continuidade de suas próprias políticas ou apresentar-se ao eleitorado como o partido artífice da mudança, a legenda capaz de conduzir o país ao desenvolvimento acelerado.
Quando a conversa embica para a disputa da cadeira de Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tem repetido que o PSDB precisa situar-se à esquerda do PT se quiser ganhar a eleição. Para FHC, os tucanos só chegam na frente em 2006 se apresentarem ao país uma proposta clara para superar o tripé composto de juros altos, superávit primário alto e dólar barato. Essa combinação, ou armadilha segundo os críticos, vem contendo os preços e garantindo ao país algum crescimento. Sua continuidade não deixa de ser uma boa bandeira eleitoral. O problema, para quem deseja derrotar Lula, é que o presidente conseguiu se apropriar dela.
Outra dificuldade, para os adversários de Lula, é que a inflação está contida exatamente pelo tripé no qual se pensa em mexer. Ironia da história, o PSDB teme ser encurralado pelo discurso de que sua volta ao poder representaria a ameaça de mais inflação. "Temos realmente dúvidas sobre o efeito que uma política de correção do câmbio teria hoje sobre os preços", admite o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM). "Há quem diga que a abundância de capitais no mercado internacional e os fortes saldos da balança comercial elevariam insuportavelmente os custos inflacionários de uma política voltada para corrigir o real para baixo", diz Virgílio.
O principal partido da oposição sabe que o bate-boca sobre temas éticos na campanha de 2006 promete ser animado. Mas tem também consciência de que a final do campeonato para escolher o sucessor de Lula da Silva vai ser jogada no campo da economia. "O Brasil vem crescendo, mas muito menos do que os vizinhos, menos do que os países emergentes, bem menos do que poderia", atira o líder tucano na Câmara, Alberto Goldman (SP). "Se você adotar uma definição menos convencional de recessão, vai ver que estamos nela. Não há outra saída, vamos ter que apresentar ao país um caminho para acelerar o crescimento e a criação de empregos", completa Goldman, ele próprio pré-candidato à sucessão do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.
Alckmin, assim como seu colega mineiro, Aécio Neves, estão enfileirados entre os tucanos que preferem não mexer na essência da atual orientação. Seus aliados no Senado formam nas divisões que tem ajudado a evitar que o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, seja convocado para depor na CPI dos Bingos sobre as acusações de corrupção em seu segundo mandato de prefeito de Ribeirão Preto (2001-2002). Na última quarta-feira, Aécio esteve em Brasília para receber uma condecoração da Câmara dos Deputados. Perguntado sobre se o PSDB no poder manteria ou mudaria a política conduzida por Palocci, ele saiu pela tangente: "Vamos avançar em relação ao quadro atual".

Tríade
Aécio e Alckmin disputam com o prefeito de São Paulo, José Serra, a indicação do partido para enfrentar Lula. O governador de Minas Gerais acredita que pode ganhar a eleição com um discurso centrado na eficiência administrativa e num choque de gestão. Alckmin aposta na imagem de governante austero, capaz de conter gastos e reduzir o peso do Estado sobre a economia privada. Ambos trafegam na contramão do pensamento de Serra. Em conversas recentes com pelo menos dois interlocutores que se alinham entre seus adversários políticos, Serra afirmou que o próximo governo, com ele ou qualquer outro, precisará necessariamente caminhar para a superação da armadilha. O prefeito não atacou o câmbio flutuante ou as metas de inflação, mas defendeu prioridade absoluta para a redução dos juros e advertiu sobre os riscos que uma moeda sobrevalorizada, durante um período longo, pode representar para o crescimento das exportações e o emprego.
Os aliados de Serra no Congresso são mais explícitos. "Hoje, a economia brasileira funciona de um jeito satisfatório para o setor financeiro e mais alguns. Não os culpo por defenderem que tudo continue como está. Só que, para a maioria do povo brasileiro poder ter trabalho, saúde e educação, é preciso crescer mais", defende o deputado federal Jutahy Júnior (PSDB-BA). "É um erro achar que a classe média e os trabalhadores vão caminhar conosco apenas por causa do discurso ético. Vamos precisar de propostas claras mostrando que o nosso governo vai melhorar a vida das pessoas que mais precisam", completa Jutahy, cotado para assumir a liderança do partido na Cãmara dos Deputados em substituição a Goldman em 2006.
A escolha do candidato tucano está prevista para março do ano que vem. Na sua entrevista à revista Carta Capital que circula este fim de semana, o presidente Lula apostou que o nome para enfrentá-lo será Alckmin. Disse que Serra pagará um preço alto se largar a prefeitura com menos da metade do mandato. Por causa da crise política, todos os possíveis adversários têm reduzido a distância para o presidente nas pesquisas. Mas essas mesmas pesquisas mostram que o prefeito de São Paulo é o único adversário que, hoje, derrotaria Lula se ambos disputassem o segundo turno.

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