sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

Dirceu trabalha para voltar à cena

Advogados devem recorrer ao Supremo para recuperar direitos políticos do ex-deputado; vão alegar novamente falta de provas. No Congresso, aliados podem apresentar projeto para anistiá-lo

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 9 de dezembro de 2005 - O ex-deputado federal José Dirceu vai lutar em duas frentes, a partir do começo de 2006, para tentar reaver seus direitos políticos. Além de autorizar os advogados a prepararem um recurso ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra o processo que resultou na cassação de seu mandato, ele tem esperanças de que possa prosperar na Câmara um projeto de anistia.
Dirceu tem dito a interlocutores, nos últimos dias, que vai esperar as condições políticas ideais para dar cada passo. No front jurídico, advogados amigos, coordenados por José Luís de Oliveira Lima, trabalham para construir os argumentos que serão apresentados ao STF, se e quando o ex-ministro da Casa Civil der o sinal verde.
Um assessor de Dirceu resumiu ontem para o Correio alguns pontos que fundamentam a idéia de que ele teria sido vítima de uma “aberração” jurídica: “Não há acusação formal, pois ela foi retirada pelo PTB; a única testemunha contra Dirceu, Kátia Rabello, presidente do Banco Rural, teve seu depoimento anulado pelo STF; não há confissão; e, finalmente, não há prova material do suposto delito”.
Quanto a uma possível anistia, um parlamentar próximo a Dirceu confirmou que está em estudo. O ex-deputado avalia que melhoraram as condições para lutar por ela. Considera que recompôs o PT em torno de si e que o presidente Lula pode precisar dele para enfrentar a dura campanha pela reeleição. E acha que dificilmente o partido aceitará caminhar para as urnas propondo a simples continuidade da política econômica, o que faria o PT ficar à direita do PSDB, caso o candidato tucano seja o prefeito de São Paulo, José Serra.

“Vergonha”
A esse respeito, o ex-chefe da Casa Civil tem contado a amigos sobre a conversa que teve com um empresário americano, ligado ao Partido Republicano, do presidente George Bush. O aliado de Bush teria elogiado Lula e manifestado preocupação com a possível eleição de Serra, pelas conseqüências que poderia ter sobre a política econômica. “Fiquei com vergonha”, disse o ex-deputado.
Na eterna disputa interna do petismo, Dirceu está, na prática, “anistiado” pelo Campo Majoritário. As propostas de excluí-lo da direção partidária, e mesmo do PT, ficaram no passado. Tem buscado ainda uma aproximação com as correntes de esquerda, especialmente com a Articulação de Esquerda, que ficou em terceiro lugar nas recentes eleições internas.
O ex-chefe da Casa Civil está no Rio, onde prepara com o escritor Fernando Morais o livro sobre sua passagem pelo governo. A cassação causada pelas acusações sobre o suposto mensalão fez Dirceu perder os direitos políticos até o final de 2014, oito anos após acabar a atual legislatura. Como não há eleições marcadas para 2015, na prática ele só poderá voltar a disputar um mandato em 2016, quando devem ser escolhidos prefeitos e vereadores. Se quiser voltar à Câmara dos Deputados, só em 2018. Ou seja, a condenação pelos pares impôs-lhe, em princípio, um banimento de 13 anos.

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