quarta-feira, 2 de novembro de 2005

Mais perto da degola

Deputados incluídos na relação dos cassáveis se complicam ainda mais com denúncia de que dólares cubanos foram enviados para inflar suposto caixa 2 petista, que agora está no epicentro do escândalo

Alon Feuerwerker

Correio Braziliense, 1° de novembro de 2005 - A acusação de que dólares americanos de origem cubana irrigaram um hipotético caixa 2 na última campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva complicou um pouco mais a situação dos deputados que esperam no “corredor da morte” do Conselho de Ética. Avaliação reservada, colhida ao longo do dia de ontem entre os conselheiros, indica que se estreitou o espaço para uma possível gradação de penas. “Antes o escândalo estava no suposto mensalão. A explicação de que tudo era caixa 2 aparecia como atenuante. Agora, o caixa 2 foi colocado no centro do escândalo”, resume um deputado.
“Será muito difícil que o conselho recomende não cassar qualquer um envolvido com dinheiro não-contabilizado”, confirma Josias Quintal (PSB-RJ), relator do caso de Romeu Queiroz (PTB-MG). A situação de Queiroz é emblemática. O próprio Quintal admite que o réu não ficou com o dinheiro enviado por Marcos Valério, mas repassou para candidatos petebistas.
Na semana passada, quando Quintal apresentou sua posição pela perda do mandato de Queiroz, houve reação entre os conselheiros. O tucano Carlos Sampaio (SP) declarou que faria um voto em separado. Ontem, Sampaio revelou que vai apoiar a posição de Quintal, pela cassação. “Meu voto em separado será um outro caminho para chegar à mesma conclusão.”
Há esperanças para quem, como José Mentor (PT-SP), diz poder demonstrar que os recursos recebidos foram totalmente contabilizados. Ou para quem, como Sandro Mabel (PL-GO) e Pedro Henry (PP-MT), não tiver contra si prova de ter recebido dinheiro ilegal. Para os demais, a esperança está no plenário. São necessários 257 votos para cassar o mandato de um deputado federal, em votação secreta.
Deputados petistas ameaçados de perder o mandato fizeram ontem, reservadamente, duras críticas ao fato de só agora o PT e o governo terem começado a reagir aos ataques da oposição. “Acharam que o problema deles estaria resolvido se entregassem o nosso pescoço à guilhotina. A vida mostrou que a oposição não vai se satisfazer com o nosso sangue, quer o do Lula”, diz um ex-cardeal petista.
Outro detalhe que incomoda alguns dos “cassáveis” do PT é se considerarem “bodes expiatórios” da crise. Um deles mostrava, no plenário da Câmara, inconformismo com tratamento dado pela oposição ao ex-ministro José Dirceu. “Se o Zé tivesse contra ele 10% das evidências que existem contra o Palocci a oposição já teria pedido não a cassação, mas a prisão dele. O Palocci, nem convocado a depor é. PSDB e PFL estão na blindagem dele.”
Os ameaçados de cassação continuam em forte campanha para tentar se salvar na votação secreta de seus pares. Paradoxalmente, quanto mais perto de Lula chegam as acusações, mais eles acreditam que poderão escapar da cassação. “O enredo era nos cassarem e com isso matarem a crise. Vai ficando cada vez mais evidente para muitos que nosso sacrifício será inútil. O único resultado prático será deixar Lula mais exposto e mais frágil”, diz um deles.

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