segunda-feira, 21 de novembro de 2005

Presidente fragiliza Palocci

Ministro da Fazenda tem apoio de parte da oposição, mas encontra resistência dentro do Planalto para manter arrocho da política econômica em ano eleitoral. Lula teme adversário desenvolvimentista

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 20 de novembro de 2005 - O deputado da base do governo visitava o ministro com gabinete no Palácio do Planalto. A conversa resvalou para uma preocupação permanente da elite brasileira: de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva possa ceder à tentação chavista, seguir o exemplo do colega venezuelano, Hugo Chávez, e mobilizar diretamente as massas populares para compensar a falta de apoio político-institucional. O ministro desdenhou: “Antes de chegar a esse ponto, nós temos o orçamento para executar”. Essa conversa já tem mais de um mês, mas só foi contada ao Correio na sexta-feira. O parlamentar, evidentemente, falou com a condição de não ter seu nome revelado.
A história ajuda a lançar luz sobre as crescentes dificuldades políticas do ministro da Fazenda, Antônio Palocci. O czar da economia vem sendo arrastado para o centro da crise política pelas denúncias de supostas irregularidades em seu segundo mandato de prefeito de Ribeirão Preto (SP) nas vésperas da última eleição presidencial. As duas principais acusações contra ele são montar uma operação para receber do governo de Cuba dólares para a campanha eleitoral de 2002 e recolher propina de uma empresa de lixo para abastecer o caixa 2 da direção nacional do PT. Palocci nega ambas as denúncias. Voltou a fazê-lo com veemência no depoimento que deu à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, na última quarta-feira.
O ministro da Fazenda é um animal político cujo instinto de sobrevivência passa, nos últimos dias, pelo seu mais duro teste. Corre o risco de ser defenestrado por, supostamente, arranjar dinheiro ilegal. Não para si próprio, mas para Lula e o PT. Um presidente e um partido que usam essas denúncias para se aliar à oposição mais radical e enfraquecer Palocci. Seria um exagero dizer que o PT e Lula querem derrubar o ministro, como deseja a maioria do PFL. O PT e Lula preferem minar sua resistência a uma política de “cofres abertos” no ano eleitoral de 2006. A ponta-de-lança desse movimento é a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef. “O presidente está firme com o Palocci, só quer um dinheirinho para facilitar a vida dos deputados, senadores e governadores que podem ajudar na reeleição”, explica um dos principais articuladores do Planalto na Câmara dos Deputados. “A Dilma está verbalizando isso.”

Tucanos
Até a oposição mais moderada já percebeu que corre o risco de fazer o papel do gato na história do macaco que não quer tirar as castanhas do fogo para não se chamuscar. Numa inédita convergência tucana, o prefeito de São Paulo, José Serra, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, e o novo presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), articulam há semanas nos bastidores para evitar que o partido ceda às pressões do PFL para arrastar Palocci à CPI dos Bingos.
Na mesma linha atua o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA). “O ACM não quer tirar o Palocci de jeito nenhum”, diz um aliado do cacique baiano. “Ele acha um equívoco imaginar que a derrubada do ministro vá necessariamente enfraquecer o Lula. Pode ter efeito contrário”. Assim como os tucanos, ACM pensa que a troca na Fazenda pode concentrar ainda mais poder nas mãos do presidente.
Diante desse cenário paradoxal, em que aliados comportam-se como inimigos e adversários têm interesse tático em protegê-lo, o ministro da Fazenda agiu na quarta-feira no Senado como um trapezista em busca da mão salvadora. Depois de dias de rumores sobre um suposto “apoio público” que receberia de Lula, Palocci foi à CAE já sabendo que, pela manhã, o presidente defendera a política econômica mas não citara seu nome. Quem conhece a alma de Lula, como o ministro conhece, sabe que o presidente tem horror de se associar a derrotas.
Sem a proteção da rede presidencial, o ministro jogou suas cartas na mesa. Deixou claro que só permanece no governo para executar a atual política. Como um comandante que se amarra ao leme, defendeu enfaticamente o ajuste fiscal de longo prazo como melhor caminho para garantir que o círculo virtuoso do crescimento não será abortado. E disse que é ele quem manda na economia.
Falta convencer Lula. Na sexta-feira, o presidente falou em “consertar” a política econômica, que segundo ele está “em debate”. Não está não. O presidente sabe que a maior ameaça à reeleição virá de um nome da oposição capaz de cavalgar um discurso “desenvolvimentista”. Lula quer fechar esse flanco. Está pronto a sacrificar o projeto de 10 anos que Palocci propôs aos senadores, se isso for indispensável para ganhar mais quatro anos no recém-reformado Palácio da Alvorada.

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