sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

Destino nas mãos do PMDB

Com o apoio sólido apenas nos partidos de esquerda, José Dirceu precisa conquistar votos, principalmente de peemedebistas, para evitar a perda do mandato hoje no plenário da Câmara

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 30 de novembro de 2005 - Em pelo menos um ponto, adversários e aliados do deputado José Dirceu (PT-SP) concordavam ontem na Câmara: o ex-chefe da Casa Civil precisará fazer hoje o discurso de sua vida se quiser virar votos e escapar da cassação, caso o processo vá mesmo ao plenário. Ontem, ele revelou que vai falar de improviso. “Já está na cabeça e no coração”, disse aos jornalistas. À noite, os prognósticos mais favoráveis davam-lhe no máximo 210 votos entre os 513 colegas. O mais pessimistas, em torno de 150. Para cassar Dirceu, serão necessários 257 deputados contra ele, pelo “sim” ao relatório de Júlio Delgado (PSB-MG) que propõe a condenação.
O maior problema do réu está no PMDB, dono da segunda bancada e de três ministérios no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, inclusive o mais rico de todos, a Saúde. Dos 80 peemedebistas, não havia até ontem mais de 15 dispostos a votar “não”. O PMDB da Câmara é um partido dividido ao meio. Os oposicionistas, ligados ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e ao ex-governador do Rio Anthony Garotinho, alinham-se em bloco contra Dirceu. Os governistas, que teoricamente poderiam ajudá-lo, lavaram as mãos. Por ironia, Dirceu foi um convicto defensor da aliança com o PMDB na formação do governo, em 2002. Chegou a fechar um acordo com dois ministérios para o partido, mas foi desautorizado por Lula.
As relações entre Dirceu e o PMDB situacionista vêm estremecidas desde que o então chefe da Casa Civil apoiou ano passado a emenda constitucional que permitiria a reeleição de João Paulo Cunha (PT-SP) e José Sarney (PMDB-AP) para as presidências da Câmara e do Senado, respectivamente. A resistência contra a reeleição foi comandada pelo então líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), e incluiu uma prolongada obstrução dos deputados peemedebistas na Câmara. A emenda não passou, Renan elegeu-se para a cadeira de Sarney, mas o clima entre o Renan e Dirceu nunca mais foi o mesmo.
A fatia em que mais melhorou a situação do ex-ministro nas últimas semanas são o PT e seus aliados de esquerda. Prevê-se que pelo menos 100 dos 119 deputados do PT, PSB e PCdoB votem com ele. Deve ter ainda algum apoio entre os 20 membros do PDT, apesar de os pedetistas fazer oposição a Lula. Mais raros serão os votos pró-Dirceu no PPS (16) e no PV (8). As bancadas do PL, PP e PTB, num total de 135, devem dividir-se ao meio. Previsivelmente, José Dirceu terá também contra si a esmagadora maioria do PFL (61) e PSDB (55) e PSol (7). Podem votar com ele alguns tucanos e pefelistas que nunca apoiam cassações, por convicção individual.

Silêncio
Todos os prognósticos, porém, esbarram no mistério que cerca o voto secreto na Câmara. A maioria dos deputados prefere preservar-se. Ontem, por exemplo, a bancada do PPS estava reunida e alguém sugeriu discutir o assunto Dirceu. A resposta foi o silêncio. Ninguém quis abrir sua posição. Joga contra o ex-ministro a esperança dos colegas de que o sacrifício dele torne menos árida a caça aos votos por um novo mandato no próximo ano. Fora petistas e aliados mais próximos, quase todos admitem reservadamente que não desejam sair em campanha em 2006 tendo que explicar por que absolveram Dirceu.
Outro fator que reduz as chances do petista é a desmobilização do governo, em especial do presidente da República. Lula mostrou toda a força do seu arsenal quando conseguiu eleger Aldo Rebelo (PCdoB-SP) para a presidência da Câmara no lugar de Severino Cavalcanti. A substituição de Severino era estratégica para o Palácio do Planalto, pois é o presidente da Câmara quem decide se um pedido de impeachment de Lula vai em frente ou para o arquivo. Com Aldo, todo o poder de fogo do Executivo foi colocado em ação para evitar a derrota para o candidato do PFL, José Thomaz Nonô (AL). Agora, com Dirceu, os canhões de Lula estão silenciosos. Mais que isso: líderes governistas disseram ontem ao Correio que o Planalto está ansioso para “virar a página de José Dirceu”. Acredita que o desfecho vai ajudar a esfriar a crise política.
Havia também esperança entre os aliados do ex-ministro de que o Supremo Tribunal Federal decidiria hoje a favor do seu mandado de segurança e garantiria com isso mais algum tempo para Dirceu obter apoio político adicional. Mas Dirceu garimpa em terreno desfavorável. Ao contrário de seu colega Antonio Palocci, que costurou no tempo das vacas gordas boas relações com a oposição, o ex-capitão do time de Lula não tem muito como se proteger nessa hora de dificuldade.

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