quinta-feira, 24 de novembro de 2005

Enfim, Lula banca Palocci

Ministro reafirma a manutenção da política econômica e arranca declaração de apoio do presidente: “Ele está mais firme do que nunca”

Alon Feuerwerker e Sandro Lima

Correio Braziliense, 23 de novembro de 2005 - O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, ganhou ontem um fôlego extra na luta para resistir ao “fogo amigo” do Palácio do Planalto e às pressões de parte da oposição, concentrada no PFL. Num bom dia para Palocci, ele sobreviveu ao depoimento na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, conseguiu não ser formalmente convocado para a CPI dos Bingos no Senado e viu o presidente da República afirmar, na saída de um evento em Luziânia, que está “mais firme do que nunca” no comando da economia.
O mercado, fiel aliado, tampouco lhe faltou. Depois de horas nervosas, com as notícias sobre a possível substituição na Fazenda, a Bolsa de Valores de São Paulo refletiu a melhora do ambiente político para Palocci e fechou em alta de 1,22% (leia mais na página 4).
Palocci sobreviveu basicamente porque nem governo nem oposição parecem dispostos a assumir a responsabilidade pelas conseqüências de sua saída. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem estimulado a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, a atacar o aperto fiscal de longo prazo, viga mestra do projeto de Palocci para a economia brasileira. Lula quer recursos para investir no ano “reeleitoral” de 2006 e trabalha para minar a resistência do ministro da Fazenda, ao afirmar publicamente que os rumos da economia estão “em debate”. Mas não deseja a saída de Palocci, que desde a Carta aos Brasileiros em 2002 funciona como uma espécie de garantia contra os temores do empresariado em relação ao presidente e ao PT.

Convicção
A oposição está dividida. O “núcleo duro” do PFL, alinhado com o presidente do partido, senador Jorge Bornhausen (SC), trabalha pela queda de Palocci com a convicção de que significaria a morte política do governo Lula. Mas os pefelistas ligados ao senador Antonio Carlos Magalhães (BA) e a maioria do PSDB receiam que uma eventual substituição possa ter efeito contrário. Temem a condução “política” da economia em 2006, com o afrouxamento nos gastos e a utilização escancarada do Orçamento da União como instrumento eleitoral. E acreditam que os compromissos públicos de austeridade seguidamente assumidos por Palocci são um seguro contra isso.
Acossado por acusações de irregularidades na época em que foi prefeito de Ribeirão Preto (SP) — leia mais ao lado —, Palocci entrou na linha de tiro nas últimas semanas ao ver-se subitamente atacado em público por Dilma, que classificou de “rudimentar” a proposta de ajuste fiscal da equipe econômica. Segundo a Fazenda, de duas uma: ou elevar o superávit primário para além dos 4,25% da meta oficial, ou assumir um compromisso de longo prazo com essa meta, pelos menos por 10 anos. Essas seriam as únicas formas de acelerar a queda dos juros, já que o câmbio flutuante e a meta de uma inflação decrescente são dois dogmas considerados imexíveis.
Há pelo menos duas semanas Palocci espera de Lula uma manifestação inequívoca de apoio contra Dilma, mas não consegue. Nas últimas 48 horas a tensão entre o ministro e o presidente bateu todos os recordes, e a expressão emburrada de Palocci em cerimônia, no Palácio do Planalto, na última segunda-feira foi o termômetro. Numa conversa à noite, Lula e Palocci aproximaram-se de um acordo: o debate continua aberto, mas é o ministro quem comanda a economia. Ou seja, enquanto Palocci estiver no cargo, a política adotada será a que ele defende.

Fortalecido
O acordo entre o ministro e o presidente contribuiu decisivamente para baixar a temperatura ao longo do dia de ontem. Um alto dirigente do PT disse reservadamente ao Correio que Palocci “esticou a corda” para garantir seus pontos de vista e que pode estar perto de vencer. “Hoje, é mais provável ele ficar no governo, e fortalecido, do que sair”, resumiu.
No PSDB, a conclusão é a mesma, por outros caminhos. Os tucanos avaliam que o grande problema de Palocci é não ter como oferecer a Lula a garantia de que suas propostas vão pavimentar o caminho para a reeleição do presidente. Mas acham que se o presidente abrir mão do ministro estará “saltando numa piscina vazia”, nas palavras de um dos líderes do partido na Câmara. Por isso, enxergam em Palocci alguém que, preocupado com a própria biografia, poderia garantir algum equilíbrio ao longo do processo sucessório-eleitoral. Mais ou menos como Pedro Malan em 2002.
Ontem, após encontrar Lula, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), expressou melhor esse sentimento. “Pessoalmente, a não ser que surjam fatos absolutamente novos e fora de controle, acho que para o Brasil a presença do ministro Palocci é importante. Sobretudo nós, do PSDB, que temos condições de vencer as eleições presidenciais, preferimos assumir um país com a economia estabilizada e com contratos honrados e não um país desorganizado”, afirmou Aécio, ele próprio de olho na cadeira presidencial.

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