segunda-feira, 14 de novembro de 2005

Mais uma vez faltaram provas

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 13 de novembro de 2005, de Sinop (MT) - A falta de provas de que o mensalão realmente existiu foi o pretexto usado pela Câmara dos Deputados para cassar o mandato de Roberto jefferson em setembro. Dois meses depois, a ausência de provas robustas persegue novamente, agora em outro cenário, a vida do homem que acendeu o estopim da crise política. De volta à profissão de advogado do júri, Jefferson foi derrotado em sua primeira batalha. Depois de 22 horas de julgamento, os jurados de Vera (MT) decidiram por 4 a 3 inocentar o fazendeiro Vilmar Taffarel da acusação de mandar matar, em 24 de novembro de 2001, o então vereador Augusto Alba.
Augusto sobreviveu ao pistoleiro que invadiu a casa dele para tirar sua vida naquela noite de sábado. Só que uma das cinco balas da pistola do matador Charles Borges da Silva atingiu o lado direito do peito de Keila, sua filha de 12 anos. "Foi a mim que eles acertaram, pai. Mas eu sou forte e vou sair dessa", sussurou a menina, antes de morrer de hemorragia aguda, com a artéria aorta rasgada pelo projétil de 9 milímetros.
A visão do sangue de Keila espalhado pelo quarto do casal Alba salvou Augusto, que se escondera embaixo da cama. Convencido de que o havia executado, Charles fugiu do local do crime sem completar o serviço. Charles está preso e aguarda julgamento, assim como o acusado de recrutá-lo, Isaías Galdino.
Isaías e Charles montaram a ação motivados por uma conversa de Isaías com seu chefe, o técnico florestal Tarcísio Thielsen, amigo de Vilmar Taffarel. Tarcísio relatou que Vilmar havia dito numa roda de bar, em tom de desabafo, que pagaria até R$ 5 mil para quem matasse Augusto Alba, o ex-aliado que havia se transformado no mais feroz adversário da então prefeita Isani Konerat, irmã de Taffarel.

Indícios frágeis
Na versão da defesa, Tarcísio, Isaías e Charles agiram por conta própria na esperança de receber o dinheiro depois. Durante todo o julgamento, o advogado criminalista Cláudio Alves Pereira sustentou que Taffarel apenas fizera um comentário irresponsável, irrefletido, e que não tivera a intenção de mandar matar Augusto. "Fez-se justiça, agora vamos lutar para pôr os verdadeiros criminosos na cadeia', desabafou Pereira após o veredicto.
Já para a acusação, o irmão da ex-prefeita foi o mandante e se esconde atrás dos outros três envolvidos. Faltaram as provas para sustentar exatamente essa conclusão do Ministério Público e de Jefferson, que atuou como assistente da promotora Clarissa Lima. A acusação não conseguiu apresentar a comprovação irrefutável de que Taffarel realmente contratou ou mandou contratar Charles. No final, a votação apertada dos jurados pode ser creditada à oratória de Jefferson.
Como fizera em Brasília com seus alvos do governo e da base aliada, ele apelou para que o júri minimizasse a fragilidade das provas e decidisse com base nos indícios de que Taffarel estava por trás do crime. No ponto alto da argumentação, ele demonstrou que nem Tarcísio, nem Isaías e nem Charles tinham qualquer motivo para matar Augusto, e que o único interessado era mesmo o réu. Conseguiu arrancar três votos, mas faltou o decisivo. Ao final do julgamento, a promotora disse que vai tentar anulá-lo, por supostas falhas técnicas.
De todo modo, haverá o recurso ao Tribunal de Justiça do estado. Jefferson achegou ao caso pelas mãos do correligionário Ricarte de Freitas, deputado federal pelo PTB-MT. Augusto Alba teve a idéia de chamá-lo depois de ver, pela televisão, seu desempenho nas CPIs e no Conselho de Ética. 0 ex-presidente do PTB trabalhou de graça no caso, apenas em troca das passagens e da hospedagem.
A história da desavença entre Augusto e a ex-prefeita é a crônica de uma tragédia anunciada. Isani elegeu-se pela primeira vez em 1996 e o nomeou secretário de obras. Em 2000, convenceu Augusto a ser candidato a vereador na chapa em que ela disputaria a reeleição. Ele aceitou, elegeu-se, mas decidiu romper com ela e passar para a oposição, que ficou com a maioria na Câmara Municipal. A partir daí, concentrou seu mandato nas denúncias contra Isani, por supostas irregularidades, como a contratação de funcionários sem concurso e mau uso de verbas estaduais. Até que Taffarel se convencesse de que Augusto desejava mesmo era cassar o mandato da irmã.
0 julgamento começou às 8h10 da sexta-feira e só terminou às 6h do sábado. Por duas vezes as luzes se apagaram na Câmara Municipal de Vera, aparentemente por causa da forte chuva que caiu à noite. 0 ar condicionado não foi suficiente para atenuar o calor de quase 35 graus na sala superlotada em que cabem 80 pessoas, mas havia pelo menos o dobro. Cinqüenta soldados da PM guardavam o prédio, revistando a todos com detector de metais. Havia o temor de que uma eventual absolvição despertasse a fúria dos habitantes. Depois de inocentado, Taffarel deixou a Câmara com um colete a prova de balas.
Mas a tranqüilidade continuou em Vera, mesmo depois do resultado. Sueli Alba, mãe de Keila, parecia serena. "Desculpem, mas não tenho o que dizer", afirmou aos jornalistas. 0 Correio perguntou a Isani Konerat o que ela diria a Sueli, se tivesse oportunidade. "0 amor, e não o ódio, é o sentimento que pode fechar essas feridas", respondeu a irmã do réu. Antes, no julgamento, Jefferson perguntara a Augusto, se, pela memória da filha morta, ele assumia o compromisso de buscar a paz em Vera. "Sim, eu assumo", garantiu.
Resta saber se vai ter forças para cumprir a promessa.

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